• Lays Vieira

Corpo, política e (r)existir

24ª Mostra de Tiradentes

Quarto dia de debates em Tiradentes une cinema e teatro para falar das potencialidades dos corpos

Debate está disponível no canal do Youtube da Universo Produções. Foto: Divulgação


Assim como nos anos anteriores, o festival trás debates importantíssimos, não apenas para o mundo do cinema, mas para a sociedade como um todo - o primeiro muitas vezes servindo de ponte frente ao segundo. E não foi diferente no quarto dia da mostra desse ano, a tarde do último dia 25 foi marcada por uma potente roda de conversa: Corpo, Arte e Resistência.


Mediada por Daniele Ávila Small, crítica, pesquisadora e curadora de teatro, o debate contou com três convidados: as diretoras Dea Ferraz (Agora) e Sara Antunes (De Dora, por Sara) e o diretor Macca Ramos. O fio condutor foi pensar a presença e a materialidade dos corpos em cena e suas poéticas, possibilidades, limites e tensinamentos. Aqui, a estética é a chave para pensar como os diversos corpos resistem e respondem ao nosso tempo e ao momento político.


E é justamente por isso que Daniele Ávila abriu a conversa como uma espécie de inversão de caminhos: pensar a materialidade e a presença dos corpos não só em cena, mas também na autoria dessas obras. Pensar a presença no lugar onde se possibilita expressar pensamento crítico. Muitas vezes esse lugar é pouco ou nunca ocupado por grupos e minorias: “corpos presentes, sem estar presentes”. A mediadora coloca a agência e o endereçamento (contar e escrever para quem? Para que corpos?) do sujeito como objeto de debate, destacando, por um lado, seu ato de resistir e responder e, por outro, como fica a criação para além da reação.


Com essas inquietações Dea Ferraz nos propõem a refletir sobre o que é e qual a força da imagem, tendo como recorte o escancarado abismo no Brasil desde 2018. “O corpo é receptáculo de quem a gente é”, então o que nossos corpos podem dizer diante desse abismo? Para a diretora é necessário conectar nossos corpos, sua presença, ao momento histórico do país e entende-lo como um espaço real e concreto de resistência e existência.


Dentro dessa lógica, Sara Antunes propõem uma abordagem pela chave da subjetividade. Ela usou experiências pessoais para falar da maternidade e do patriarcado em seu filme. Já Macca Ramos trás a importância do questionamento, corpos que questionam, e da presença (física, existência) para mudanças, especialmente no momento em que vivemos. “Um corpo só não faz a engrenagem se mover”. O diretor também destacou que falar de corpos e falar de perdas, especialmente quando se trata de negros e indígenas (corpos mortos, violados, agredidos, etc).

Por isso é tão importante se falar de corpos no cinema, do seu simbólico. Para Dea Ferraz “o cinema também reproduz todas as violências que o mundo do capital impõe a gente”. Corpo também é memória e diz de tudo aquilo que carregamos enquanto povo. Consequentemente, a imagem é capaz de recriar sensações (o corpo enquanto tela, por exemplo) no espectador e potencializar o corpo enquanto um lugar e identidade e libertação.


Além da roda de conversa para fechar a tarde do dia 25, a mostra também trouxe treze filmes em destaque, com acesso gratuito e online pelo site do evento.


Veja abaixo:



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