• Rosângela Aguiar

Covid aumenta a desigualdade social e racial

Artigo

Estudo realizado pelo IPEA e UFRJ revelam o racismo estrutural acentuado pela pandemia de Covid-19

Brasil ultrapassa a marca de 200 mil mortos por incompetência do governo federal. Foto: J.Lee/Arquivo


A desigualdade social e econômica é uma situação endêmica no Brasil que se acentuou desde o início da pandemia de Covid-19. E essa desigualdade tem, além da renda, a cor das pessoas: uma realidade que deve ser avaliada bem de perto pelo governo federal. O estudo do Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que os trabalhadores negros correm 39% a mais de risco de morte por Covid-19 do que os trabalhadores brancos.


Já o trabalho publicado na revista britânica Public Helth revela que 70% dos brasileiros com curso superior e brancos tem 44% menos chance de morrer por Covid-19 do que as pessoas que não tiveram acesso ao ensino superior, sendo a grande maioria negros e pobres.


São esses trabalhadores, em sua maioria pobre e negra, que enfrentam transporte público (trens, ônibus, metrô) lotados, mesmo em tempo de pandemia, porque os grandes conglomerados de transporte no país todo reduziram a quantidade de veículos que faz transporte de passageiros. A situação persiste mesmo com as determinações de governos estaduais e municipais para conter a pandemia.


No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, quando muitos, como eu mesma, reclama das praias lotadas, temos que refletir no que pensam esses trabalhadores em pleno verão carioca com temperatura acima da média. No dia a dia, essas pessoas enfrentam longas filas, transporte lotado e horas para chegar ao trabalho e em casa. Enfrentam o perigo de ser infectado pelo coronavírus e quando chega o final de semana, porque não aproveitar as belas praias cariocas? Se já são expostos de segunda a sexta, não vai ser o final de semana na praia que vai fazer a diferença. Este tem sido o pensamento da grande maioria que lota as areias cariocas.


Para o professor de epidemiologia da UFRJ e coordenador do estudo em parceria com o IPEA, Roberto Medronho - em reportagem do jornal O Globo no dia 24 de janeiro - afirma que a vacinação contra a Covid-19 vai acentuar ainda mais a desigualdade social e racial. Para ele é “justo e necessário que haja prioridade para eles (pobres, em especial negros). Eles devem ser incluídos no grupo de prioridade”. Isto porque 75,2% do pobres no Brasil, segundo dados do IBGE, são negros, assim como dois terços dos desempregados do país.


Outro estudo da UFRJ revela que onde a desigualdade social e população negra, maior a prevalência da Covid-19, ou seja, o número de casos de pessoas infectados é maior. E pior, a letalidade da Covid-19 em negros internados em UTI chega a 79% contra 56% de pessoas brancas.


Enquanto não for feito nada em relação a desigualdade social e racial, mais pessoas pobres e negras vão morrer em decorrência da pandemia. Ou a sociedade como um todo começa a enxergar isso e pressionar o Governo Federal para reduzir essa desigualdade social e racial, ou essa crise vai aumentar ainda mais. Para piorar, temos um Governo Federal que parece não se incomodar com o número de mortes de brasileiros. São esses trabalhadores que fazem a roda da economia girar.


Para os pesquisadores da UFRJ, IPEA, PUC/RJ e de outras instituições, não é difícil de garantir essa prioridade e acabar com essa desigualdade na vacinação também. Eles lembram que o país possui o mapeamento dessas pessoas, como os cadastros do Bolsa Família, auxílio emergencial, entre outros. Pelo visto não faltam meios técnicos, mas com certeza faltam vacina e vontade política para acabar com essa cruel realidade desigualdade social.

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