• Marcus Vinícius Beck

Da praia à feira

Botequim Literário

Beck na barca, sentido Niterói, 2020. Foto: J.Lee


Dia desses, batendo perna nas imediações do Largo da Carioca, região central do Rio de Janeiro, adquiri numa feira de livros uma obra que – como diz minha amiga-bruxa Lee Aguiar – vai fazer você mudar de cidade“. Era “Areias Escaldantes – Inventário De Uma Praia“, compilado de crônicas da escritora... que nomão difícil, sô... Scarlet Moon de Chevalier, publicadas às quintas-feiras no caderno Zona Sul, de O Globo.


É, meus caros, confesso: quero mudar-me de cidade, e de preferência nas próximas semanas, meses, dias... rogo ao universo, para citar uma frase eternizada pelo mestre do soul Tim Maia, na canção “Réu Confesso“, o teu perdão. Imagino um quarto na Lapa que faria inveja em Henry Chinaski, personagem enigmático dos romances de Charles Bukowski, o maior contador de mentiras da literatura de todos os tempos.


Estávamos voltando do Posto 9, em Ipanema, mais ou menos meio-dia, uma hora da tarde. Lembrei-me da turma que marcara presença nos botequins próximos à Joana Angélica, avenida perto da orla, após bater o ponto na Redação: Jaguar, Tarso de Castro, Paulo Francis (quando ainda não tinha se bandeado pra mais raivosa direita) e mais uma trupe fodona.


Aliás, “O Pasquim“, jornal de deboche que fazia oposição à ditadura civil e militar, é filho consanguíneo das loucas cervejadas ipanemenses entre jornalistas cansados de falar aquilo que patrão queria.


Eu, como de costume, tinha sorvido alguns latões de Brahma pra criar coragem e mostrar minha pouco saudável palidez sulista refugiada no inferno climático goiano. Pensei numa frase que Chavalier credita a Jaguar: “Intelectual não vai à praia“.


Pois fui – não que eu me considere propriamente um intelectual.


Anistiei-me no Rio de Janeiro lá pelo dia 13 de setembro pra encarar meu sonho: virar um escritor, digo, cronista – tipo aquela turma que enchia a cara e batia uns textos curtinhos, de 3 mil toques, nos jornais cariocas dos anos 1950, como Paulo Mendes, Stanislaw Ponte Preta, Antonio Maria e mais um bocado de gente da pesada.


Juntei uns trocados, mais precisamente minha fortuna mensal ganhada com o suor do jornalismo, e caí fora de Gyn.


Até os dias que antecederam minha estadia poética, etílica e erotizante na Cidade Maravilhosa tudo o que me restava eram momentos de penumbra financeira e solidão existencial.


Quase pirei, mas fui em frente.


Em um primeiro momento, minha intenção era permanecer no Rio não mais do que duas semanas, porém num estalar de dedos fui convencido do contrário, e acabei ficando, ficando, ficando, ficando... tô aqui até hoje, enquanto bato estas palavras de uma confissão pilantramente monumental.


Desconfio, ô se não!, que a qualquer momento devo ser expelido pra fora de casa pela minha musa Lee Aguiar, te amo, amiga, faz isso comigo não, por favor!


Apesar de ter devorado os grandes ensinamentos da cultura carioca entre uma feira e outra, entre um sebo e outro, entre um boteco e outro, digo-vos: vou ler Areias Escaldantes – Inventário De Uma Praia“ apenas quando ingressar a Goiânia, o que certamente vai ocorrer na próxima segunda, terça, quarta... não, Beck... você vai embora segunda, cara!


Será que Lee Aguiar tem razão e eu vou ler Areias Escaldantes – Inventário De Uma Praia“ e voltar, em definitivo, pro Rio?


A propósito, alô torcida do Flamengo, o Rio de Janeiro continua lindo!