• Metamorfose

Da telinha à esplanada

Perfil

Atriz Regina Duarte aceitou na última segunda-feira (20) convite de Bolsonaro e será nova secretária de cultura do governo


Regina Duarte com o Bolsonaro e funcionário do governo - Foto: Reprodução


Regina Duarte, 72, é um trunfo para o bolsonarismo: antipetista, direitista, conservadora, simpática, mocinha e uma personalidade que tem o carinho do público. Seus posts nas redes sociais e entrevistas não deixam margem para dúvida: a atriz é uma crítica ferrenha das administrações de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Mas, com a polarização tomando conta do cenário político desde 2016, a ‘namoradinha do Brasil’ pisou na bola e disse algumas bobagens. “É homofóbico da boca para fora”, declarou sobre Bolsonaro.


Em qual mundo vive Regina Duarte? O de mocinhos e vilões? Das telenovelas de Manoel Carlos? Sim, desde as eleições, a atriz foi ‘cancelada’ nos tribunais do Facebook, Twitter e Instagram, mas é fato que ela se destacou como uma das intérpretes mais corajosas - por mais contraditório que isso aparente ser, não é mesmo? - durante os anos de chumbo da ditadura militar. Em 1975, por exemplo, ela estava na comitiva de 23 profissionais da Globo que foram do Rio a Brasília protestar contra a censura à novela “Roque Santeiro”.


Um das mais queridas personalidades da teledramaturgia, Regina Duarte nasceu em Franca, no interior de São Paulo, mas cresceu ao lado dos pais e quatro irmãos, em Campinas. Aos 18, estreou na televisão interpretando Malu, no folhetim A Deusa Vencida, da extinta TV Excelsior. De lá para cá, a atriz enfileirou personagens e mais personagens que caíram nas graças do público: Andréia, em Véu de Noiva, Ritinha, da primeira versão de Irmãos Coragem, e Patrícia, de Minha Doce Namorada. Regina começava a fazer sucesso.


Os papéis de destaque continuaram aparecendo, mas ela transgrediu normas e padrões de fato em 1979, quando interpretou uma mulher recém divorciada em Malu Mulher, de Daniel Filho. Seis anos depois, viveu um dos momentos mais marcantes da carreira: a Viúva Porcina, de Roque Santeiro, papel que lhe deu prêmios e até hoje é lembrado pelos fãs - Regina, paralelamente, participou de comícios a favor das Diretas Já. Em Vale Tudo, de 1988, deu vida a sofrida Raquel, onde protagonizou cenas antológicas com Glória Pires.



Regina em papéis que lhe tornaram conhecida do público - Fotos: Reprodução/ Acervo TV Globo


Regina fez sucesso ainda na pele de Maria do Carmo, em Rainha da Sucata, de 1990. Nos anos seguintes, trabalhou em Retrato de Mulher, o remake de Irmãos Coragem e o início das Helenas, de Manoel Carlos, com História de Amor e Por Amor. “Regina Duarte é uma atriz brilhante. E ousada: interpretou, quatro décadas atrás, o primeiro orgasmo da TV brasileira. Ela vivia a protagonista de Malu Mulher. O que os fanáticos bolsonaristas achariam de uma cena linda assim?”, disse o jornalista Mário Magalhães, numa rede social.


Postura conservadora


Mesmo fazendo personagens à frente do tempo, a atriz sempre se manteve fiel a uma postura reacionária, e não escondeu de ninguém. “Embora tenha tido atitudes de vanguarda, sempre fui e continuo conservadora”, afirmou. Tanto é que ela historicamente apoiou candidatos do PSDB e, numa das ocasiões, chegou a fazer campanha a favor de José Serra em disputa à presidência contra Lula. “Eu tô com medo”, dizia à época. O medo, na verdade, era de que o petista implantasse o socialismo no País, o que não chegou a acontecer.


Regina, na realidade, alimenta velha paixão pelos tucanos. Quando o então candidato à prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, concorreu com Jânio Quadros, ela foi a favor do sociólogo: “Minha gente, a hora da decisão está chegando”, disse. "Eu acho que a gente tem que fazer isso para impedir que as forças da corrupção e da ditadura voltem a se juntar e destruam a nossa frágil democracia. Gente, não vamos nos iludir nesse momento. Votar em Suplicy é ajudar o Jânio", completava, citando, sem muito sentido, o nazismo.



Atriz com o então candidato a prefeito de São Paulo, João Dória, durante a campanha de 2016 - Foto: Reprodução


Claro que um histórico antipetista desses não poderia levar Regina Duarte a outro lugar senão para a esplanada dos ministérios. Embora tenha dito que não está preparada para a empreitada, Regina aceitou nesta segunda-feira (20) o convite do presidente Jair Bolsonaro. Mas um aspecto levanta a pulga atrás da orelha: a atriz se comporta como as mocinhas puritanas do passado, que tanto interpretou na telinha. Acontece que na vida real as coisas são bem diferentes: não há mocinho e vilão, e a política não é um enredo de Manoel Carlos.