• Marcus Vinícius Beck

De portas fechadas

Atualizado: Mai 3

Botequim Literário

Retrato da entrada da Casa Liberté, no Centro de Goiânia - Foto: Thiago Rabelo/ @wideawakn



Na mão direita, segurava um exemplar de “Diário Subversivo: Dias de Embriaguez, Utopia e Tesão” e, com a esquerda, grifava os trechos mais apimentados para ler assim que a banda Jefferson Airplane parasse de tocar no auto-falante. Para me manter concentrado, eu sorvia um uísque duplo com uma pedra de gelo ao mesmo tempo em que bebericava uma cerveja esperando para compartilhar a dádiva do livro publicado.


O lançamento de uma obra de envergadura é a glória da existência de um escritor. É como se estivéssemos clamando por um chamego enquanto confabulamos para um desconhecido nossa faceta mais íntima, de algo que marcou nossos dias e nossa vida. Minha alma, gritando pela liberdade das palavras, pedia-me pela necessidade de disseminar as frases subversivas escritas no caldo das ocupações de 2016.


Fosse um sujeito que não tivesse tanto apreço por bares, talvez eu escolhesse fazer esse evento num lugar mais apropriado, como uma livraria ou um café. Digo, contudo, que não havia outro espaço para isso: a Casa Liberté funcionava como um ponto de cultura que, único no Centro-Oeste e certamente no Brasil, tinha ilustrado na parede retrato do anarquista russo Mikhail Bakunin e os pratos do cardápio levavam os nomes dos revolucionários Carlos Marighella, Rosa Luxemburgo e Ângela Davis.


O embrião da Liberté começou a ser gestado em maio de 2018, com a festa de mesmo nome que ocorreu no Cabaret Voltaire, no Itatiaia. Para criar a concepção estética e visual, o jornalista Heitor Vilela se baseara na insurreição de maio de 1968, quando estudantes e trabalhadores parisienses foram às ruas para protestar contra o governo opressor do ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, general Charles De Gaulle.


Sim: a Liberté serviu como um sopro de esperança na desgastada cena cultural da capital goianiense. Entre uma conversa despretensiosa sobre literatura ou política, tínhamos a audácia de acreditar que a derrota do fascismo era iminente.


Pois é, veja que pretensão a nossa… Aniquilar os horrores do fascismo.


Trabalhadores da boemia, uni-vos! A casa sempre abria as portas às 17h30, atraindo uma fauna bem diversificada de clientes à procura da carta de alforria do capital: funcionários de redação (como este operário do texto), alguns de escritórios, professores universitários, músicos, cineastas, escritores e poetas. Sem contar, claro, no clima afetivo e acolhedor do espaço: ali todos nós nos sentíamos abraçados.


É fato: Heitor, ao alugar um casarão art déco na Rua 19, atrás do histórico Colégio Lyceu, despejou um combustível estimulante sobre a produção cultural de Goiânia.


Rolaram debates sobre mercado editorial brasileiro, lançamento de livros, de singles, de EP´s e sessões com filmes nacionalmente premiados, como “Parque Oeste” e “Que Bom Te Ver Viva”. Até o filósofo Vladimir Safatle tirou onda como DJ numa noite na casa. Pudemos fazer curso de vinho com o sommelier do povo. Assistimos o coletivo anarquista Cromethintc lançar a obra “Da Democracia à Liberdade”, numa turnê pela América Latina - hoje, eles são criminalizados no Tio Sam graças a Donald Trump.


Assim era a Liberté: charmosa, elegante e diversa.


Tornou-se um paraíso onde, nós, seres inconformados com essa neoliberalização da vida, tínhamos a liberdade para existirmos, para amarmos, para pensarmos e, óbvio, para enchermos a cara com a melhor invenção da Escócia ou, na falta dela, da brasileira – as cachaças da casa, meu rapaz, eram supimpas, hein!


Por não aceitar funcionar durante o período mais crítico da pandemia de covid-19, a Casa Liberté acabou fechando as portas na última semana, ao mesmo tempo que o coronavírus jogou uma pá de cal numa região da cidade que pode ficar às mínguas. No início da distopia em curso na cidade e no país, Heitor apostou no delivery e, quando as coisas estavam indo bem, veio mais uma onda da peste.


E com ela, o veredicto: não havia outra saída a não ser fechar as portas. Não era justo colocar a vida dos trabalhadores e seus familiares em risco.


Casa Liberté (2018-2021): aqui jaz um templo cultural e boêmio, onde vivemos as melhores mil e tantas noites de nossas vidas. E, claro, onde lancei meu primeiro e único livro, numa noite de elucubração etílica que - enquanto estamos isolados nos cubículos pandêmicos - fica gravada nas lembranças de um tempo pré-covid, e distante de nós.


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