• Marcus Vinícius Beck

Diamante sensual

Cinema

Obra-prima do cinema, ‘Jules e Jim’ fala sobre triângulo amoroso sem soar piegas; obra está disponível na Mostra 125 anos de Cinema

‘Jules e Jim’: filme de François Truffaut é um poema de amor - Foto: Reprodução


Gosto de revisitar os clássicos porque são filmes que sempre têm novidades a nos mostrar. “Jules e Jim”, longa de François Truffaut lançado em 1962, é um desses diamantes sensuais que resistem ao tempo e guardam lições essenciais: ali vemos se desnudar um triângulo amoroso que eleva o amor à condição de sentimento crucial à existência humana. Truffaut consegue falar sobre ménage à trois sem soar piegas.


Talvez por isso a única expressão possível para definir o filme seja “obra-prima”. Adaptação do romance de mesmo nome do escritor Henri-Pierre Roché, “Jules e Jim” é referência sobre triângulo amoroso, e numa sociedade poligâmica formas alternativas de relacionamento passam longe de serem bem vistas pelos conservadores.


Mas o ménage, sem o filtro e a visão reducionista da lógica cristã, é a única verdadeira forma de amar, ser amado e sentir a paixão. Truffaut – a quem atribuo o rótulo de cineasta nascido para filmar a paixão – é capaz de nos proporcionar uma história gostosa de assistir, como se fôssemos também apaixonados pela bela, estonteante e interessante Catherine (Jeanne Moreau), e estivéssemos imersos numa relação com os escritores Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre). E pior: e ainda gostássemos deles.


De fato, “Jules e Jim” carrega um encanto especial: Vladimir Herzog, ao assistir o filme no festival de Cannes em 1962, definiu, em resenha, publicada no jornal O Estado de S. Paulo a obra como um “amor entendido como uma relação digna, despojada de toda a legenda de pieguice, romanticismo e falsa sentimentalidade”. Já Paulo Francis, um conceituado crítico cultural, dizia que era uma obra de arte de politesse especial.


Nada de casamento chocho, nem desejo desprazeroso: a situação, por si só, é tão diferente de tudo o que a civilização ocidental é costumada que o próprio Truffaut precisou orientar seus atores. “Quis que o filme se parecesse com um álbum de fotografias”, disse o diretor. Sobre Catherine, atestou: “se conhecêssemos uma mulher assim na vida, veríamos seus defeitos, mas o filme os ignora”. E completamente.


Ainda assim, Truffaut rodou uma obra sem menosprezar jamais a sensualidade: aqui ela não é taxada como vulgar ou símbolo de infelicidade extraconjugal ou promiscuidade de quem não evita o sexo livre. Assistimos a uma linha narrativa que parte da premissa do “amor negro” entre os dois amigos e de compreensão mútua entre ambos. É uma obra de arte não apenas por causa da direção magistral, e sim também pela fotografia e seus ângulos memoráveis.


O que mais me enche os olhos em “Jules e Jim”, para além do triângulo amoroso, são os versos de um poema escritos por Truffaut com imagens que limpam nossa alma de qualquer repressão: amar é bom e só isso pode nos salvar de nós mesmos e melhorar, ainda que pouco, esse turbulento mundo no qual vivemos. É como se a paixão entre os três nos intimasse a olhar os horrores feitos por homens reprimidos na Primeira Guerra e na Grande Queima de Livros dos nazistas, episódios mostrados no filme.


Muito mais do que um mero filme sobre “ménage a trois”, “Jules e Jim” é o retrato do amor e da liberdade como única possibilidade possível. Se o mundo vem se mostrando um lugar no qual o amor não tem tanto espaço assim, o diamante sensual de Truffaut nos ensina que não há coisa melhor do que sentir o calor de uma paixão e um amor desprovido de preconceitos e ideias pré-fabricadas.


Definitivamente, gosto de clássicos por nos jogar luz e, no caso dessa obra-prima de François Truffaut, pelo seu emocionante ode ao amor.


‘Jules e Jim’

Direção: François Truffaut

Duração: 1h43

Disponível no Telecine Play



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