• Júlia Lee

Último poema de um caderno do passado

Doce Viagem

Não consigo mais lembrar do seu rosto nas luzes da manhã, nem o sentido das palavras malditas dos últimos meses.


Me afogo na tentativa de não relembrar o sentimento que seu toque em meus cabelos provocam.


Vazio existencial. Merda visceral que cospe minha realidade para fora, como o gorfo de um bêbado qualquer na Avenida São João.


Os primeiros raios de sol que a manhã proporciona, amarelados, singelos e acolhedores. Eu vejo o nada em todos os rostos que conheço no metrô lotado; Você está em todos os pretos dos olhos alheios. Me observando na espera de ser encontrado.


Ah, o amor... Arma letal. Você poderia ter me deixado quieta em meu canto, no verão passado. Quiçá, um dia o vazio vai embora para ser sentido tempos depois por outro alguém.


Não estou à espera de um milagre, não existe amor nessa cidade, somente buracos fundos de um poço capitalista a ser quebrado.


Não quero lembrar de seu rosto quando acordo e observo o sol.