• Marcus Vinícius Beck

Documentário à distância

Cinema

Festival É Tudo Verdade se adapta ao isolamento social, mas preserva programação de alto nível com produções que instigam reflexão

‘Alvorada’ mostra bastidores do impeachment de Dilma Rousseff - Foto: Vitrine Filmes/ Divulgação


O ano é 2016, e a presidente Dilma Rousseff está reclusa no Palácio do Alvorada para enfrentar um processo de impeachment, que a retirou do cargo para o qual fora eleita em 2014. Com a serenidade de quem lutou contra a ditadura militar, Dilma olha para a câmera e, calma e lucidamente, diz: “Em tudo o que nós fazemos tem uma parte que é o presente e tem uma parte que é o registro e a memória histórica desse período.”


“Alvorada”, filme do qual a cena descrita na abertura desta reportagem foi extraída, mostra a intimidade da petista num período turbulento e é um dos destaques da programação da próxima edição do Festival É Tudo Verdade, que começa em 8 de abril e vai até 18 do mesmo mês. O evento, um dos mais prestigiados do cinema documental na América Latina, será recebido pelas plataformas Looke, Itaú Cultural, Sesc em Casa, Spcine Play e YouTube, além de uma parte destinada à grade do Canal Brasil.


A edição de 2021 terá 69 títulos de 23 países, com 15 estreias mundiais. Apesar do isolamento, disse Amir Labaki em coletiva de imprensa, houve um número grande de inscritos, mas também foi registrado queda maior para curtas-metragens. “Precisamos nos atentar a isso: houve uma queda bastante menor no número de longas e médias-metragens brasileiros inéditos, mas curtas e longas internacionais tiveram uma redução pequena”, comparou o fundador do É Tudo Verdade.

Labaki optou, agora, por seguir com a data original do festival em vez de adiá-lo, como ocorreu no ano passado: naquela época havia esperança de que uma campanha de vacinação pudesse trazer de volta a exibição de filmes nas salas, com calor humano e discussões presenciais. O que não chegou a acontecer – e está um pouco longe.


O crítico lamentou, na coletiva, que ainda não seja possível voltar a frequentar salas de cinema, porém, com a seleção de filmes, não restam dúvidas de que a programação será de alto nível. Pelo menos é o que se pode deduzir dos títulos que integram a mostra, como o já citado “Alvorada”, além de “Os Arrependidos”, de Armando Antenore e Ricardo Calil, “Máquina do Desejo – Os 60 Anos do Teatro Oficina”, filme de Lucas Weglinski e Joaquim Castro, e “História de Um Olhar”, de Mariana Otero.


Apesar dos pesares, não há somente motivos para Labaki ou o público se entristecerem, pois uma mostra inteiramente pensada e projetada para a internet rendeu ao evento um recorde de público e filmes até então restritos a São Paulo puderam ser vistos pelo Brasil afora. Pelo menos 116 mil espectadores assistiram à seleção de 2020, número três vezes maior do que nas edições tradicionais.


“O documentário não foi freado nem mesmo pela pior pandemia do último século” - Amir Labaki, fundador do Festival É Tudo Verdade

O contexto pandêmico marcará presença na programação. “Sob Total Controle”, de Suzanne Hillinger, Ophelia Harutyunyan e Alex Gibney, analisa como o governo de Donald Trump acelerou o processo de agravamento da crise nos Estados Unidos. Enquanto “E14”, de Peiman Zekavat, fala dos moradores londrinos que veem o mundo hoje apenas por meio da janela de suas casas, e com o advento de máscaras.


Assim como no ano passado, a temática do autoritarismo também estará presente nesta edição do É Tudo Verdade. Claro, são obras que refletem o contexto no qual elas foram produzidas, já que há países no mundo que vivem à base de líderes tiranos. Na mostra competitiva de longas-metragens internacionais, “Mil Cortes” traça a história de uma jornalista da rede americana CNN e como a repórter assistiu a liberdade de expressão ser arrefecida no Sudeste Asiático, ao passo que “Presidente” disseca os receios da população do Zimbábue em relação aos 38 anos de ditadura no país.


O Festival É Tudo Verdade 2021, na mostra na qual vão competir produções brasileiras, preocupa-se em focar na preservação da memória cultural do nosso país. É o que vemos, por exemplo, em “Máquina do Desejo – Os 60 Anos do Teatro Oficina”, produção que rememora o grupo de teatro fundado por José Correa Martinez, um dos dramaturgos da contracultura que bebiam na fonte da Tropicália. Ainda no campo das artes cênicas, “Zimba” reconstrói a trajetória do ator e diretor Zbigniew Ziembinski.


Além de “Alvorada” e “Os Arrependidos”, há outros filmes com teor político entre as produções brasileiras. “Edna”, de Eryk Rocha, narra a luta pela demarcação de terras à beira da rodovia Transbrasiliana. É uma das estreias brasileiras.


“O documentário não foi freado nem mesmo pela pior pandemia do último século”, argumentou Amir Labaki, fundador do É Tudo Verdade. Por isso, segundo ele, olhares sobre este período cruel sobre o qual estamos imersos já marcaram a seleção deste ano. “É também extraordinário o vigor da produção brasileira, numa conjuntura tão adversa. Uma nova safra nacional e internacional pede passagem e merece toda atenção”, completou o crítico e diretor do festival, na coletiva de imprensa.


O filme de abertura será “Fuga”, de Jonas Poher, vencedor de melhor documentário no último Sundance. Já para fechar o É Tudo Verdade, “A Última Floresta”, produção dirigida por Luiz Bolognesi e cuja estreia foi na Berlinale deste ano. Veja a sinopse dos principais filmes brasileiros no box ao lado.



Confira os filmes brasileiros da mostra competitiva


Alvorada

Direção: Anna Muylaert, Lô Politi.

Sinopse: Na intimidade do Palácio da Alvorada, o cotidiano da presidente Dilma Rousseff, primeira e única mulher a governar o Brasil, durante o desenrolar dramático do impeachment que a tirou do poder. Estreia brasileira.


Os Arrependidos

Direção: Armando Antenore, Ricardo Calil

Sinopse: Os Arrependidos reconta a história pouco lembrada de ex-militantes que, muito jovens, largaram tudo para arriscar a vida por uma causa, foram presos e torturados, e viraram arma de propaganda de seus inimigos. Estreia mundial.

Dois Tempos

Direção: Pablo Francischelli

Sinopse: Trinta e cinco anos depois do primeiro encontro, que mudaria a vida de ambos, o violonista argentino Lucio Yanel e seu pupilo brasileiro Yamandu Costa se reencontram para refazer, em uma viagem, os caminhos que levaram Yanel originalmente ao interior do Rio Grande do Sul. Estreia mundial.

Edna

Direção: Eryk Rocha.

Sinopse: À beira da rodovia Transbrasiliana, Edna vive em uma terra em ruínas, construída sobre massacres. Criada apenas pela mãe, ela experimenta, no corpo e nos corpos de seus descendentes, as marcas de uma guerra que nunca acabou: a guerra pela terra. Estreia brasileira.

Máquina do Desejo – Os 60 Anos do Teatro Oficina

Direção: Lucas Weglinski, Joaquim Castro

Sinopse: Em seis décadas, o Teatro Oficina fez mais que revolucionar a linguagem teatral no país: a influência estética da companhia de José Celso Martinez Corrêa estende-se do Tropicalismo à renovação das linguagens audiovisuais brasileiras a partir dos anos 1960. Estreia mundial.

Paulo César Pinheiro – Letra e Alma

Direção: Cleisson Vidal, Andrea Prates

Sinopse: Aqui, sentado em seu sofá, o compositor reflete sobre a natureza humana e conduz uma viagem que evoca e envolve grandes nomes da MPB. Estreia mundial.

Zimba

Direção: Joel Pizzini

Sinopse: A trajetória e o imaginário artístico do ator e diretor Zbigniew Ziembinski (1908-1978), precursor do teatro moderno na América Latina e mestre de gerações de atores brasileiros. Estreia mundial. (Fonte: É Tudo Verdade)





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