• Marcus Vinícius Beck

Dois dedos de prosa com o mestre da lauda

Botequim Literário

Xico Sá no programa Ocupação Chico Science. Foto: Itaú Cultural/Reprodução


Lá estou eu, três, quatro ou cinco livros embaixo do braço, sei lá, para bater um lero com o cronista Xico Sá. Saco a obra do cara desde os quinze ou dezesseis, anos antes – portanto – de ingressar na faculdade de jornalismo e achar, olha a presunção, que seria possível vencer na vida batucando as sílabas da civilização na lauda jornalística.


Xico está com uma camisa florida dois botões abertos à moda Reginaldo Rossi, mangas dobradas, calça escura, tênis vans preto com listas brancas, óculos que denunciam miopia, algo que lhe confere um ar de quem flana, ou melhor, flanou pelo underground paulistano e carioca, então ele ri e se aproxima deste cronista, simpático que só, dizendo gentilezas como “é um prazer te conhecer, meu caro.”


Inacreditável, amigos e amigas, é que o papo se estendeu por minutos, agora com uma pauta que variava de Reinaldo Moraes, como não falar sobre o mestre responsável por um dos melhores livros pornográficos de todos os tempos?, futebol e os idiotas da objetividade, peço a devida vênia a Nelson Rodrigues, até que Xico emenda:


“Tua matéria é dessas para guardar, o texto ficaste bom demais da conta, amigo”, elogia o escriba, para desespero deste pupilo que buscava controlar as emoções diante do mestre. “É uma honra e um prazer te conhecer”, prossegue, enquanto autografa a folha de rosto do romance “Big Jato”, que eu lhe entregara há instantes.


Minha companheira sorria e buscava registrar, com a câmera fotográfica acoplada ao smartphone, o lero-lero que eu levava com Xico. “Falei para a Andréia que eu fiquei com um puta receio de dar como título “Entre o bêbado e operário” e, de repente, você achar isso uma merda”, confessei, sorrido e revelando que a matéria havia sido redigida ao sabor de um vinho seco chileno cabernet sauvignon – desses de mercado.


Xico, gargalhando, soltou: “que nada, amigo, melhor título impossível.” E, vejam vocês, como se não bastasse mais emoções de confabular sobre literatura e jornalismo com Xico, eis que ele diz que só não topou beber uma cerveja comigo e Andréia, ah quis o destino a gentileza que ela fosse minha companheira, gracías, por conta do prazo apertado para entregar a crônica que seria publicada no dia seguinte no El Pais. “Sabe como são prazos, né? Você combina e precisar cumprir, de qualquer jeito.”


Ô, meu velho Xico, sei como funciona as engrenagens do jornalismo: coisa de maluco, ou sujeito desesperado para não parar na sarjeta, ou aqueles que escrevem se digladiando contra o tempo – Antônio Maria, meu e teu mestre, dizia que escritor de jornal só é elogiado por conveniência. Sei ainda como funciona o suor derramado à lauda jornalística para pagar o aluguel, vixe, o sujeito se desnuda para os leitores como se estivesse gritando uma música de Leonard Cohen após levar um pé na bunda e só restasse o boteco da esquina para anestesiar a dor pela partida.


Francisco Reginaldo de Sá Menezes, cearense do Crato, formado em jornalismo pela UFPE, repórter investigativo que encontrou o paradeiro de PC Farias no Collorgate, cronista, romancista, comentarista de futebol, devoto a Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos e Antonio Maria, existencialista fã de Jean-Paul Sartre, amigo de Doutor Sócrates, boêmio, santista, santista… Xico nunca negou que exibe uma extensa ficha corrida. É o que ele compartilhou conosco no Teatro Goiânia, durante o terceiro bate-papo do ciclo de palestras Diálogos Contemporâneos, bom demais da conta!


Cronista que empilha referências oswaldianas numa velocidade metafórica, gracilianas na concisão das frases e rodrigueanas na irreverência do sabor do amor e desamor, do drama assistido na velha e boa arquibancada, Xico Sá explica que a crônica se supunha morta nos jornais na década de 1990, um pouco antes de a internet se tornar parte de nossas vidas. Mas com o novo meio de comunicação, por ser um texto de natureza enxuta, lírica, afetuosa, ou uma conversa de dois amigos entre uma cerveja e outra e um café e outro, como um tipo de abraço que se dá em que se ama, o gênero renasceu: “hoje temos uma boa fartura de cronistas, embora eu use uma referência mais antiga.”


Mas vem cá, camarada, por que tu, santista de esperança e fé, escreveste a tua crônica mais liricamente linda sobre futebol a partir do Corinthians? “Porque, mesmo santista por causa de Pelé, a força do Corinthians para a cidade de São Paulo não poderia passar despercebida pelos olhos de um cronista. Quando o Corinthians ganha a cidade fica mais leve, os motoristas de ônibus trampa, melhor”, justifica-se.


Como quem não cansa de empilhar ensinamentos sentimentais e futebolísticos, diz mais: “o que me interessa, enquanto cronista, é o fracasso humano, o homem impossibilitado sexualmente por causa da derrota do time do coração.”


Se o triunfo do Timão suspende a luta de classes por até 15 minutos, quando muito, entre a troca de turno das fábricas, para não dar prejuízo, coríntia não é besta, a cidade de São Paulo sai da lama, baixa um Charles Dickens ludopédio neste cronista, no caso Xico, que viu as luxes da metrópole como quem tomou um ácido das antigas, em 2007, no regresso do Corinthians a Série A após um ano na segunda divisão do Brasileiro.


Foi o que registrou o jornalista-escritor em “Crônica Para um Corintiano”, linda homenagem ao sorridente seu tio Alberto, alvinegro sofredor que não viu nosso Timão conquistar a América, a vida tem dessas ironias sem graça.

É, meus caros, conheci o mestre. E ele ficou me devendo uma cerveja.

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