• Victor Hidalgo

EGUM: Terror nacional raiz


Cinema

“EGUM é o primeiro passo de uma pesquisa em andamento sobre o afro-surreal”

Festival FIC Rio - Yuri Costa



“Minha negrura era densa e indiscutível. Ela me atormentava, me perseguia, me perturbava, me exasperava” Frantz Fanon em “Pele Negra, Máscaras Brancas”. É com essa frase do renomado filosofo, psiquiatra e marxista que o curta-metragem “Egum” começa.


O curta começa com um renomado jornalista (Paulo Guidelly) retorna para sua casa para cuidar da sua mãe, que está sofrendo de alguma enfermidade desconhecida. Certa noite, ele recebe a visita de dois estranhos que dizem ter negócios desconhecidos com o seu pai.


Com direção e roteiro de Yuri Costa, Egum entrega um curta de terror que bebe da ancestralidade e critica o apagamento das religiões de matriz africana com o domínio de igrejas neopentecostais. O filme conta com poucas locações, o que torna a sensação de claustrofobia naquele cenário a flor da pele. Como se os personagens estivessem respirando do seu lado enquanto assiste o curta.


O filme é um resgate da ancestralidade e cultura, além de mostrar como se afastar das suas raízes pode te tornar um estranho dentro da sua própria família, e o trauma de se redescobrir em todos esse processo.


Mas o que são Eguns? Nas religiões iorubá, Eguns são almas ou espíritos de pessoas falecidas, sendo elas iniciadas ou não na religião. Pode se referir tanto a um espírito evoluído, como a um espírito de um ancestral ou obsessor que precisa ser afastado.


O diretor Yuri Costa cedeu uma entrevista ao Jornal Metamorfose para contar um pouco mais sobre como foi o processo de produção do curta, que foi o seu TCC em comunicação social na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e como teve que fazer uma pesquisa extensa que influenciou nos caminhos que a narrativa tomou.


“Nosso orçamento foi bem limitado, arrecadado através de crowdfunding e de uma rifa, de forma que a produção foi em esquema de guerrilha. A primeira versão do roteiro foi escrita em 2017 e amadurecida ao longo de conversas com a equipe em 2018, ano em que organizamos a arrecadação, também. Filmamos no início de 2019, e o filme foi finalizado um pouco antes de sua estreia em Tiradentes, em janeiro de 2020. A equipe foi majoritariamente composta por pessoas negras e universitárias de diversas regiões do rio de janeiro; uma boa parte de nós já havíamos trabalhado juntos em outros projetos, inclusive no meu primeiro filme, “ELEGUÁ” (2018), mas algumas pessoas também entraram num set pela primeira vez com esse projeto. Foi um processo muito afetivo, também conversamos sobre as temáticas do filme durante todas as etapas do processo, e seguimos conversando até hoje. Todos nós nos víamos atravessados pelo filme em algum aspecto de nossas vidas, de forma que estar juntos foi um processo muito curativo” Relata Yuri para o Jornal Metamorfose.


Além de Fanon, o diretor diz que se inspirou nos textos de Edouard Glissant, em particular “A Barca Aberta”, e como a pesquisa acadêmica do TCC também influenciou a medida que eles se aprofundavam em produções e na história do terror negro e da presença do negro no terror ‘bem como do afro-surrealismo, que nos permitiu experimentar mais sobre a estética e a estrutura da narrativa. Tivemos inspirações muito literárias também: “o genocídio do negro brasileiro”, de Abdias Nascimento, “Ponciá Vicêncio”, de Conceição Evaristo e, principalmente, “Amada”, de Toni Morrison, que é também meu livro favorito” relata Yuri.

Ele também diz que, de muitas formas, foi lendo “Amada" que entendeu qual era o tom que gostaria que o filme assumisse e espelhasse. E do lado das inspirações cinematográficas, teve mais referências do cinema experimental que propriamente do terror: “Matador de Ovelhas” (1977), de Charles Burnett, foi de grande impacto no sentido de criar a história de uma família que, de tão ferida pelo cotidiano, se tornou alienada emocionalmente, sem conseguir se conectar uns com os outros; “Bush Mama” (1975), de Haile Gerima, contribuiu com sua experimentação; “Ganja and Hess” (1973) é o único filme de terror negro, segundo o diretor, que os influenciou diretamente, pelo seu tom e pelas suas experimentações junto do gênero e da experiência negra.


“ Alma no Olho” (1973), de Zózimo Bulbul, sempre foi um sul para nós, com sua proposta de performar num curto espaço de tempo e num cenário único a experiência diaspórica de 500 anos; por fim, “A Hora do Lobo” (1968), de Ingmar Bergman, foi uma grande influência como terror psicológico” Finaliza o diretor.


Uma das dificuldades para a produção do curta foi a falta de investimento. Através de financiamento coletivo, e de uma rifa, conseguiram arrecadar 8 mil reais para investir no trabalho. Mas não era nem de longe o que precisavam para gravarem o filme.


“Como em muitas produções universitárias, ninguém recebeu para trabalhar, e só conseguimos determinados equipamentos a partir de apoios e diálogos. Além disso, durante um dia de vendas da rifa, ao retornar para casa de madrugada, fui assaltado e perdemos mais dinheiro que ganhamos naquele dia. Foi só através da comoção e da ajuda de amigos que conseguimos nos recuperar e finalizar a arrecadação com o mínimo necessário para finalizar o projeto” relata Yuri.


Segundo ele, esses eventos tiraram a estrutura que gostariam de ter tido para a realização do filme. Tiveram apenas 2 dias para gravar. O que possibilitou que tudo transcorresse bem foi a intimidade com a equipe e o elenco “Foi o companheirismo de todes, que acreditaram desde o início neste filme, que permitiu que conseguíssemos chegar ao fim dele” fala o diretor.


Desde o seu primeiro filme, Yuri já investigava a ideia de fazer uma narrativa influenciada pela herança afro-brasileira, e em EGUM apenas levaram esse ambição mais longe, se entranhando em sua própria estrutura narrativa e em seus mistérios.


“Isso nos levou a experimentar mais com as referências que já tínhamos. O respeito às religiões de matriz africana foi guia para nosso processo. de modo geral, eu diria que EGUM é o primeiro passo de uma pesquisa em andamento sobre o afro-surreal e sobre uma linguagem cinematográfica disruptiva da gramática audiovisual padrão, que continuará a ser investigada em nossos próximos filmes” Encerra o diretor.



Capa do curta EGUM pelo artista Simbalifemec


Título: Egum

Lançamento: Em Breve

Direção: Yuri Costa

Elenco: Bruna Rodrigues, Diomar Nascimento, Francisca Silva, Paulo Guidelly, Valéria Monã

Duração: 23 minutos

Gênero: Drama / Terror

Nacional


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