• Marcus Vinícius Beck

Ele virou um quarentão...

Cultura

Um dos maiores fenômenos editoriais brasileiros de todos os tempos, 'O Menino Maluquinho' chega aos 40 anos fazendo parte da velha guarda que não sabe lidar muito bem com a internet



Tornou-se um quarentão. Dizem até que anda por aí – como me contou outro dia o cartunista Roger Mello nas páginas de O Globo – com uma camiseta na qual estampa seu repúdio a ditadura civil e militar de 1964: "Ditadura Nunca Mais". Você nunca me decepcionou. Mas, vem cá, cadê aquela indefectível panela que carregava na cabeça durante a infância? Ah, não me diga que jogou fora... Por quê? Foi por causa do pai, esse Ziraldo... É, menino, que coisa maluca te ver, com a tua velha calça desbotada, coisa de quem nunca deu a mínima pra roupas de grife e parafernálias de vestuário.


Esse poderia ser um surpreendente reencontro após anos entre um menino esperto e seus admiradores. Aos 40 e carregando a mesma inteligência com a qual encantou o público nas histórias em quadrinhos, “O Menino Maluquinho” foi lançado na Bienal do Livro de São Paulo em 1º de setembro de 1980 e, anos mais tarde, chegou a ser adaptado para as linguagens televisiva, teatral e cinematográfica. Com esse jovem, Ziraldo conseguiu se comunicar com as crianças e virou conhecido no exterior – por aqui ele já era figura carimbada por causa de suas charges publicadas no Jornal do Brasil e O Pasquim, nos anos 60 e 70.


Na sua obra de maior sucesso, o mineiro de nascença e carioca de coração perfilou uma criança criativa, que sempre conseguia driblar as convenções impostas pela sociedade com bom-humor. Assim que a primeira tiragem chegou às prateleiras, em quatro meses, ela se esgotou. E desde então, só no Brasil, O Menino Maluquinho agraciou jovens e adultos com 129 edições que acumularam pelo menos quatro milhões de exemplares vendidos, com números históricos que tiveram a colaboração de gente como Carlos Drummond de Andrade, fã confesso das estripulias de maluquinho.


Com quarenta anos nas costas, Maluquinho continua sendo um ícone pop, como mostra a edição comemorativa que a Melhoramentos acaba de tirar do forno. A obra conta com a história original responsável por formar gerações de leitores, além de apresentar conteúdos extras, com textos sobre o livro e a trajetória de Ziraldo, bem como fotos dele no dia a dia e uma linha do tempo. Tendo como objetivo o resgate da memória desse personagem, o projeto mostra ainda como as traduções mais inusitadas da obra proporcionaram que a energia do garoto chegasse até a cultura japonesa.


De 1980 até hoje, o livro da editora Melhoramento só fez confirmar o talento do cartunista, levando Maluquinho às telonas na década de 1990. Dirigido pelo cineasta Helvécio Ratton em 1995, a adaptação para o cinema foi um sucesso de bilheteria, com 1,5 mi ingressos vendidos. Isso tudo, vale lembrar, em um tempo onde o audiovisual brasileiro tinha necessidade de se firmar após a paralisia provocada pelo governo de Fernando Collor de Mello. Em 1998, o jovem retornou à sala escura em "O Menino Maluquinho 2 – A Aventura", longa-metragem dirigido por Fernando Meirelles com atuação de Stênio Garcia e Samuel Costa.


Se Ziraldo já era um nome conhecido na década de 60 por ter criado "A Turma do Pererê" e publicado o livro infantil "Flicts", “O Menino Maluquinho” marcou a literatura infantil a partir de seu célebre personagem, que persiste como um fenômeno editorial. Pelo grosso de sua obra, o cartunista recebeu o Nobel Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas, em Bruxelas; o prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa livre da América Latina, recebido em Caracas; o Prêmio Jabuti, da Câmara de Brasileira do Livro, em São Paulo; Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico Quevedos, na Espanha.


Perfil


Nascido na cidade mineira de Caratinga, Ziraldo Alves Pinto mandou seu primeiro desenho para o jornal "Folha de Minas" aos 6 anos, em 1939. Uma década depois, se mudou para o Rio de Janeiro, então capital da República, e colaborou com publicações infantis, como "Vida infantil", "Vida juvenil" e "Sesinho". Nesta época, publicou também na extinta revista "A Cigarra" e regressou a Minas para estudar na faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casou-se, pouco tempo depois, com Vilma Gontijo e teve três filhos com ela: Fabrizia, Daniela e Antônio.


No entanto, a carreira de Ziraldo impulsionou mesmo nos anos 1950 e 1960, quando passou a trabalhar como pintor, cartazista, jornalista, dramaturgo, chargista, caricaturista e escritor. Nos anos 60, o artista enveredou pelas charges e cartuns políticos nas páginas da saudosa revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil, este em seus tempos áureos. Foi neste período também que o artista lançou a primeira revista de quadrinhos brasileira, ''A Turma do Pererê'' – que se tornou objeto do documentário de mesmo nome, dirigido por Ricardo Favilla, mas com pouca inserção nas salas de cinema.


Com o golpe civil-militar de 1964, Ziraldo viu sua revista fechar as portas e então ele fundou com a patota de Ipanema (Tarso de Castro e Jaguar, principalmente) o jornal satírico O Pasquim. Tendo como foco o riso a partir do deboche e ironia, a publicação ousou driblar a censura imposta pelo regime, fazendo reportagens, cartuns e entrevistas que cutucavam os militares. Por causa da intensidade desse jornalismo porra-louca, o cartunista chegou a ser preso, em sua casa, e mandado para o Forte de Copacabana, pois – para a repressão – ele era um "elemento perigoso".