• Lays Vieira

Enem: interferência e guerra cultural

Educação

ENEM ganha visibilidade após denúncias de mudanças ideológicas nas questões



A última semana foi marcada por uma crise no INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e denúncias em torno do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Associação dos Servidores do Inep (Assinep) compilou e entregou ao TCU (Tribunal de Contas da União) e a CGU (Controladoria-Geral da União), dentre outros órgãos, um documento com mais de trinta páginas contendo denúncias de assédio, perseguição, aparelhamento ideológico da instituição, interferência por parte do Ministério da Educação e possível risco ao sigilo do Enem.


O exame surgiu em 1998, possuindo a função de avaliar a qualidade do ensino médio brasileiro. A partir de 2004, passou a servir para o ingresso em universidades públicas, quando o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a lei do Programa Universidade para Todos (ProUni) e, posteriormente, em 2010, desenvolveu-se o Sistema de Seleção Unificada (SISU). Porém, no dia 19 deste mês, o jornal Folha de São Paulo publicou notícia apontando que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pediu ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, para que questões do Enem relativas à ditadura militar (1964-1985) tratassem o golpe de 64 como "revolução".


Também no início de novembro, cerca de trinta e cinco funcionários do Inep, alguns ligados diretamente a áreas do Enem, pediram demissão. No documento, consta declarações de Bolsonaro e do Milton Ribeiro, que disseram que o Enem agora teria "a cara do governo". Ambos negam ter tido acesso às provas. Danilo Dupas, presidente do instituto, também nega as acusações de “pressão política oriunda da presidência do órgão para retirada de questões”.


Quanto ao Enem em si, o primeiro dia de prova ocorreu nesse último domingo, dia 21, e se deu sem grandes problemas. Mas, rendeu diversos comentários nas redes sociais, com destaques para uma questão que trazia trecho da música "Admirável gado novo", de Zé Ramalho, um trecho da obra do economista Thomas Piketty referente a meritocracia, além de questões sobre raça, a situação na mulher na sociedade e indígenas. A abstenção foi de 26% dos inscritos, um dos índices mais baixos desde o início da aplicação do exame.


Tal conjuntura fez muitos analistas e jornais adotarem a ideia de que isso demonstraria que não se concretizou um exame com “a cara do governo”, como havia propagandeado Bolsonaro. Este, inclusive, afirmou nessa segunda, 22, que “ainda teve questão de ideologia” e que “se ele e o ministro Milton Ribeiro pudessem interferir, isso não teria acontecido”, como noticiado pelo Portal G1.


Parecem se esquecer de que, mesmo contendo questões como as citadas acima, essa edição da prova registrou o menor número de inscritos, além da menor taxa de participantes negros e vindos de escolas públicas dos últimos anos. Também houve aumento no número de pagantes e de brancos, como apontado pelo professor Wellington Lopes, no UOL Debate do último dia 18.


E vale sempre lembrar também que o Enem, há alguns anos, é alvo da guerra cultural promovida pela extrema direita. Acusado, por exemplo, de “doutrinação ideológica” por movimentos como o Escola Sem Partido. Essa tendência se intensificou com o bolsonarismo a ocupar o executivo nos últimos três anos.

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