• Marcus Vinícius Beck

Entre Fellini, Truffaut e o Cinema Novo

Música

Rapper, em música que exibe refinadas referências e exaustiva pesquisa, reatualiza clássicos da intelectualidade e do cinema


Crilo em cena de ‘Fellini’ - Foto: Divulgação



A música do rapper Criolo resvala em feridas cujo sangue jorra pelas veias abertas da desigualdade. Em “Fellini”, clipe disponível no Youtube, o cantor dá a letra. E faz uma bela homenagem ao cineasta Federico Fellini, autor de clássicos como “Oito e Meio” (1963) e “A Vida É Doce” (1960). “Corre pro santo que tá dizendo/ Eles não vão cuidar de você/ Havia um menino responsa no trilho/ Não foi quadro de Monet”, canta.


Com direção assinada por Denis Cisma, o curta é uma animação inspirada nos longas consagrados pela crítica e público concebidos pelo celebrado diretor. A canção, escrita no ano passado, quando assistíamos a ascensão do discurso e prática autoritárias, dialoga com a estética neorrealista felliniana: “2020 afogando os Nazi/ Eu nem sou violento, nem quero ser/ Entrada de ano trocando no asfalto.”


As rimas, sagazes e cortantes, canalizam a fúria sobre o palco de horror no qual se tornou a existência num país que flerta perigosamente com períodos tristes da História – é importante, ressalto eu, referir-se à linha do tempo da humanidade com agá maiúsculo. Nesta toada, entre uma língua que “adesivou na fitinha do amor” e “traçante no coco dos peito de aço”, o compositor estabelece paralelos com nomes que brilharam na intelectualidade do século 20, como o antropólogo Claude Lévi-Strauss.


Registre-se: da patota de Jean-Paul Sartre, o estudioso chegara a lecionar sociologia na então recém-fundada Universidade de São Paulo (USP), nos anos de 1935 e 1939. No Brasil, meteu o pé na estrada e fizera expedições que lhe deram “Tristes Trópicos” (1955), narrativa etnográfica romanceada sobre as sociedades indígenas do país.


É a partir desse tamborim artístico e intelectual, munido de uma consistente pesquisa, que Criolo estruturou a letra da música. Sem esquecer, óbvio, a importância de Neguim. E Deekapz na concepção do arranjo da faixa. O que, arrisco eu, com a devida licença, de primeira linha – sonora e visualmente: os dois elementos se parecem com um convite, daqueles que dificilmente recusamos, para flanar pelo mundo das ideias.


“Foi feito com muito carinho, um estudo, uma pesquisa muito forte sobre cenas icônicas dos filmes desse grande diretor de cinema que se misturam a esse novo roteiro, esse novo enredo que “Fellini” tenta apresentar”, explicou o cantor, numa nota enviada pela sua assessoria de imprensa à reportagem. Talvez, com ele dizendo, o papo fique mais direto: “Foi tudo feito com muito carinho, com muito respeito.”



Clipe da música 'Fellini'


De fato. Sem falar que, guardadas as devidas proporções, Criolo esbanja um discurso afinado, além de refinado, como estes versos aqui: “Dizima a quebrada, maltrata meu nome/ Não tem 17, na cinta, um cano/ Porta Juliete, Fellini chapando”. Nos versos seguintes, continua: “Censura no vinho, vinagre no pano/ Seu Jorge e Waguinho no filme do ano/ Cinema Novo, Truffaut retrucando/ O herói da quebrada tá morto ou matando/ Antropofagia, hemorragia/ Vaidade vicia, favela sangrando.”


Voltando seis meses no calendário, em dezembro já era possível sacar que o rapper demonstrava cada vez mais um compromisso com a liberdade dos povos. Em “Sistema Obtuso”, por exemplo, endureceu os versos e chegara à conclusão de que o momento não pede ternura, e sim uma atitude artística mais ‘radicalizada’. Certamente os fãs mais puritanos acharam um equívoco ele juntar-se ao duo Tropkillaz.


Bobagem, bobagem. A música não pode parar, tampouco não reivindicar para si a função de anti-obscurantista: era o que faziam a turma da MPB durante os anos de chumbo da ditadura. É o que faz hoje, amém, Criolo.


Enquanto isso, há de se deleitar com a beleza de o rapper interpretar todos os papéis de personagens reais dos filmes de Federico Fellini, mas num estúdio seguindo os protocolos de segurança para evitar a disseminação de covid-19. “Usamos uma técnica chamada Motion Capture, muito utilizada em filmes como “Avatar”, “Senhor dos Anéis” e na maioria dos videogames atuais. Consiste em uma roupa com sensores para gravar o movimento dos personagens e quem atuou no nosso clipe foi o próprio Criolo”, afirmou o diretor do clipe, Denis Cisma, também em nota à imprensa.


Definitivamente, um artista que enfileirou discos como “Ainda Há Tempo” (2006), “Nó na Orelha” (2011), “Convoque Seu Buda” (2014), “Viva Tim Maia” (2015) e “Espiral de Ilusão” (2017) lançaria, em meio ao caldeirão de truculência que virou o Brasil, um single (seguido por um clipe) que saliva contra o teatro do absurdo ao nosso redor. “Fellini” merece ser visto, revisto e adorado. Assistam.


‘Fellini’

Cantor: Criolo

Gênero: Rap

Disponível no Youtube



Gostou do texto?

Com a ascensão do fascismo no Brasil, ataques à mídia se tornaram recorrentes. Documentos perdidos, subnotificação de mortos, censura nos dados sobre queimadas e desmatamento, retirada de direitos duramente conquistados: o contexto da realidade está sendo censurado nos monopólios midiáticos. Venha lutar com a gente! É com seu apoio que conseguimos manter o Jornal Metamorfose no ar. 

Apoie a liberdade de imprensa, ela só é possível com você, caro leitor.