• Lee Aguiar

Entre os anarquistas

Doce Viagem

Queima. São Paulo, 2019. Foto: J.Lee


Lee Aguiar


Tenho profundo apreço pelos olhares cruzados em esquinas malditas, quando o acaso sobrevoa as linhas das cidades, só para amar em liberdade. São dias e noites de amor e guerra, meu caro, estamos imersos na dualidade da ação e reação. O que será que paira pelo ar? O que se cochicha entreouvidos nas avenidas do pensar coletivo?

Quiçá, essa seja a dança. Corpos orgânicos se movem em integração consigo mesmo. Somos as sombras nas paredes, os portais vazios de carne, presos no reflexo luminoso do próprio toque. Temos o calor do sol queimando nossos ouvidos, escutamos chamas vibrantes.

Meu frenesi é redescobrir as vísceras do sentido. O amargo de seu beijo, e os cheiros de outrora, o calor entre as asas de seu peito aberto - desnudo. A liberdade é um karma vicioso.

Me purgo entre palavras e redemoinhos pensantes, afagos elétricos diante o abismo do desconhecido, quiçá, nunca saberemos. De alguma forma, a realidade é uma perspectiva da crença sobre o real. O riso de seu olhar me teletransporta para um agora que só encontro em suas breves marcas ao redor dos olhos, às vezes me pergunto qual objeto de real que lhe consolida ao ver o mundo. Sinto as paredes de seu quarto falarem, o que elas te dizem?

Os barulhos da cidade e o cantar dos pássaros, que de alguma forma se sobressaem aos das cigarras pulsantes, Santa Teresa é um acaso. De minha janela vejo um mundo imenso, sou uma observadora das energias da cidade – essa maldita, boêmia, sambista e negra cidade. Há forças que só o Rio de Janeiro para reacender, a raiva pulsa pelas ruas e vielas como sangue tinto que faz a roda girar, acordamos e morremos com alegria e raiva.

Do alto de minha contradição, entre facetas e estórias, me encontro. Não afirmo nada, nem premedito amores, apenas respiro o ar que me convém com o passar dos ventos veraneios. Você me disse que me levaria nas encruzas de Vila Isabel, me questiono quem eu quero ser até lá. Te gosto.

Às vezes você se esconde quando me encara nos olhos, não te rastreio nem busco, apenas observo. Me pergunto o que você sente, e tento me lembrar sobre o que eu já lhe disse, quais segredos cósmicos já lhe contei? Sou tantas.

Respiro entre tragadas, me estico nas linhas atemporais da inspiração que me toma por inteiro, o calor de seus pelos se misturam com as seis partes marcadas pela luz do por do sol que invade sua janela, as cores fúnebres de sorrisos ilusórios. Me aqueço com você, e me perco na melodia de sua pele nua ao meu lado, algo que me faz voltar, mesmo sem entender o caminho que sigo.

Ando trôpega pelas estradas de um sábado vazio de sentido, e essas linhas tortas já foram vividas, e os beijos esquecidos em cada traço de realidade que toma as ruelas na volta para casa. O tempo foge de nós.