• Marcus Vinícius Beck

Entre serras, morros e invasões

Cultura

Vila Cultural recebe duas exposições simultâneas que oferecem olhar crítico e problematizador sobre os distúrbios do espaço urbano


Colagem de André Felipe Cardoso. Foto: Divulgação


André Felipe Cardoso e Carlos Monaretta pensaram os trabalhos que compõem a exposição “Entre as Serras e os Morros”, que abre nesta sexta-feira, 15, às 16h, na Vila Cultural, em Goiânia, na ocasião em que André Felipe se deslocou até a cidade do Rio de Janeiro para fazer residência artística na Casa Voa. Era novembro do ano passado, um novembro pandêmico. Fazia quase um ano que eles não se viam. Monaretta, então, resolveu visitar o amigo, e o encontro não poderia ter sido mais produtivo.


Entre a Casa Voa e o Ateliê Sanitário, as obras que compõem a mostra foram sendo gestadas, num genuíno processo de afeto pós-viagem e como se fosse um diário de registro que retrata o cotidiano do Rio a partir de uma lente terceiro-mundista da paisagem carioca, onde seus acúmulos e contradições não são mais maquiados, e sim coletados: nas obras, o que seria descartável, a exemplo de retalhos de outras épocas, são instrumentos para pertinentes críticas a um imaginário maldosamente turístico.


Os trabalhos, como um todo, partem da busca por um conjunto de semelhanças entre paisagens e lugares distintos. É um processo no qual André Felipe e Monaretta colocaram lado a lado os espaços, mas sempre os compreendendo indissolúveis ao processo de reflexão sobre deslocamentos e encontros. “Entendemos essa simbiose entre nós e uma terra desconhecida e a forma com que a experimentamos de acordo com a medida de mundo que trazemos dos lugares onde vivemos”, diz André Felipe.


Bem sacado, atento às discussões da sociedade e contemporâneo no melhor sentido empregado pelo termo, o nome da exposição, “Entre as Serras e Morros”, permite traçar um paralelo entre urbanidade e ruralidade, onde num lugar as serras e os morros se transforma em espaço urbanizado e noutro se configuram elementos não modificados. Ao se falar em “pedra e concreto”, por exemplo, tanto André Felipe quanto Monaretta alfinetam a degradação dos biomas, seja pela mineração que ceifa serras no sertão pelo Brasil ou pelo processo de urbanização das metrópoles.



“As serras e os morros são transformados em minério, em favelas ou em pó. Pedra e Concreto também remete as cidades que moramos, eu em uma cidade história no interior de Goiás (Cidade de Goiás) cheia de construções de pedra e Carlos em Goiânia cercado por prédios e construções de concreto”, explica André Felipe, natural de Minaçu, município do interior de GO. “O artista propõe formas de se pensar e agir sobre as instâncias que compõem a vida em sociedade. Sigo buscando, na dúvida, repostas sobre construir novas ferramentas”, completa Monaretta.


Divisora de águas nas produções dos dois artistas, em todos os aspectos imagináveis, serão apresentados na Vila Cultural seis trabalhos inéditos integrantes das investigações que ambos se propuseram a fazer desde o regresso do Rio. A exposição é uma reunião de vestígios, ou coleção de lembranças fragmentadas que compõem os passos de André Felipe e Monaretta até aqui, ou técnicas e matérias que apontam para a preocupação dos dois como forma de comemorar o novo ciclo que se inicia.


Em texto para a exposição, o artista visual e poeta Rafael Amorim coloca um ponto interessante: se antes transeuntes, André e Monaretta, convocados e provocados pelos encontros, tornaram-se propositores de vistas adicionais. “A partir de suas fotografias, colagens, instalações e objetos em meio ao colapso, os trabalhos desenvolvidos entregam a busca perseverante por um conjunto de semelhanças entre paisagens distintas”, escreve Rafael, ressaltando o detalhe como objeto principal dos artistas.


Ao repórter, Monaretta disse que pensar nos morros do Rio é refletir sobre o acúmulo, corrida pela sobrevivência, moradia e habitação – ou, melhor dizendo, pela necessidade de viver com dignidade em meio à violência cotidiana existencial deflagrada pela metrópole e pelo capitalismo. Já o Cerrado, afirma, está inserido – ao longo das últimas décadas – num longo “processo de morte, descaso e crime”.


Simultânea


Ilustração de Diogo Rustoff. Foto: Divulgação


Além da exposição “Entre as Serras e os Morros”, de André Felipe Cardoso e Carlos Monaretta, a Vila Cultural recebe simultaneamente a exposição “Invasões Bárbaras”, do artista visual Diogo Rustoff. A mostra aborda a relação das pessoas com o espaço urbano a partir da memória, conservação e decadência, bem como ausência e presença nesses mesmos lugares. E nasceu da inquietação que Rustoff tinha, nas eleições do ano passado, quando candidatos a vereança falavam sobre levar cultura para a periferia.


“Isso me incomodava bastante, porque a periferia produz muita cultura, e cultura de qualidade, diversa. Então, a partir disso, comecei a investigar essa movimentação de artistas periféricos e entender como eles ocupam a cidade, além de querem brincar com essa noção que a gente tem sobre o que seria uma arte de alta cultura e uma popular”, afirma o artista. Rustoff levou a ideia a bastante sério, ao ponto de pegar instrumentos musicais associados à música erudita e trazê-los para um contexto mais periférico.


Ligado à linguagem dos grafites, o artista começou a carreira realizando intervenções urbanas por Goiânia com stencil, pois “as ruas são a galeria mais democrática que existem”. Nela, diz, é possível obter acesso a um público que varia desde gente em situação de rua até pessoas economicamente mais abastadas da sociedade, sem restrições, censura e tentativas de moldar a obra. “Quando fui fazer meus trabalhos nas ruas, me abriu essa porta de que poderia apresentar meu trabalho sem precisar recorrer a nenhum intermediário”, recorda-se Diogo Rustoff.


É nesse sentido, o de impulsionar o público a refletir sobre pautas pertinentes do mundo contemporâneo, que as exposições “Entre as Serras e os Morros” e “Invasões Bárbaras” ajudam a combater a truculência que recaiu sob o Brasil nos últimos anos e pensar sobre o espaço urbanos e suas idiossincrasias. “É papel não só dos artistas, mas de qualquer pessoa que tem um pensamento mais progressista, combater com as armas que tem, de educar”, crê Rustoff. Porque o importante, de fato, é apostar no diálogo.


Entre as Serras e os Morros e Invasões Bárbaras


Quando: nesta sexta-feira, 15

Horário: a partir das 16h

Onde: Vila Cultural Cora Coralina

Endereço: Rua 3 - Setor Central, sem número, Goiânia

Gratuita

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