• Marcus Vinícius Beck

Estrela Solitária

Botequim Literário


Mané Garrincha comemora gol na final do campeonato carioca de 1968, em cima do Flamengo - Foto: Reprodução/ Acervo Histórico



Era 15 de dezembro de 1962 e o Maracanã estava abarrotado de gente: 158 mil. O Botafogo decidiria o campeonato carioca com o Flamengo. Garrincha, o anjo das pernas tortas da Estrela Solitária, recebe a bola na ponta direita, corta e vai em direção à linha de fundo, desferindo uma pancada indefensável pelo arqueiro rubro-negro. O imarcável, o incontrolável, o rompedor de defesa abrira o marcador no Maraca.


Quando ele avança vale tudo. A ética do futebol é dispensada. O fair-play é posto de lado. O marcador, coitado, no desespero não encontra outra saída a não ser agarrar a camisa de Garrincha. “Todos os jogadores do mundo”, ensinou o lateral-esquerdo Nilton Santos, “são marcáveis, menos seu Mané. Mané em dia Mané só com revólver”.


Se Garrincha fazia a alegria do povo e provocava gargalhadas pelo improvável, Heleno de Freitas deixava rastro com seus dribles e gols. Ídolo do Botafogo na era pré-Mané, Heleno via a vida como uma festa dentro e fora da cancha. Para o craque, um gol contra o Flamengo na final do campeonato tinha o mesmo valor que frequentar a sociedade do Rio no final dos anos 40 e 50 e ter as mulheres mais exuberantes consigo.


Heleno, assim como o anjo das pernas tortas, era um sujeito dramático, talvez o primeiro pop-star do futebol: gostava de andar pela noite e tinha um apetite por sexo que lhe valeu uma sífilis. Nesse sentido, Garrincha estava mais para Charles Chaplin: seus lances, nas quatro linhas, desafiavam a lógica; fora delas, teve um casamento conturbado com Elza Soares e morreu na sarjeta. Sarjeta, aliás, foi o destino de ambos.


Curiosidade ou não, o auge do Botafogo coincide com o auge do próprio Rio de Janeiro, ainda capital do Brasil que fervilhava uma boemia musical que revolucionou a música. Nos prostíbulos e bares de Copacabana e Lapa, rolava o violão de Baden Powell e o samba-canção dor de cotovelo de Maysa, além da batucada criada por João Gilberto em “Chega de Saudade”, cujo ritmo mudara os rumos da música brasileira.


O Botafogo é Paulo Mendes Campos sentado no Maracanã preparado para sofrer por 90 minutos; o Botafogo é a última crônica do escritor Fernando Sabino escondido num botequim atrás do texto para ganhar o dia; o Botafogo é uma crítica de Sergio Augusto no Pasquim; o Botafogo é um samba de Beth Carvalho sobre aquela saudade imensa.


Pena que, pela terceira vez em sua história, a Estrela Solitária vai disputar a segunda divisão do futebol brasileiro. A queda é um misto de gestão inescrupulosa e um amontoado de ex-jogadores em atividade contratados pelo clube que o levaram a uma dívida na casa de milhões. Para se ter uma ideia do tamanho do rombo nos cofres, o então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, defendeu projeto de lei clube-empresa com o óbvio intuito de possibilitar o calote alvinegro em sua dívida.


Até na visão retrógrada o Botafogo é como o Rio de Janeiro. Assim como a Cidade Maravilhosa e sua glórias culturais, o clube vai pagar o preço pelas péssimas administrações, em um futebol que cada vez mais atrai os interesses dos conglomerados de comunicação e suas arenas shopping centers que não tem identificação nenhuma com o torcedor. Que o Botafogo volte logo à Série A.


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