• Victor Hidalgo

“Eu acho que a esquerda se afastou muito do movimento de base”, afirma candidata a vereadora

Eleições 2020

JM entrevista Luana Alves, candidata a vereadora na cidade de São Paulo pelo PSOL

Luana Alves é candidata a vereadora (50. 505). Foto: Divulgação da campanha


Luana Alves é psicóloga formada pela USP, especializada em Saúde Coletiva e Atenção Primária e atuou em Unidades Básicas de Saúde (UBS) da zona oeste de São Paulo. Na universidade, Luana foi uma lutadora pela implantação de cotas raciais e sociais na USP. Foi lá também que conheceu a Rede Emancipa, um movimento social de cursinhos populares que proporciona o acesso de milhares de estudantes de escola pública à universidade. Nessas eleições, aceitou o desafio de ser uma porta-voz da luta antirracista, antifascista, das mulheres, das periferias, das LGBTQIA+ e ocupar a Câmara de Vereadores de São Paulo.


Luana conta em entrevista ao Jornal Metamorfose que sua militância já é antiga., já participou do movimento estudantil e de cursinhos populares. Depois que começou a trabalhar no SUS, entrou para o movimento dos trabalhadores de saúde e de mulheres negras.


"Essa militância vem de um tempo já, vem de uma indignação com o mundo, vem de eu estar em um lugar de bastante desvantagem social. Vem da minha mãe ser uma mulher negra antirracista e militante, do meu pai ser um militante de esquerda. Nenhum de nós somos privilegiados ou ricos, mas eles sempre me ensinaram a pensar a luta coletiva. Essa militância pra mim sempre foi um fazer político no mundo, mas a política institucional parlamentar veio mais pelo meu contato com o PSOL", afirma Luana ao JM.


A candidata começou no partido em 2014 e sempre fortaleceu mandatos que oferecem mudanças e que fossem revolucionários. Foi do comitê da deputada federal Sâmia Bonfim, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), em 2016 e 2018, além de ser muito próxima de Monica Seixas, da Bancada Ativista.


"Essa política mais institucional, eu acho que deve estar a serviço das lutas. É assim que eu enxergo. O passo que eu estou dando hoje de me candidatar, em um coletivo, é para mim um passo natural desse fazer politico", relata ao Jornal.


Os desafios de sua campanha são os mesmos de toda candidatura que propõe ser anti-sistêmica, com dificuldades estruturais e sem investimento que outros candidatos têm. Sendo uma competição contra candidaturas milionárias, depende de voluntários para fazer sua panfletagem, que acabam competindo contra até dez cabos eleitorais.


"Tem também a descrença em uma candidata mulher e negra. Essa é uma questão muito importante. Não é de todo mundo, às mulheres negras se identificam comigo e querem votar, mas existe ainda um machismo e racismo que me impedem de ser visto como uma boa candidata", afirma Luana.

Luana Alves. Foto: Divulgação de campanha


Ela ainda diz que o clima político atual está muito interessante, que Guilherme Boulos - candidato a prefeitura na cidade de São Paulo pelo PSOL - está sendo um fenômeno maravilhoso e que está devolvendo a esperança para muitos paulistanos. Segundo ela: “o Bolsonarismo obviamente não veio para ficar. Foi uma alternativa que a população encontrou de uma suposta mudança anti-sistêmica, que é uma mentira, uma enganação, uma farsa. É um presidente genocida, e o sentimento contra esse presidente está sendo muito expresso na campanha do Boulos”. Os ataques ao candidato a prefeitura de São Paulo tem ficado mais pesados, mostrando a preocupação de seus adversários.


A candidata tem propostas em diversos campos. Como membra de uma plataforma nacional de candidaturas ligadas a rede Emancipa, ela participa do "Poder nas Periferias", em que fala de radicalização da democracia, para que as pessoas tenham mais espaços de poder, mais conselhos participativos e que os movimentos sociais de bairros tenham mais poder político na cidade.


“A gente também quer uma inversão orçamentária. Hoje, às periferias produzem a maior parte dos impostos e da riqueza da cidade, mas não tem quase nada de políticas públicas em retorno. Às escolas estão sucateadas, UBS estão em falta, tem poucos profissionais da saúde. Mesmo na área do lazer não tem espaços verdes públicos na periferia. Essa inversão orçamentária é muito importante, pelo fato deu ser uma profissional da área da saúde, a coisa pega bastante para mim. A privatização prejudica o atendimento em saúde na cidade. Então queremos a reversão e que a saúde seja gestão direta e controle popular”, diz a candidata.


Sobre a demonização da esquerda, ela diz que dá para perceber que ela é feita em cima de muita mentira. Que existe uma parcela das pessoas muito conservadoras e reacionárias, mas existe uma boa parte da população que vê fake news, acredita, e não quer votar na esquerda. Mas não necessariamente demoniza.


“Vou te contar a experiência nas ruas que eu tenho, não só de campanha, mas de que eu tenho muito tempo sendo educadora popular em cursinho com os filhos desses evangélicos. Eles vêm com uma idéia preconcebida muitas vezes que é só fazermos uma discussão breve sobre história, geografia e sociedade, um pouco mais profunda, que essa demonização é desmontada muito facilmente”, conta Luana. Um exemplo que ela dá disso são os debates que ela fazia na rede Emancipa com os alunos sobre escravidão no Brasil, desigualdades, exclusão racial e estrutural. Isso mudava a cabeça deles.


“Então fazer esses debates gerava uma mudança da opinião geral dos alunos. Na campanha eu vejo que muitas pessoas que eu entrego o panfleto do Boulos já falam: "ah Boulos, invasor de casa!" Mas que na maioria das vezes não se sustenta. Eu falo que ele é de um movimento social de moradia, que ocupa imóveis abandonados a muitos anos que tem dívida de IPTU com a prefeitura e que não são usados para nada além de especulação imobiliária. Como pode em uma cidade que o salário mínimo é menos de mil reais ás pessoas não conseguirem pagar um aluguel decente por menos de R$700,00 R$600,00” segundo a candidata.


Explicar que o Boulos não é um invasor de casas e que sim faz parte de um movimento social que visa buscar o direito constitucional de moradia e cobrar dos órgãos do governo que imóveis abandonados sejam transformados em moradia popular por conta da lei de habitação social, muda a opinião das pessoas. Elas sabem e sentem na pele a dificuldade de conseguir uma casa em São Paulo.


“eu acho que a esquerda se afastou muito do movimento de base, por isso tenho muito orgulho, sendo eleita ou não, pretendo continuar na rede Emancipa, que é um movimento de base na minha opinião, de educação com a juventude. O Boulos com certeza que vai continuar no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, pra gente é esse trabalho de base que falta, porque senão, acaba abrindo espaço para mentira”, encerra Luana.


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