• Marcus Vinícius Beck

Eu estou totalmente perdido

Série

Ator Paulo Tiefenthaler protagoniza produção que aborda universo LGBTQIA+. Obra conta história do escritor fracassado Derek, uma espécie de Raoul Duke carioca e boêmio inveterado


Em ‘Perdido’, ator Paulo Tiefenthaler é um escritor frustrado e cinquentão - Foto: Desirée do Valle/ Divulgação


Quem foi que disse que o Rio de Janeiro é uma cidade em decadência? Lá tem muita vida, sim. E ainda conta com uma boemia intelectual na qual se encontra sem grandes esforços a matéria-prima para fugir da mesmice do nosso cotidiano.


Você pode até se sentir “Perdido”, mas não será por adotar um vestuário como o de Raoul Duke em “Medo e Delírio em Las Vegas”. Pelo menos não é por isso que Derek (Paulo Tiefenthaler) se sente deslocado. Escritor frustrado, cinquentão, boêmio, caricato e morador de uma Copacabana infestada de cassinos e cineastas em começo de carreira, o cara tenta dar sentido à sua vida enquanto se acostuma com a ideia de que é dono de uma loja de lingeries após herdá-la de sua tia (Débora Duarte).


No testamento, ela – que morreu de enfarto fulminante depois de cheirar uma carreira de cocaína – faz um pedido: que o jovem gerente Roberto Clayton siga em frente com os negócios. Juntos, os dois modernizam a loja, transformação que acontece paralelamente ao processo de transição de gênero feito por Clayton, e sem os clichês comuns: Clay, seu nome após a mudança de sexo, foge ao estereótipo do marginalizado. Já Derek, homem branco, cisgênero, heteronormativo e tão endinheirado quanto um escritor costuma ser, acompanha essa luta brigando com seus modos e modinhas machistões.


E se não bastasse a surpresa ao virar homem de negócio do dia pra noite, Derek precisa lidar ainda com o processo de adaptação de seu principal livro, “Chicletes Cheirosos”, para o cinema pelas lentes de Bel (Tainá Medina). A diretora não mede esforços para ver a publicação se materializar num filme rodado inteiramente com o celular. Nem bem estamos acostumados com a figura zoada do protagonista e suas trapalhadas, aparece a atriz designada ao papel principal do longa baseado na obra dele: Sofia (Karine Barros), cuja vocação para Núbis, uma sedutora serial killer feminista extraterrestre, se faz adequada a cada filmagem.


O cenário, mítico bairro de Copacabana e seus personagens inusitados, dá a “Perdido” uma atmosfera em busca do lado existencial do homem. Em alguns momentos, assemelhando-se ao universo das HQ's, a própria ‘Copa’ vira o centro da produção. Além de Derek, Bel e Clay, o excêntrico editor do protagonista e ex-alcoólatra (Andre Mattos) nos proporciona boas risadas com suas tiradas ao estilo malandrão carioca. Já o vizinho do escritor Alan (Bernardo Mendes), jovem estudante de direito, nerd e plantador de maconha para clientes confiáveis, detêm um humor deletério.


Derek, evidentemente, se mostra perdido pelos tipos que lhe cercam. Mas devemos lembrar que ele é um sujeito na meia-idade, criado numa sociedade patriarcal, que também o faz de vítima: a relação dele com Bel, por exemplo, reserva diálogos que caem como uma luva de pelica. Frases como “peça de roupa não é convite para o sexo” dão à série a consistência necessária para se tornar um produto impossível de ser dissociado destes tempos no qual o machismo deve ser discutido, e combatido.


Paulo Tiefenthaler pode até ser o eterno maluco chef de cozinha de “Larica Total”, mas em “Perdido “ele mostra muito mais do que isso: se mostra um roteirista preocupado em ouvir as masmorras de um comportamento masculino que mata, e mesmo assim ainda encontra simpatia de certas pessoas da toga por aí – quem não se lembra do julgamento de Mari Ferrer?


Agora me desculpa, mas tenho de confessar uma coisa: ok, eu estava bêbado quando perambulei pelas ruas de Copacabana, porém - ainda que o bairro já tenha sido amplamente retratado na literatura, no cinema e na música - parece que toda história sobre a “princesinha do mar” é pouca. E por isso “Perdido” - que estreou nesta segunda-feira (9) no Canal Brasil e está disponível no streaming Canais Globo - nos proporciona momentos de diversão, além de reflexões urgentes. Precisamos falar sobre machismo.


‘Perdido’

Diretor: Paulo Tiefenthaler

Episódios: 13

Disponível desde a segunda-feira (9) no streaming Canais Globo


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