• Victor Hidalgo

Fallow: uma criatura no céu se contorce em imensa dor

Cultura

Entrevista com a desenvolvedora canadense Ada Rook sobre seu novo jogo

Capa de Fallow de Ada Rook - divulgação


Quando vi Fallow pela primeira vez navegando pelo Twitter, me senti acometido por uma sensação que eu não sentia há muito tempo. É como se eu tivesse encontrado um pedaço do meu passado perdido, uma sensação de nostalgia misturada com terror. Fiquei cativado com o primeiro trailer, sabia que tinha encontrado uma obra de arte única, com a alma da autora investida nela.


Fallow é um jogo em pixelart que lembra clássicos do Game Boy, mas com uma complexidade de cenários que só poderiam ser alcançados em um Super Nintendo. Com cores que evocam uma sensação de decadência daquele mundo. Você encarna na pele de Isabelline Fallow, que vivia com suas irmãs em um canto isolado do mundo, mas que começou a se esquecer. Em breve, ela ira se-esquecer de suas irmãs também.


Agora Isabelle anda dormindo, e toda manhã sua casa está um pouco diferente do que ela costumava se lembrar. Em seus sonhos, uma sombra se contorce em agonia sobre o céu laranja impregnado de fumaça.


A paleta de cores limitada que a artista resolve usar em sua obra me fazem pensar na limitação das próprias memórias da personagem principal, e como essas lembranças podem se perder e contorcer em nossas mentes como uma sombra de um passado que já não está ao nosso alcance.


Fallow - divulgação


O uso da cor azul em Isabelle me remete a melancolia do esquecimento, afinal, “feeling blue” é uma expressão comum na linguá inglesa, que significada literalmente sentir-se triste. E não tem nada mais triste do que perder uma parte de quem você é, da sua história, da sua vida.


Os visuais modelados a mão por Ada são cheios de sentimentos e coração, misturado com o terror do desconhecido que alguém como Lovecraft teve a maestria de trabalhar.


Não sei bem dizer se foi a pixel art ou a música que fizeram isso comigo, só sei que eu também já sonhei com uma criatura no céu, e conversei com a desenvolvedora canadense Ada Rook que falou um pouco de como foi o processo de criação do seu jogo.


Fallow está em desenvolvimento a pelo menos 7 anos, segundo Ada Rook. A estrutura narrativa se manteve a mesma enquanto todo o resto dentro dele acabou sofrendo mudanças devido a influências de diversas obras ao longo dos anos “Essa incerteza constante e por conta deu ter que refazer o meu trabalho diversas vezes que levou o jogo a demorar tanto. As inspirações originais foram a estética de algumas bandas gothic americana que eu ouvia na época, e também o jogo Anodyne de Melos Han-Tani e Marina Kittaka” Diz a desenvolvedora Ada Rook para o JM.


Gothic Country (também conhecido como Southern gothic e gothic Americana) é um sub-gênero de country alternativo que começou na cidade de Denver, nos Estados Unidos, no final dos anos 90 e no começo dos anos 2000. Ele combina em seu som e estilo country alternativo, blues e música gospel que fala em suas letras sobre pobreza, religião, morte, fantasmas, amores perdidos, assassinatos, o Diabo e traição. E vendo o cenário que esse tipo de música costuma retratar em suas letras (e capas de álbuns) a inspiração de Ada fica nítida quanto ao clima que ela quis trazer para o seu jogo.


Fallow - divulgação

Ada fala sobre sua amizade com Marina atualmente, e como Anodyne foi o primeiro contato que ela teve com o seu trabalho. Como a escrita e visual do jogo a cativaram, como se tivessem vindo de outra realidade.

“‘A música de Melos também mudou a minha vida, há um sentimento de anseio tão intenso nela, mas é quase obscurecido por essa névoa de imprecisão calculada, “como um sonho”, eu acho, mas parece reducionista. Mas era esse o sentimento que eu queria - eu queria tentar fazer esse tipo de história misteriosa onírica com uma estética que eu realmente não tinha visto em nenhum jogo naquela época, o tom sépia, desgastado, vivido no clima do estilo gótico americano”.

Apesar de nunca ter jogado Silent Hill, Ada diz que a rilha sonora do jogo foi muito influente em seu trabalho. Que se inspirou mais em obras como Myst, Shadow of the Colossus e Killer7 além da leitura dos livros de Frank Herbert (Duna) e William Gibson (Neuromancer) quando tinha apenas 11 anos, e segundo ela, era jovem demais para entender o que estava realmente acontecendo na história.

“Eu nunca joguei um jogo da franquia Silent Hill, mas suas trilhas sonoras me influenciaram muito. Também nunca li nenhuma obra do Lovecraft, para ser honesta. Eu amo os elementos desconhecidos nas histórias, ou buracos onde deveria haver informações, mas que foram cuidadosamente esboçados por uma vaguidão assombrosa apenas” relata Ada.


Jogos sempre foram uma fuga muito importante para ela. Sempre sonhou em desenvolver, mas não tinha as ferramentas ou paciência para aprender a programar. “Sempre desenhei pixel art, fiz música e escrevi, mas foi só quando comecei a brincar com o RPG Maker XP que senti que poderia realmente fazer algo neste meio que valesse a pena” fala Ada citando a ferramenta de desenvolvimento de jogos.

“Eu nunca consegui compreender programação além do nível básico, então o RPG Maker foi a ferramenta perfeita para mim. Também adorei suas limitações e a sensação de pressioná-las, disfarçando a forma do software que estava usando” finaliza a desenvolvedora canadense.

Conversando com Ada eu comecei a entender o que me atraiu ao seu jogo. Essa sensação de vaguidão, melancolia e de que existe algum segredo escondido virando a esquina, basta andar. Como as cores sépia me remetem a uma fotografia desbotada pelo tempo. Sensações que tive com jogos como o já citado Shadow of the Colossus, só quem cavalgou pela terra inabitada em busca de colossus e tentando desvendar os mistérios que aquela terra habita vão entender a sensação que é jogar e experienciar Fallow.






Jogo: Fallow

Plataformas: PC (Steam e Itch.io)

Desenvolvedora: Ada Rook

Tempo médio de jogo: 2 - 5 horas

Gênero: aventura

Preço: R$ 37,99

Você pode comprar Fallow na Steam ou pelo Itch.io


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