• Larissa de Moraes

Falta de formação prejudica o setor cultural brasileiro

Cultura

E esta situação, segundo artistas experientes, leva à falta de inclusão


De um lado o Brasil possui grandes universidades públicas e privadas, que oferecem os mais diferentes cursos na área cultural, de música ao teatro. Mas poucos conseguem seguir se profissionalizando, estudando. E por quê? Por falta de incentivo da própria sociedade e que, consequentemente tem como uma das consequências à falta de inclusão de artistas da periferia na cena cultural, que no país, é pujante.


O cineasta Guilherme Fernandes, do Coletivo da Quebrada (SP) e o poeta William Trapo veem com bons olhos ações como a promovida pelo Ciclo de Gestão Cultural 2022. Para ele é preciso profissionalizar.


O poeta William Trapo faz duras críticas e afirma que o setor cultural brasileiro é carente no que diz respeito à formação, com poucas graduações e pós-graduações voltadas para a área. De acordo com ele, formações voltadas para produção cultural, técnica em som ou luz, produção executiva, elaboração de projetos, entre outros tantos segmentos que compõem o âmbito da cultura, são dadas como workshops e oficinas. Isso acaba impossibilitando uma formação contínua e, no fim das contas, os agentes culturais aprendem na prática, o que nem sempre lhes proporciona segurança ou garantia de um conhecimento atualizado.


“Acredito também que deveria haver bolsas e outros incentivos para a formação, assim como intercâmbios subsidiados com verba pública, como acontecem em outras áreas profissionais”, ressalta William. Em seu entendimento, com qualificação, os agentes culturais conseguem proporcionar melhores espetáculos, melhores produtos e produções, e tornar seus projetos duradouros e sustentáveis. Isso significa que todos ganham: o público com bons espetáculos; o Estado com mais arrecadação de impostos e ainda passa a ter uma sociedade alimentada de cultura.


Segundo Trapo, ofertas gratuitas de formação e mentorias permitem que artistas e agentes culturais obtenham o conhecimento necessário para se adaptarem ao mercado privado e ao dos editais públicos, além de fornecer a profissionalização necessária para a gestão de uma empresa ou projeto. “Conhecer novas possibilidades como editais públicos, que à primeira vista podem parecer impossíveis, ou novas ferramentas, como planilhas de gestão e equipamentos técnicos, desmistificam e facilitam o dia a dia de quem atua nessas áreas”, afirmou.



Ainda de acordo com o poeta, os investimentos por parte de todas as esferas do Estado no setor cultural sempre foram escassos no Brasil, mas em 2016 entramos em um caminho de retrocesso, com cortes na área da cultura, educação, esporte e lazer. “Com essa falta de apoio, artistas, principalmente os independentes, precisam encontrar uma segunda fonte de renda, ou acabam desistindo da carreira artística. Muitos projetos não atingem seu potencial em visibilidade, contrapartida e lucro, por falta de conhecimento de gestão ou técnico dos agentes culturais que não possuem incentivos para isso, ou por falta de verba”, explicou William Trapo.


A cultura brasileira perdeu espaço


Em 2016, um Golpe de Estado interrompeu o mandato de Dilma Rousseff à Presidência da República. Seu governo foi sucedido por Michel Temer, que tentou incorporar o Ministério da Cultura (MinC) ao da Educação. A pressão do setor da cultura reverteu a medida em apenas nove dias, porém, em 2019 Jair Bolsonaro extinguiu o MinC. O ministério foi rebaixado para Secretaria Especial da Cultura, atualmente vinculada ao Ministério do Turismo. Sob o governo Bolsonaro, além dos cortes orçamentários, a área cultural também lida com repetidos ataques e trocas frequentes de dirigentes.


Para o cineasta Guilherme Fernandes, do Coletivo da Quebrada, coletivo de audiovisual periférico da Zona Oeste de São Paulo, políticas de formação e incentivo também são uma forma de inclusão. A arte como um todo, desde cinema, videogame, teatro, quadrinhos e outros, sempre foi algo elitizado. Usando o cinema como exemplo, dentro ou fora dele, a periferia nunca se sentiu representada. Quem trabalha com cinema em sua maioria esmagadora são homens, brancos, héteros e, principalmente, ricos”, contou Fernandes.


Guilherme Fernandes diz que, de uma forma geral, as pessoas da periferia são representadas como perigosas, sem emoção e que estão no crime porque são ruins. “As políticas públicas servem para incluir a gente dentro dessas áreas. Se você der dinheiro suficiente para uma pessoa periférica fazer um filme, ela vai retratar a realidade dela”, comentou.


Fernandes acredita que mentorias de projetos servem para consolidar coletivos inexperientes ou com pouca experiência, pois ganhar editais não é uma tarefa simples. “É mais do que escrever uma boa ideia, tem várias “regras” não escritas que você vai aprendendo com o tempo ou, justamente, com uma mentoria experiente”, afirmou.


O cineasta conta que antes do primeiro edital, o Coletivo da Quebrada apenas flertava com o cinema, mas que hoje alguns integrantes vivem 100% do cinema e de outras artes. “Isso não seria possível sem o edital. O preço de uma câmera decente é muito mais do que um brasileiro ganha com um salário mínimo. Equipamento de som, iluminação, salário... Se você for fazendo as contas, no final, ou não sobra nada ou fica faltando”, concluiu Guilherme.


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