• Júlia Aguiar

Feminismo: uma onda que não quebra

#8M

Conheça o protagonismo das mulheres nas lutas sociais no Brasil e as quatro ondas do feminismo brasileiro

A luta das mulheres indígenas é constantemente apagada da história brasileira. Manifestação pedia #DemarcaçãoJá – Goiânia, 1.02.19 Foto: J.Lee/Arquivo



Sem a insistência de mulheres na luta pela garantia de direitos iguais, quiçá, eu escreveria essa reportagem com um pseudônimo masculino - ou pior, eu nem sequer poderia escrever. O movimento feminista garantiu nos últimos 200 anos direitos básicos para as mulheres, porém, ainda há muita luta a ser travada.


Foi com muita teimosia que as mulheres conquistaram o direito ao estudo, voto, a possibilidade de trabalhar - em qualquer profissão que quiserem - fora de casa, se divorciar… Se hoje fazemos parte integrante da sociedade, isso só foi possível graças à luta organizada de muitas mulheres ao longo dos anos.


A história do feminismo é contada em ondas: a metáfora se dá pelo impulso incessante do movimento, as ondas ganham mais força a cada vez que quebram e se dissolvem na areia. Algo semelhante acontece com os movimentos sociais, a cada passo dado pela liberdade, mais força a próxima geração garante na conquista de igualdade.


No brasil, a história do movimento feminista começa “oficialmente” no século 19, mas é importante relembrar o protagonismo de mulheres nas lutas sociais muito antes de serem chamadas de “feministas”. Como por exemplo, Dandara dos Palmares, que no século 17 liderou um exército feminino do quilombo dos Palmares na luta contra a escravidão, em Alagoas. Um século depois, Maria Quitéria de Jesus se passou por homem para entrar no exército brasileiro e participou ativamente da luta pela independência, ela ficou conhecida como a “Joana D'Arc brasileira”. Mais tarde, no século 19, tivemos Luísa Mahin, que liderou a “Revolta dos Malês” em resistência à escravidão em Salvador.


Por conta do machismo intrínseco em nossa sociedade contemporânea, a luta de diversas mulheres foi apagada da história, havendo poucos registros oficiais desses movimentos sociais antes de 1827, quando foram criadas as primeiras escolas femininas no Brasil. Nesse período tivemos a primeira educadora feminista, Nísia Floresta (1810-1885), considerada a primeira mulher a publicar textos na grande imprensa e de publicar o primeiro livro sobre os direitos femininos no Brasil, “Direito das mulheres e injustiça dos homens”, em 1832.


Já no século 20, tivemos a luta das mulheres pelo direito ao voto, esse é um marco importante do feminismo no país, pois divide-se pela primeira vez (de forma clara e explícita) a luta de mulheres brancas da elite brasileira e todas as outras mulheres (negras, pobres, camponesas e etc). Podemos ressaltar nesse período, a feminista anarquista Maria Lacerda de Moura, ela acreditava que as mulheres e as classes oprimidas só conseguiriam qualquer tipo de emancipação quando alcançassem a liberdade intelectual.


A primeira onda feminista termina com a conquista do voto feminino em 1932 no Brasil, com o governo de Getúlio Vargas. A partir daí, temos a segunda onda, que começa na década de 1960 com a reivindicação ao direito pela liberdade sexual e comportamental das mulheres. A geração que cresceu no otimismo das conquistas da primeira onda foram atropeladas pelo golpe, no período sanguinário da Ditadura Civil-Militar (1964-1985) muitas mulheres foram torturadas e assassinadas pelo estado.


A mudança dos comportamentos sociais já refletiam nos debates sobre o direito reprodutivo das pessoas com útero, principalmente depois da invenção do anticoncepcional, que proporcionou o debate sobre aborto. Com a radicalização da liberdade feminina - em um quesito tão enraizado como a maternidade e o trabalho doméstico - as roupas mudaram, as relações sexuais, a fluidez da sexualidade e do próprio conceito de gênero tomaram a pauta em diversas esferas do feminismo.


Em paralelo, as mulheres também lutavam pela anistia política, justiça e redemocratização, nesse período várias mães se uniram em marchas por todo o Brasil. Destaca-se (entre muitas iguais a ela) Iramaya Benjamin, mãe de César, que foi preso e torturado aos 17 anos de idade, história que pode ser vista no documentário impecável “Fico te devendo uma carta sobre o Brasil”, da diretora Carol Benjamin. Várias mulheres se uniram pela anistia, como a advogada Therezinha Zerbini que criou o Movimento Feminino pela Anistia e o Movimento Negro Unificado (MNU), protagonista da luta antirracista do período.


Após a constituição de 1988 os avanços tomaram proporções inimagináveis pelas mulheres do século 17. Atualmente, o índice de violência contra a mulher aumentou, estupros, abusos sexuais, racismo e assassinato de mulheres negras, o extermínio das mulheres indígenas e transsexuais assolam o movimento feminista. Porém, a onda continua vindo.



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