• Metamorfose

Filme seduz com história guiada por quebra-cabeça

Cinema


Exibido na 8½ Festa do Cinema Italiano, ‘O Caravaggio Roubado’ impressiona por enredo cheio de lacunas

Atriz Micaela Ramazzotti em cena do longa ‘O Roubo de Caravaggio’ - Foto: 8½ Festa do Cinema Italiano/ Divulgação

Marcus Vinícius Beck


O cinema é a arte da sedução. Em seus 110 minutos, a trama do longa-metragem “O Caravaggio Roubado” desenrola-se a partir dos desdobramentos que envolvem o roubo de uma obra-prima das artes plásticas, a máfia siciliana, o governo e uma jovem roteirista. No entanto, àqueles que não fazem questão de amarrar as pontas da história, trata-se de um filme bastante aprazível, com alguns lampejos de fascínio – eu diria. É uma obra movida pelo quebra-cabeça, estilo de fazer cinema que fez exorbitante sucesso nos anos 70.


É desse gênero, por exemplo, os clássicos “Jogo Mortal” (1972) ou “Trágica Obsessão” (1976). Em comum com esses dois longas, o filme italiano dirigido por Roberto Andò – o mesmo cara responsável pelo hilariante “Viva a Liberdade” (2013) – deixa um vácuo na percepção do público a ser desatado após os créditos subirem na telona depois da última cena. A trama é toda movida por ingredientes que, por assim dizer, suscitam uma sensação de aleatoriedade, fazendo certos momentos ser revisitados pelo público ao deixar a sessão virtual, já que “O Caravaggio Roubado” está disponível na 8½ Festa do Cinema Italiano até o dia 10 deste mês.


Ok, a estonteante atriz Micaela Ramazzotti, protagonista de “A Primeira Coisa Bela” (2010), dá um brilho deslumbrante ao viver Valeria Tramonti, secretária em uma produtora de cinema. Valeria nutre sentimentos amorosos pelo, à primeira vista, bem-sucedido roteirista Alessandro Pes. Os dois, embevecidos pela paixão, têm um caso. Mas, com ele mergulhado no marasmo do bloqueio criativo, quem escreve os scripts do sujeito é ela, e os textos são aclamados. Numa dessas terceirizações criativas, a jovem é procurada por um setentão misterioso com uma boa história para oferecê-la: o sumiço repentino de uma obra de Caravaggio.


Olha só: enquanto supunha-se que o quadro havia sido destruído décadas antes, o homem conta a Valeria que a obra ainda existe, porém está sob poder da máfia. Para evitar dores de cabeça com prisões, os criminosos têm a ideia de entregá-la ao governo. A roteirista, empolgada com o causo, decide sentar-se à frente do computador para dar vida ao que é um novo filme. O argumento cai no gosto das pessoas na produtora, inclusive de um patrocinador que possui ligações, digamos, próximas demais com o crime organizado. É neste momento que a história dá uma reviravolta: Alessandro, o cara do bloqueio, é perseguido.


Uma vez capturado, o desafortunado é golpeado pelos gangsteres e fica em coma. Valeria ruma para sua própria investigação dos fatos, vendo-se em situações embaraçosas que envolvem até a mãe. Todo esse clima, vale destacar, é permeado por temperos de bom-humor que fogem do suspense tradicional. O final, exercício metalinguístico com o objetivo de sustentar a complexidade do enredo, pode gerar mais confusão do que propriamente desfechar o filme com gala. Se a ousadia é um aparato em falta no cinema, pode-se dizer que Andò arriscou, e muito. Mas a verdade é que “O Roubo de Caravaggio” fascina.


Ficha Técnica

‘O Roubo de Caravaggio’

Diretor: Roberto Andò

Gênero: Suspense

Duração: 1h50

Onde: 8½ Festa do Cinema Italiano até o dia 10 (looke.com.br)

Gratuito