• Marcus Vinícius Beck

Fim da linha

Atualizado: Mai 17

Botequim Literário

Cena do filme 'Eu Não Matei Lúcio Flávio': semelhança com polícia que mais mata



No dia 10 de maio de 1970, uma bomba explodiu no jardim da casa em que funcionava a Redação do jornal O Pasquim. A operação, símbolo da incompetência dos fardados, foi detonada de madrugada. Por sorte, só estavam presentes o vigia e a esposa. “Ademais, a bomba deu chabu. Polícia incompetente”, explicou o jornalista e crítico cultural Sérgio Augusto, num tuíte que lembrara a inabilidade da polícia fluminense.


Sérgio era um dos jornalistas que faziam parte da patota que revolucionara o jornalismo brasileiro, com irreverência, deboche e originalidade. Entrevistaram, por exemplo, personalidades como Madame Satã e Leila Diniz - um bafafá tremendo.


Memórias jornalísticas do período da caserna à parte, não foi isso o que os moradores da comunidade Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, presenciaram durante quatro horas de tiroteio, na quinta-feira (6). O saldo da letalidade da instituição que exibe o privilégio de monopolizar a violência impressionou o mundo: 28 pessoas mortas, incluindo um policial. Um passageiro alvejado no metrô. O horror, o horror.


Horror, inclusive, que estampou manchetes no The New York Times, El País, The Guardian, Le Monde. Mais uma vez, fomos notícia – mas da pior forma possível.


Sem perder tempo, o delegado Rodrigo Oliveira criticou o “ativismo judicial” e, em sintonia com a retórica do presidente, disse que os defensores dos direitos humanos têm nas mãos o sangue do policial que perdeu a vida na invasão. Que, é bom ressaltar, ocorreu mesmo após o STF ter decretado a suspensão de incursões na pandemia.


Mas a verborragia e práticas milicianas de nossas autoridades não pararam por aí. O vice-presidente, Hamilton Mourão, referiu-se aos mortos na matança no Jacarezinho como “tudo bandido” - assim mesmo, com essas palavras, uma desgraça! Fosse o Brasil um país que não estivesse descambando para a barbárie, talvez o general recebesse o convite para ir ao banco dos réus. Só que isso no bolsonarismo é uma utopia.


Pense bem: vai ver o agente da força de segurança sentiu-se encorajado a discursar como político justamente por ver uma carta branca no governador Cláudio Castro – ou, quem sabe?, até mesmo nos aplausos cheios de sangue de trabalhadores do presidente Jair Bolsonaro, que dias antes da operação policial se reuniu com Castro no Rio.


Até a tentativa de validar o massacre é uma xerox daquilo que o recruta zero que se faz presidente diz: o tráfico alicia nossas criancinhas. Sério? Quer dizer, vocês só conseguiram descobrir isso agora?! É esse o trabalho de inteligência da polícia que supostamente teria embasado a invasão do Jacarezinho e que teria durado dez meses?


O que se viu na comunidade é digno do esquadrão da morte retratado no filme “Eu Matei Lúcio Flávio”, dirigido por Antônio Calmon e baseado nas matérias que saíram em jornais nos anos 1970. Na fita, considerada uma resposta a “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia”, de Hector Babenco, vemos a história do matador profissional Mariel Maryscôtt (Jece Valadão), cuja carreira se constituiu toda ligada a assassinatos, amizade com bicheiros e grana fácil - qualquer semelhança com o Adriano, aquele que é comparsa dos Bolsonaro, é mera coincidência, hein!


Cá para nós, explicar o Brasil é difícil, cansativo, eu diria. Mas não falar sobre a delinquência em curso no nosso país é avalizar uma sociedade desmemoriada e que não faz a mínima para combater os sintomas da amnésia social.


Nossa desigualdade, a forma como os menos favorecidos vivem e como eles são alvos pela cor da pele. É a moral e os bons costumes, aliado ao passado que não passa. Tudo o que é diferente à normatividade merece ser aniquilado: seja mulheres, transsexuais, homossexuais, negros, moradores da periferia, como os que foram mortos na quinta.


Chico Buarque nos ajuda a compreender isso, com “Geni e o Zepelin”, música que faz parte do disco “Ópera do Malandro”. Vai Chico, vai que é tua: “A cidade apavorada/ Se quedou paralisada”. O Brasil está matando o Brasil. E ainda dizem que as instituições estão em pleno funcionamento. Que merda, que vergonha, que horror!



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