• Júlia Aguiar

Floresta de Camboatá vira pauta eleitoral

Eleições 2020

JM entrevista Felipe Candido, candidato a vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro

Floresta de Camboatá é importante área de preservação ambiental na cidade maravilhosa. Foto: Brenno Carvalho

A Mata Atlântica é uma das 34 áreas prioritárias de conservação ambiental no mundo, com alta biodiversidade e infelizmente, maior índice de ameaça ambiental. Com mais de 20 mil espécies de plantas, sendo oito mil espécies exclusivas desse bioma latino, com mais de 1,6 milhões de espécies de animais.

A Floresta de Camboatá é o último trecho plano de Mata Atlântica na cidade do Rio de Janeiro, localizada no bairro de Deodoro, na Zona Norte. Atualmente a Floresta é ameaçada por empreendimento milionário para a construção de um novo Autódromo.

Com cerca de 194 hectares, área equivalente a quase 200 campos de futebol, Camboatá também intercala três grandes montanhas: Tijuca, Pedra Branca e Mendanha Gericinó. São mais de 200 mil árvores ameaçadas, 48 tipos de mamíferos, 92 de pássaros, inúmeras espécies de répteis e micro-organismos. A floresta também retém 1 milhão de metros cúbicos de chuva, se desmatada, bairros ao redor podem sofrer com futuras inundações.

Pesquisas do Jardim Botânico sobre a área indicam que a Floresta de Camboatá, por estar localizada entre três montanhas é um importante ponto de passagem para pássaros nativos que espalham sementes por toda região, esse corredor representa um potencial imenso de manutenção natural para toda a fauna e flora do local. Os estudos indicam que as florestas baixas praticamente desapareceram do município do Rio de Janeiro, sendo essa uma área que sobreviveu meio ao desenvolvimento urbano da Zona Norte da cidade.

Felipe Candido criador do SOS Floresta do Camboatá, têm 44 anos, é servidor público e estuda gestão ambiental na Universidade Veiga de Almeida. “Eu fundei o SOS Floresta de Camboatá em 2011, porque eu moro em um dos bairros que margeiam a floresta, o bairro de Gladalupe”, conta Felipe, que também é candidato a vereador na cidade do Rio de Janeiro, em entrevista ao Jornal Metamorfose.

O candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) explica que ninguém pode entrar na floresta por ela ser uma área militar. “E existia essa questão de que era um paiol que tinha explodido em 1950, o maior paiol da América Latina”, conta ao JM.

Felipe relata que a população sempre percebeu a diferença no microclima dos bairros que estão em volta da floresta, ele lembra que via jacaré e serpentes. “Em 2009 e 2010, no governo do Eduardo Paes quando prefeito, já havia a ideia de se fazer o autódromo. Entre várias áreas, porque que escolheram essa? Essa é a grande pergunta a ser feita até hoje”, questiona o candidato.

O Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), apresentado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 13 de agosto, aponta que existem outras quatro alternativas para a construção do Autódromo em áreas que não tem cobertura florestal. Os mapas do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) afirmam que a Floresta de Camboatá contém quatro áreas de preservação permanente, duas de margens de rios e duas de nascentes.

“Essa é a última área remanescente de áreas planas da capital, a desculpa de que não sabia não é verdade, porque já é uma área que faz parte do plano diretor da cidade, o Jardim Botânico estuda essa floresta desde 1985 a pedido do general Barroso”, conta o candidato.

Autódromo

Em junho de 2018, o Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sugeriu ao prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Crivella, que a Floresta de Camboatá fosse usada para a construção de um novo autódromo, trazendo a GP do Brasil de Fórmula 1 para a cidade. O contrato com São Paulo, onde o campeonato ocorre atualmente, acaba em 2020.

O valor da proposta para o Rio é de aproximadamente 65 milhões de dólares, aproximadamente 353 milhões de reais, para que o torneio fique no Rio de Janeiro por 10 anos. Em dezembro de 2018, a Secretaria de Esporte do Rio de Janeiro aprovou projeto para captação de R$ 302 milhões em incentivos fiscais para que a cidade receba o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 em 2021 e 2022.

A licitação de construção do novo autódromo foi concedida ao consórcio Rio Motorpark. O projeto tem consultoria da Crown Consulting, com gestão esportiva da CSM, e projeto arquitetônico do alemão Hermann Tilke com as empresas B+ABR Backheuser e Riera, além da Tilke Engineers & Architects.

“O JR Pereira tinha uma consultoria chamada Crow Consultoria, ele já teve informações privilegiadas e fez uma consultoria sobre a floresta. Essa consultoria lançou um edital executivo para construir o autódromo e 11 dias antes da licitação ser publicada ele criou a empresa Rio Motopark. Ele montou o edital, criou uma outra empresa que participou sozinha”, explica o candidato Felipe Candido do PSOL, em entrevista ao JM.

O Ministério Público Federal (MPF) aponta que o presidente da Rio Motorpark, José Antonio Soares Pereira Júnior (JR Pereira), é sócio da Crown Assessoria, que ajudou a montar o edital. O MPF ainda cobrou da Rio Motorpark comprovantes de que a empresa possui 1% do valor estimado do empreendimento, ou seja, cerca de 6 milhões do investimento de 697 milhões orçados. Criada poucos dias antes da licitação, a Rio Motorpark declarou ter capital social de 100 mil reais. O MPF enviou notícia-crime para o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que investiga o caso.

“No edital diz que a Floresta do Camboatá tem 2 milhões de metros quadrados, no edital 41,7% desse terreno vai para o JR Pereira para ele fazer o que ele quiser. Isso foi questionado e ele soltou uma nota dizendo que ele vai abrir mão dessa porcentagem, e que vai criar projeto de reflorestamento. Isso é mentira, porque não foi feito outro contrato. Inclusive Crivella disse que seria feito empreendimentos há uma semana atrás em sua campanha eleitoral”, relata Candido.

Propostas

Material de divulgação do candidato em demonstração da proposta do corretor verde.


Felipe Candido tem como objetivo principal levantar uma bandeira ambientalista na Câmera Legislativa, se propondo a ser um mandato aberto para todas as ONGs e organizações ambientais da cidade do Rio.

Sua principal proposta é a criação de um corredor verde na zona norte da cidade, entre o Parque de Madureira e a Floresta de Camboatá. “Fazer um grande calçadão, uma área de lazer, elevar o piso, com rio embaixo, e estender ela até a Floresta de Camboatá com ciclovias. A floresta é murada e essa via pública é de responsabilidade da prefeitura do rio, não é diferente a estrada de Camboatá. É recuperar aquilo ali, criar calçadas e ciclovias, ligação com o BRT e o trem”, explica o candidato.

Felipe também pretende ser um porta voz da causa animal na Câmara. Ampliando o leque de vacinação para as doenças virais de cães, gatos e mamíferos no geral. Além de aumentar a fiscalização na fazenda modelo, pois ele afirma já ter recebido denúncias gravíssimas.

“É preciso criar transporte de grandes animais para a fazenda modelo, ampliar esse atendimento e fiscalizar. Permitir que os animais continuem vivendo, que alguém queira adotar, que tenha acessibilidade. E lógico, a criação de hospitais públicos veterinários, com atendimento de 24 horas para quem resgata animais”.

Candido explica que seu mandato, se eleito, será com propostas abertas e dinâmicas. Além de focar na revitalização do bairro de Guadalupe, trazendo qualidade de vida para as pessoas.

Gostou do texto?

Com a ascensão da censura e ataques recorrentes à mídia, entendemos que o jornalismo independente se torna mais importante do que nunca. Não podemos nos calar.

Por isso precisamos de seu apoio, queride leitor. 

Apoie a mídia independente e ajude o JM a continuar publicando. Só podemos fazer nosso trabalho livre de amarras institucionais pois acreditamos que a imprensa deve se manter autônoma, para isso contamos com sua colaboração.