• Lays Vieira

Gênero e Neoconservadorismo

#8M

Falar de capitalismo é falar sobre gênero

Família tradicional, um projeto capitalista. Arte: Elder/Reprodução


Vários teóricos e estudiosos vem mostrando, pelo menos desde o século 19, como gênero, política e economia não se separam e são essenciais para a manutenção de um sistema predatório e de exploração, cada vez mais escancarado na pandemia.


Podemos trazer infinitos exemplos históricos até a atualidade do nosso dia-a-dia, mas vamos nos restringir apenas ao nosso contexto pandêmico como exemplo base para esse texto. Como apresentado pelo Esquerda Diário, nesse já um ano de pandemia, 50% das mulheres brasileiras tiveram que cuidar de alguém, 41% afirmaram estar trabalhando mais na pandemia, o isolamento social (e a falta de políticas de Estado para assistência nesse caso) afetou o sustento dos lares de 40% delas (especialmente mulheres negras), além do gigantesco aumento nos casos de violência doméstica.


É fácil, mediante comparação de dados e breves leituras, perceber que as mulheres foram os sujeitos mais afetados durante a pandemia. Uma realidade marcada pelo aumento da sobrecarga no local de trabalho, em casa e nas tarefas de cuidado.


Simplesmente falar que isso se deve ao caráter estruturalmente patriarcal e falocentrico da nossa sociedade é simplificar uma situação que tem contornos bem complexos, que vão desde a naturalização do papel e do local da mulher até a economia.


O primeiro ponto que deve ser colocado é que, especialmente a sociedade ocidental (mas não só ela) foi e ainda é estruturada em um conceito muito específico, mas não único, de família. A belíssima tese da professora Rayani Mariano dos Santos, coloca isso muito bem. Segundo ela, o ideal da família (burguesa, pois enquanto uma sociedade capitalista, o modelo predominante que nos foi dado e pregado como único possível foi esse) inclui em sua base o amor romântico, a heterossexualidade, a monogamia etc.


Ainda no século 19, Friedrich Engels já preconizava que: depois da proibição do incesto pelos agrupamentos humanos, o ato de casar para fora do grupo obrigou a formação de alianças no plano social e também se relaciona a uma economia familiar e a divisão sexual do trabalho. Ou seja, a unidade produtiva familiar determina ao casamento um papel importante, econômico, de cooperativa de produção, daí ser necessárias regras para organiza-lo e ele não se resume ao aspecto sexual.


Dentro desse contexto, a soberania do homem nessa conformação familiar e na geração de filhos (confirmação da paternidade), consolidou a existência de herdeiros. Assim, segundo Engels a monogamia surgiu da concentração de grandes riquezas em uma só mão, de um homem braço no caso, e da necessidade de legar essa riqueza aos filhos legítimos, por isso o requerimento da monogamia da mulher. Ideais que, por exemplo, foram negados a população negra e indígena, e gerou um arcabouço idealizado, retificado pelos ideais impostos por religiões judaico cristãs para manterem seu domínio, do que seria certo ou errado em termos de família e do papel do homem e da mulher. No Brasil, a ministra Damares Alves em suas falas representa isso de forma impecável.


É o que comumente chamamos de “família tradicional brasileira”, defendida com afinco pelo atual governo e toda a corja de conservadores e neoconservadores. Diferentemente do que autores como Friedrich Hayek enfatiza, o conservadorismo não está ligado apenas a questão da reação às mudanças, e sim, como bem demonstra a filosofa política Wendy Brown, ligado também a determinados princípios.


Assim, ao invés de falar de conservadorismo e neoconservadorismo, diferenças e semelhanças, a autora opta por falar do que perpassa ambos, uma moralidade tradicional, que por sua vez é assegurada e emanada da família e se encontram dentro de uma razão econômica específica (e isso vários autores como Friedrich Engels, Silvia Federicci, Melinda Cooper, Rayani Mariano dos Santos e de forma claríssima Wendy Brown): o neoliberalismo, uma racionalidade que mercantiliza tudo.


Como jornalista e cientista eu não acredito em coincidências. Nada surge do nada e o atual momento social, político e econômico mostra cada vez mais a relação entre gênero, neoconservadorismo e neoliberalismo. O neoliberalismo e o neoconservadorismo podem ser até opostos em muitas questões, mas na questão dos valores familiares, eles revelam uma forte e frutífera afinidade, que encontramos ao discutir o cuidado.


É aqui que um conceito fundamental entra, o familismo. Já que a individualidade e a coletividade perpassando o gênero. A professora Rayani Mariano dos Santos explica o conceito: “o neoliberalismo mina todas as condições do coletivo na sociedade. Isso é relevante porque, ao mesmo tempo, ao fortalecer a família tradicional, privatizada, auto-suficiente, conservadores reforçam a ideia de que o cuidado, a solidariedade, o afeto, têm lugar apenas no espaço privado das famílias. Então as famílias são fortalecidas em uma lógica neoliberal de falta de outros espaços coletivos, de socialização, de cuidado – de alternativas para a organização social do cuidado, da vulnerabilidade, assim como para a vivência dos afetos. Ao mesmo tempo, o familismo evoca permanentemente a negação dos direitos das mulheres ao reforçar a família como entidade, sem levar em consideração os direitos individuais de seus membros e as desigualdades dentro das famílias. Tem, também, um componente heteronormativo ao negar arranjos alternativos de família, que incluem uniões homoafetivas e/ou famílias ampliadas”.


Por isso, nesse e em todos os outros #8M, nas várias vertentes do feminismo (menos o liberal, porque em apoia essa lógica e escancara os recortes de raça e classe) e nas críticas ao atual governo, da extrema-direita conservadora, não dá para falar de emancipação dos sujeitos (mas, especialmente de mulheres, cis e trans), liberdade, economia, direitos, igualdade e respeito sem questionar o capitalismo, o patriarcado e o racismo. Qualquer vertente política dentro da esquerda que não se atente a isso, vai se limitar ao reformismo.

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