• Marcus Vinícius Beck

Golpe no bordel

Botequim Literário


Vera Fischer e Xuxa em cena do filme 'Amor, Estanho Amor' - Foto: Reprodução



Assisti na madrugada de quinta para sexta-feira ao filme “Amor, Estranho Amor” e ficou evidente o esforço moralista de varrer para debaixo do tapete a fita dirigida por Walter Hugo Khouri: afinal, vender a ideia de que se trata de um filme indecente me parece mais interessante. O Brasil continua um país não resolvido no sexo, obrigado.


É, meu rapaz, a pornografia dos salões da burguesia entre pileques e tormentos políticos pré-golpe precisa ser editada da nossa memória: afinal, a sacanagem dos poderosos é amor. O Brasil, salve patota reacionária, continua um país hipócrita.


Não valeu nada que lá estivessem Vera Fischer e Tarcísio Meira, ou Íris Bruzzi e Mauro Mendonça. Tampouco que fosse uma obra com a assinatura estética de Walter Hugo Khouri, o mais freudiano dos cineastas alternativos às figurinhas do Cinema Novo. Para a patrulha reacionária, foi apenas o filme pornográfico e pedófilo de Xuxa.


Vamos rebobinar a fita: quando “Amor, Estranho Amor” foi filmado em 1982 , Xuxa era uma modelo em ascensão que namorava Pelé. E três, quatro anos depois, retornou ao centro do noticiário após conseguir barrar o lançamento do longa na Justiça, proeza que ela conseguiu fazer arrastar no Judiciário até 2018. Aí, enfim, desistiu. Ufaaa!


Então estacionamos em 2021: o longa finalmente foi exibido na televisão, pela primeira vez em 39 anos. As surpresas, muitas. Frustrações, um bocado. Até aí nada mais.


Os motivos de Xuxa, se olhados com bom-senso, são significativos. Primeiro porque, neste ínterim todo, ela virou a “rainha dos baixinhos”. Segundo porque, se vista sem um contexto ou explicação, a famigerada cena em que ela aparece transando com um menino menor de idade tem grandes chances de soar desrespeitosa e até vulgar.


Não nego: isso é um aspecto problemático no filme. A narrativa é estruturada em flashback, com um idoso, endinheirado, já ministro, de terno e gravata, versados nos bons modos e nas boas maneiras, recordando-se quando se desvirginou no prostíbulo em que sua mãe trabalhava na década de 1930. As memórias dele se confundem com personalidades políticas do período. Como se vê, aprendeu muito bem os traquejos.


Mas nada disso é importante ou foi o que quis ressaltar Khouri em “Amor, Estranho Amor”. As imagens que vi sobrepostas dialeticamente servem para o momento no qual um grupo de figurões acha por bem dar um golpe de grande envergadura. A velha política do Café-Com-Leite, coitada, acreditava que ressurgiria em 1937. Os nobres senhores só não contavam que seus planos seriam frustrados por uma ditadura.


Esqueça, vixe, a teoria da pedofilia: Khouri quis zombar, digo, criticar a hipocrisia nacional com a metonímia do puteiro. Pego-me imaginando como ele retrataria o Brasil sob a turma do coturno e da farda verde-oliva...


Pois é, pensando bem, a tal metonímia não passaria despercebida pela turma que compõe o indiscreto charme da burguesia. Ainda assim, é uma obra que fala aquilo que queríamos falar, mas não tínhamos coragem de dizer.


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