• Marcus Vinícius Beck

Gracías, don Diego!

Luto


Craque argentino morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória. El Pibe, que encantou o mundo com dribles velozes e petardos endiabrados, deixa saudades com futebol elevado à arte


Maradona anota o gol ‘La Mano de Dios’ na Copa de 86 - Foto: Reprodução


O ídolo se foi.


E o mundo chora sua partida. Gênio, politizado, esquerdista, santo e até Deus, Diego Armando Maradona, que por vezes driblou a morte, saiu de cena nesta quarta-feira (25) após sofrer uma parada cardiorrespiratória em sua casa no departamento de Tigre, na região de Buenos Aires. Ele deixa uma legião de fãs que o consideram um artista da bola que deu alegria aos oprimidos com suas jogadas velozes e seus chutes endiabrados de canhota.


A morte do el diez foi confirmada pelo seu advogado após o jornal Clarín publicar a notícia no início da tarde de quarta. De acordo com o periódico, Maradona começou a passar mal por volta das 10 horas da manhã e faleceu às 12h. O campeão mundial de 1986 se recuperava de uma operação no cérebro feita no início deste mês para corrigir um coágulo. Seu velório será na Casa Rosada, sede do governo argentino.


Segundo maior jogador de futebol de todos os tempos, o craque nasceu no dia 30 de outubro de 1960 e cresceu no bairro pobre de Villa Fiorito, no subúrbio de Buenos Aires. A carreira do El Pibe de Oro começou a despontar em 1976, época em que ele foi contratado pelo Argentinos Juniors, equipe fundada por anarquistas no início do século 20.


Aos 16 anos, Maradona vestiu a camisa da seleção argentina pela primeira vez para disputar uma partida contra a Hungria, em 27 de fevereiro de 1977, na Bombonera. No entanto, o jovem jogador não foi inscrito para a Copa de 1978, pois acabou vetado por César Luis Menotti. No ano seguinte, o meia comandou a Argentina na conquista do Mundial sub-20, no Japão, e foi eleito o melhor jogador do torneio. Pouco tempo depois, em 2 de junho, ele anotou o primeiro gol com a camisa azul e branca.


Com seu estilo de jogo centrado na velocidade, dribles e chutes potentes de perna esquerda, o camisa 10 acertou sua transferência para o Boca Junior, clube do qual era torcedor e onde se tornou símbolo. E lá não tinha pra ninguém: Maradona foi diversas vezes artilheiro, conquistando o Metropolitano pelo Boca. Tamanho sucesso despertou o interesse do Barcelona e, a peso de ouro, o genial artista da bola rumou à Espanha.


Na Copa de 82, assim como todo time argentino, não correspondeu às expectativas: foi expulso no último jogo de sua seleção no Mundial. O resultado? Um derrota dolorida, de 3 a 1. Restava-lhe então o Barça, mas nada saiu como planejado na primeira temporada. Colecionou desavenças com o técnico Udo Lattek, que contribuíram para a demissão do comandante do clube espanhol. Sem Lattek em seu cangote, brilhou no ano seguinte, ganhando a Copa do Rei contra o Real Madrid, bem como abocanhou a Copa da Liga da Espanha, com direito a um golaço em pleno Santiago Bernabéu.


Aplaudiram-lhe em pé. Maradona se mostrou um visitante ousado e foi ovacionado na casa do rival – feito que só Ronaldinho Gaúcho conseguiu, e em 2005.


Narração de Jose Maria Muñoz dos gols de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 86



Mas é na Copa de 86 que ele subiu um degrau na lista dos gênios da história do futebol. O hermano, responsável nos gramados mexicanos por feitos que deixariam Shakespeare entorpecido, capitaneou a conquista da Copa, driblando meio time dos ingleses na segunda rodada da fase de grupo do Mundial. Maradona devolveu, com juros e correções monetárias, o ímpeto colonizador da política da dama de ferro, Margareth Thatcher, que descambou na Guerra das Malvinas, no início dos anos 80.


Quem mandou impor o neoliberalismo por meio de armas, hum?


Toma la mano de dios, dear Thatcher...


Em Nápoles, onde lhe alçaram à condição de rei entre 1984 e 1991, passou por maus bocados: internou-se para lutar contra as drogas e travou uma luta solitária contra os manda-chuvas do futebol. Maradona se tornou uma estrela pela sua habilidade gigante em fazer jogadas lindas e alfinetar os poderosos, mas nem isso impediu que ele pagasse um preço alto por ser tão indignado com os poderosos. “A máquina do poder o tinha jurado”, escreveu o jornalista Eduardo Galeano, em “O Futebol ao Sol e à Sombra”.


E jurou. Antes disso, contudo, Maradona deu confiança ao napolitano, inserindo-o na ponta do campeonato italiano e passando a ser temido por times tradicionais, como Juventus, Milan e Inter de Milão - equipes do norte rico. Havia uma relação de intenso afeto entre o ídolo e a população, ao ponto dele se relacionar com integrantes da Camorra, a máfia da cidade que o tirou do Barcelona e lhe proporcionou um alto salário. Maradona gostava de afrontar.


Indignado com os horários estabelecidos pela Fifa na Copa de 94, o craque deu entrevistas que desagradaram os engravatados do soccer, e mais uma vez se viu confrontado e sua imagem arranhada: caiu no antidoping. O exame confirmou presença de cinco substâncias proibidas pela transnacional do futebol. Foi cortado da delegação argentina e a seleção, desclassificada. De novo Maradona era achincalhado por estátuas ambulantes providas de falsa moral.


Com Maradona, desaparece a doce loucura do futebol fanático, do grito na arquibancada, da jogada que entorta os zagueiros... com Maradona sai de cena o futebol romântico, mas Maradona é Deus – e Deus veste a dez.


Se Pelé deixava as arquibancadas estupefatas com seus efeitos especiais à la Steven Spielberg, Maradona e Garrincha provocavam gargalhadas nos torcedores pelo improvável que tiravam da cartola como se fossem Charles Chaplin rindo dos tirânicos.


É uma trapaça do destino a morte precoce, aos 60, do El Pibe. Ironia do destino ou não, o don Diego sai de cena no mesmo dia que seu amigo Fidel Castro, que morreu há quatro anos. O mais humano dos deuses vai viver para toda a eternidade.

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