• Marcus Vinícius Beck

Gritos e sussuros

Cinema

Considerado uma das mentes mais inventivas, Ingmar Bergman tem suas principais obras exibidas no Festival 125 anos de Cinema, disponível para o público no streaming do Telecine


Ingmar Bergman retratou as agruras da natureza humana em seus filmes - Foto: Reprodução



E não é que teremos a oportunidade de ter contato com a obra de Ingmar Bergman?


Ok, desde que os streamings transformaram o consumo de cinema não é tão difícil assim encontrar filmes do celebrado cineasta sueco por aí. O que eu quero quiser é que os dramas sobre os tumultos da existência, os conflitos das relações amorosas, o receio da morte, além das batalhas interiores de cada um, características da filmografia bergmaniana, estão disponíveis ao público na Mostra 125 Anos de Cinema.


Bergman, de fato, é brilhante: desde o drama “Sonata de Outono" (1978), passando por “Face a Face” (1976), sem se esquecer de “Cenas de um Casamento” (1973) e “O Sétimo Selo” (1956). Ou a atriz em crise de “Quando Duas Mulheres Pecam” (1966).


O legal é que a Mostra do Telecine oferece praticamente um roteiro ao espectador menos versado na obra do sueco. Para ingressar no universo que tão bem captou as agruras da natureza humana, “Grito e Sussurros", trama que se passa no século 19 com as irmãs Karin, Maria e Agnes: elas vivem numa grande casa de campo na Suécia com a morte rondando o filme inteiro, pois vemos Agnes passar seus momentos finais.


Ela está com câncer. Além disso, as três têm dificuldades em manter uma relação amistosa, por causa de acontecimentos do passado que vêm à tona. O filme foi indicado a quatro estatuetas do Oscar e levou a de Melhor Fotografia, assinada por Sven Nykvist, que se tornou conhecido pelas cores saturadas, sobretudo o vermelho.


Na sequência, o já citado “Quando Duas Mulheres Brigam”. Assistimos ao drama de Elisabeth, atriz que sofre de mudez, mas seu talento se dá numa ilha isolada. Ela vive sob cuidados da enfermeira Alma, e com o passar do tempo a cuidadora passa a confidenciar cada vez mais seus segredos à companheira. À medida que o tempo vai passando, a enfermeira vê que sua personalidade se confunde com a da atriz.


A verdade é que, ao tentarmos desatar os nós da teia filmíca bergminiana, veremos um enfrentamento à moral religiosa, à propagação autoritária, à repressão ao sexo, aos limites da linguagem. Sim, são poucas as questões pertinentes ao século 20 (que acelerou a crise da civilização ocidental e provocou duas guerras mundiais) que passam despercebidas pelas lentes revolucionárias do diretor.


Bergman, é importante lembrar, nasceu numa família na qual se levava a sério a religião. Filho de um pastor luterano, ele e os irmãos receberam uma educação conservadora. “A maior parte da nossa educação”, ele escreveu em sua autobiografia “Lanterna Mágica”, “era baseada em conceitos como pecado, confissão, castigo, perdão e misericórdia, fatores concretos nas relações entre pais e filhos e com Deus.”



Foi na infância, lá pelos seis anos, assim que assistiu ao filme mudo “Black Beauty'', do inglês David Smith, que o gosto de Bergman por cinema começou a ser moldado. A experiência se tornou algo tão intensa na vida do menino que ficara gravada na memória dele. Comumente contava em entrevistas que chegou a ficar doente e fraco por causa do filme: sua dieta alimentar foi biscoitos e iogurtes até o final da vida.


Antes de virar cineasta, o sueco montou mais de cem peças, sendo alguns clássicos da arte dramática, como textos de Molière e Tchekhov. Nas palavras do crítico de cinema Peter Szondi, os “monólogos travestidos de réplica" encontram na filmografia bergmaniana “resignadas autoanálises”. “Morangos Silvestres" é um exemplo disso.


Nesse sentido, o catálogo do Telecine mostra as preocupações humanas do diretor. Com 40 anos completados em 1957, quando “Morangos” foi lançado, o cineasta criou um dos filmes definitivos sobre memória – talvez fique lado a lado com “Oito e Meio”, o mais junguiano de Federico Fellini. Bergman, na ocasião, estava arrasado: havia se divorciado pela terceira vez, vivia com uma saúde fragilizada, a família estava em segundo plano por conta de sua intensa rotina de trabalho…


“Eu criara um personagem que se assemelhava ao meu pai, mas que no fundo era eu, inteiramente”, disse, em sua autobiografia. “Eu, com 37 anos, privado de relações humanas, com necessidade de me impor, introvertido, e não apenas relativamente, mas sim bastante fracassado”, escreveu. É um divisor de águas no cinema mundial, enfim.


Em “Fanny & Alexander" (1982), o cineasta retorna a sua infância. Sim, trata-se do longa mais autobiográfico de Bergman e é considerado o seu melhor filme. A obra, que tem 188 minutos de duração, estreou nos cinemas numa versão reduzida, mais apropriada para atender aos anseios da indústria e das salas. Inspirado nos romances de Charles Dickens, o diretor conta a história de uma família burguesa da Suécia a partir do ponto de vista de duas crianças.


Tem um detalhe: essa obra-prima foi criada quando o cineasta enfrentava um exílio forçado na Alemanha após ter sido acusado de sonegação fiscal. Ainda assim, é uma primazia: o fardo da religião, a hierarquia familiar, a cumplicidade entre os irmãos e a descoberta da fantasia por meio da arte sintetizam não só a própria obra de Ingmar Bergman, e sim sua vida: isso é lindo.


Reviver Bergman nunca é mais.


Mostra 125 anos de Cinema

Onde: Telecine e Telecine Play

Para assinar o streaming: R$ 40


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