• Lucas Wagner Nunes

Guerrilha Pop

Resenha

O esperado filme de Wagner Moura, "Marighella", se propõe revolucionário só até segunda página

A ficcionalização dos últimos anos de vida do guerrilheiro revolucionário comunista Carlos Marighella, estreia de Wagner Moura como diretor, é daquelas obras que ganha contornos mais complexos quando pensada dentro do seu tempo histórico e diante das circunstâncias que envolveram seu processo de produção e lançamento.


Com roteiro pelas mãos de Moura e Felipe Braga (do seriado “Sintonia"), baseado na biografia “Marighella - O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo”, escrita pelo jornalista Mário Magalhães, a produção enfrentou represálias da crescente onda reacionária que assolou o Brasil, sendo vítima de ataques de ódio, ameaças e fake news. Seu lançamento, previsto para 20/11/2019 (dia da Consciência Negra) foi censurado através do aparelho burocrático do Estado: a Ancine adiou o lançamento sob a alegação de que os produtores haviam perdido o prazo de entrega de documentação requisitada, o que foi insistentemente rebatido pelos realizadores do longa.


“Marighella”, o filme, se tornou então o primeiro caso emblemático de censura no audiovisual durante o governo Bolsonaro, cujo desprezo pela produção cultural brasileira é declamado com um orgulho bizarro. Atropelado também pela pandemia do Covid-19, o filme só chegou às salas de cinema dois anos depois, em 04 de novembro de 2021, aniversário de 52 anos do assassinato do guerrilheiro comunista.


Esse atraso garantiu ainda mais potência à proposta dos realizadores. O Brasil de 2021 se assemelha mais concretamente aos anos da ditadura do que em 2019, e o furor buscado por Moura e sua equipe ao reavivar a história do revolucionário tem contexto ainda mais propício para aquele que é seu objetivo principal: despertar nos corações brasileiros a faísca primordial capaz de reacender o fogo da revolta.


Quando pensado como uma espécie de retorno às salas de cinema depois de quase dois anos de pandemia, e apenas três meses após o incêndio criminoso da Cinemateca Brasileira, “Marighella” deixa de ser apenas um filme e se torna um fenômeno. É emocionante ver salas de cinema ao redor do país sendo lotadas para exibir um filme brasileiro de quase três horas sobre um guerrilheiro que teve peito pra gritar um estrondoso “basta” sem concessões.



E é pensando em amplo alcance de público que a representação do personagem principal inscrita nas escolhas criativas é sistematizada. Para criar um retrato de Carlos Marighella, Moura e sua equipe não optam pela via do documentário informativo de cunho jornalístico (como o livro de Magalhães), mas sim pela ficção a partir de um gênero cinematográfico bem estabelecido: o filme de ação policial. Ao cinema e à arte de forma geral pode ser por demais inocente relegar a função de efetivar transformações sociais e políticas. Seu papel é mais o de calibrar sensibilidades, rearranjar afetos que inclinem o peito de quem assiste para determinados espaços e gestos. Os filmes agem em nós menos pelo intelecto e mais pelo afeto, e é aí que reside sua força.


Nesse sentido, contar uma cinebiografia do guerrilheiro como um thriller policial de ação, bem aos moldes estabelecidos por Hollywood, se alinha perfeitamente com o que disse Moura em entrevistas. Seu desejo era “criar um filme popular que muita gente pudesse ver e que devolvesse ao imaginário brasileiro essa figura de resistência à ditadura”. Se o seu objetivo é trazer não exatamente quem foi Marighella e sim um pouco de sua potência e ímpeto num cenário assustadoramente parecido com o nosso, o uso dos códigos clássicos de um gênero bastante conhecido é uma via das mais potentes para nossas emoções. É como se infiltrar nos mecanismos do sistema, como um vírus, para revertê-lo à uma inclinação revolucionária. É corroer o sistema por dentro.


Bom… pelo menos essa é a teoria. Uma política de concessões aparentemente racional e inocente.


Só que Carlos Marighella não era um homem de concessões. Muito pelo contrário. Sua recusa a pactos conciliatórios o fez compreender a via da luta armada como único e exclusivo suporte para uma verdadeira resistência ao fascismo. Retratar uma figura de tanto peso dentro das fórmulas do mesmo sistema colonizador que ele visava destruir cria naturais problemas de representação. E não é como se o longa fosse potente o suficiente para reverter o sistema sobre si mesmo. O que acontece, na verdade, é a incorporação de si pelo sistema, o que inevitavelmente dilui o potencial subversivo representado pelo personagem.


Pois aqui Carlos Marighella precisa ser um personagem cativante para um público amplo. Moura fala sobre a reivindicação de uma humanidade que foi negada historicamente ao personagem ao ser descrito como terrorista e não como guerrilheiro revolucionário. Aqui, Marighella é pai, marido, amigo, líder, numa intenção admirável do roteiro em transformá-lo em figura tridimensional, ao passo em que o vilão Lúcio (representando o delegado torturador Sérgio Paranhos Fleury) se torna apenas uma ilustração histriônica de “Mal”.


Reparação histórica, poderíamos dizer, e tem algo disso mesmo. Mas criar um personagem humano significa ir além dos seus laços afetivos. É necessário escavar as contradições e os momentos de vulnerabilidade que atravessam esse homem. E se o filme tem algum êxito nesse sentido, é exclusivamente fruto do trabalho de Seu Jorge, cuja composição se fia na fisicalidade dominante, densa, de um homem sempre alerta e de rosto duro, mas com olhos permanentemente marejados. Fora isso, todos os pontos que visam “humanizá-lo” soam menos como um personagem real e mais como um esquema de roteiro que tenta humanizá-lo.


Clara Charf tem história apagada no filme "Marighella". Foto: Divulgação


E aqui está o grande problema do filme. Tudo funciona como esquema, como acessório para alcançar algum objetivo, sendo a proposta máxima a de transformar o personagem em uma pessoa com a qual podemos nos identificar. Só que as relações afetivas traçadas entre ele, seu filho, sua companheira (Clara Charf) ou seus colegas de luta obedecem à única função de dizer que esse personagem é humano, que também ama, que tem algo a perder, que tem medo. Só que na prática se torna um recurso óbvio, falso, já que falta qualquer tipo de tentativa de transformar Clara, seu filho ou seus companheiros em personagens minimamente tridimensionais a não ser pelas vias de clichês já desgastados (a última cena envolvendo o personagem de Humberto Carrão me vem à mente). São cascas de pessoas que servem a um roteiro, e não convencem como seres humanos reais.


Essa estratégia de humanizar pelos laços afetivos/familiares lembra muito o que fez o cineasta norte-americano Michael Mann em sua obra. Aliás, essa parece ser a verdadeira influência não declarada tanto do roteiro quanto da direção, que aposta em lugares comuns da obra do gringo - inclusive, a cena do confronto dentro de um cinema lembra muito o desfecho de “Inimigos Públicos” (2009), um dos últimos filmes de Mann. A comparação é compreensível, já que ele basicamente consolidou um cinema de ação urbano em escala épica e ao mesmo tempo intimista, devolvendo um status menos “vulgar” ao gênero policial. Afinal, é dele o clássico e poderoso “Fogo Contra Fogo” (1995).


A narrativa de “Marighella” se desdobra com uma estrutura idêntica às dos filmes de Mann, além de uma decupagem parecida (vide os diversos planos over-the-soulder que caminham com os personagens). Mas falta aqui a atenção cuidadosa com os afetos de personagens coadjuvantes ou a força poética inscrita na composição dos planos que fazia dos filmes do cineasta norte-americano obras de intensa emocionalidade.


Que fique claro: não há problema em reivindicar a influência de um cinema “dominante” com fins de transmissão de um ímpeto político decolonial. Não são poucos os exemplos recentes que fizeram isso com perfeição: Jordan Peele (“Corra!”, “Nós”), Gabriela Amaral Almeida (“O Animal Cordial”, “A Sombra do Pai”), Nia DaCosta (“A Lenda de Candyman”), Gabriel Martins e Maurílio Martins (“No Coração do Mundo”) ou mesmo Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (“Bacurau”). A diferença patente entre esses exemplos e “Marighella” é o óbvio deleite que todos eles trazem pelo fazer cinematográfico enquanto arte da fabulação e que Wagner Moura não parece, ou não consegue, compartilhar.


Não há nada aqui como os longos planos-retrato em câmera lenta da abertura de “No Coração do Mundo”, a gloriosa cabeça explodindo no ponto de virada de “Bacurau” ou muito menos o gozo escópico inscrito nos gestos apaixonados de “O Animal Cordial”. Ali se revela, acima de tudo, um prazer fundamental em “ser cinema” que se justifica por si mesmo. Em “Marighella”, por outro lado, é como se tudo fosse revestido de uma importância missionária que decompõe cada escolha de roteiro a uma função dentro do esquema do filme. Essa função pode ser narrativa ou pode ser política, mas raras vezes é ética.


Pois pode ser louvável a escalação de elenco que enegrece Marighella ao contratar um homem de pele mais escura que o personagem real para interpretá-lo, ou colocar o homem branco de olhos azuis para incorporar o “Mal” colonizador e fascista, mas falta ao filme um senso de reparação histórica igualmente consciente no que tange a representação das figuras militantes femininas. Às mulheres em “Marighella” é relegado o papel de satélites dos homens, principalmente do personagem título.


A começar por Clara Charf. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), advogou ativamente pelo espaço da mulher dentro do movimento de esquerda, foi uma das fundadoras da Liga Feminina do Estado da Guanabara, além de participante da delegação brasileira do Congresso Mundial das Mulheres na URSS. Mas no filme ela é apenas a “companheira de Marighella”, no corpo de uma Adriana Esteves lacrimosa. Sua função na trama é apenas ser par romântico do protagonista, sublinhando os perigos e aquilo que ele tem a perder. Nada da história real de Charf é citado, quem dirá trabalhado no roteiro.


Tampouco a situação melhora para a outra personagem feminina de destaque, Bella (interpretada por Bella Carneiro), que parece dividir características com a militante Maria Augusta Thomaz. Bella tem mais força e tempo de tela do que a personagem Clara, integrando o núcleo das cenas de ação. Um espaço mais glamouroso mas com a função parecida de elevar a figura dos militantes masculinos, principalmente Marighella, que surge como um gigante condescendente sempre que está perto da garota. De resto, ela é pintada apenas de forma superficial como uma mulher pequeno-burguesa rebelde, inexperiente em comparação com seus colegas de luta masculinos.


Não se pode esperar muito de um filme que se diz revolucionário mas que não tem a coragem de reiterar que Marighella não era apenas antifascista, e sim anticapitalista e declaradamente comunista. Sua luta não era pela democracia, mas pela destruição do sistema. Esse vão na identidade política do protagonista é mais uma concessão do roteiro para amansar a figura de Marighella para um público "Fora Bolsonaro" que ainda enxerga o comunismo sob a mesma indumentária falaciosa e simplista que reveste o discurso político de boa parte da esquerda e principalmente da direita. Se a humanização de Marighella é buscada com tamanho afinco, ela deveria passar menos pelo clichê de desenhá-lo no contorno de suas relações familiares e mais em cima do pulso ideológico que ardia em seu peito e movia suas ações.


Se tivesse se submetido a uma auto-análise mais severa, “Marighella” talvez se levasse menos a sério e perderia um pouco da arrogância em se achar imbuído de uma missão tão importante enquanto obra política. Quem sabe assim o filme funcionaria mais organicamente, não sendo tão necessário blocar todo o roteiro de forma tão esquemátiva? Mas, da maneira como foi estruturado, o filme chama atenção apenas para o quão raso ele verdadeiramente é. Essa superficialidade auto-indulgente incomoda e chega a níveis esdrúxulos com os guerrilheiros cantando o hino nacional tomados por fúria patriótica. Isso num filme sobre Carlos Marighella... sem comentários.


Wagner Moura e atores na estreia do filme em Berlin. Foto: Tobias Schwarz/ AFP/Reprodução


É assim que cai por terra toda a estratégia narrativa usada pelo filme. Como dito, Carlos Marighella não era um homem de concessões. Já “Marighella” se pauta numa concessão fundamental que só reitera a falsa dicotomia entre “cinema de arte” e “cinema de entretenimento”. Um desfavor em um filme que surge anacrônico por excelência sem reconhecer isso, um tipo de produção do gênero ação que nem se parece mais com o que é o “cinema popular” produzido atualmente. Pelo contrário: parece muito mais com um cinema hollywoodiano policial dos anos 90 e na década de 10, representado com força por Michael Mann.


Fica então algumas perguntas: era realmente necessário assumir os vícios e códigos de um cinema hegemônico marcadamente hollywoodiano para contar essa história? Não haviam formas de fazer esse filme que respeitassem mais o espectador enquanto agente ativo na interação com o que assiste? Será que o longa implode o sistema de dentro ou apenas domestica a figura de Marighella? Wagner Moura enche o peito para falar sobre como é ser um grito de revolta do cinema brasileiro, mas não parece capaz de ver que seu filme está mais para o seriado “Narcos” do que para uma produção auteticamente revolucionária.


Apesar de tudo isso, como apenas um filme de ação, "Marighella" é um produto razoável. Muito disso se dá pela montagem de Lucas Gonzaga, que consegue criar a impressão do perigo constante que ronda os personagens, uma tensão que jamais se amansa mesmo num filme tão longo. Há que se ressaltar também a fotografia de Adrian Teijido que, mesmo sem apresentar nada de novo (a mesma câmera inquieta, a mesma dessaturação de um universo triste) ao menos imprime na imagem o peso e a seriedade do país imerso em trevas que Moura busca retratar.


Mas será “Marighella” um filme capaz de reacender a chama revolucionária nos corações brasileiros, levando-nos a pegar em armas contra o governo fascista e genocida de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão? É óbvio que não. Pode ser admirável que “Marighella” assuma um posicionamento político firme, e precisamos mesmo de mais cineastas capazes de peitar o desafio que é dizer claramente o que se pensa sobre o estado de coisas do nosso país. Mas enquanto discussão sobre revolução, militância e luta armada, esse filme tem a mesma força de um produto Netflix.

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