• Victor Hidalgo

Hans Staden na pandemia


Ilustração mostrando Hans Staden (de barba, ao fundo) observando os índios tupinambás praticando antropofagia, em uma aldeia situada entre Bertioga e Rio de Janeiro.


Victor Hidalgo


Imagino como as pessoas no passado conseguiam manter um diário durante grandes eventos históricos da humanidade. Um desses diários famosos no Brasil é o do mercenário e aventureiro alemão: Hans Staden, que acabou sendo fundamental em nossa cultura por conta de seu relato do ritual antropofágico do povo tupinambá, qual foi prisioneiro, pensarem que ele era um português e esse povo naquela época não era muito bem quisto pelos nativos. Por sorte, ele conseguiu fugir de virar o churrasquinho da vez e escreveu o livro Duas viagens ao Brasil, o título original é tão longo que daria um parágrafo somente para ele.


Voltando para o século XXl, 09 de abril de 2020, mal temos povos nativos restantes no Brasil e os que restam estão sendo ameaçados por uma rainha louca e sua prole somada a uma pandemia. Lembrando que doenças como essa já dizimaram populações inteiras na América Latina, cortesia dos meus antepassados espanhóis. Mas curiosamente, vejo eu da minha cadeira de jornalista, vários Hans Stadens surgindo no meio do caos! Afinal, estamos testemunhando rituais antropofágicos qual se come o pobre para alimentar o rico, vocês não acham isso muito Justus? Que sacrifiquem-los no topo da pirâmide e que joguem suas cabeças escada a baixo para que saciem a sede de sangue do deus economia!


O brasileiro é um povo conservador no final das contas, ligados a tradições antigas! O que é matar alguns velhinhos em prol do bem maior? Já ouvi esse papo do bem maior em outros lugares pensando bem, mas acho que é coisa da minha cabeça! Não é como se tivesse gente pedindo campos de concentração para os infectados com o corona, não é mesmo? E que coroa! Não queria estar sentado no trono do rei que vai ter que usá-la, me parece de mal gosto.


Mas em tempos canibais, permaneço escapando aqui na minha cabana de pedra. Por sorte, não tenho que me preocupar com essas coisas, conseguiu fugir dessa aldeia muito cedo para escrever o meu diário, e tem muitos outros fazendo o mesmo. Lembra do cara lá? O Alemão que fugiu dos canibais? O livro dele acabou influenciando o movimento antropofágico no Brasil, que influenciou grandes nomes como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade e suas obras. Espero que esse momento sirva para que no futuro um desses diários cause uma grande transformação, só ninguém comer ninguém até lá.