• Marcus Vinícius Beck

Horrores stalinistas


Cinema

Jornada do herói em busca de desmentir propaganda da URSS guia filme dirigido por premiada cineasta polonesa


Ator James Norton vive jornalista em filme de Agnieszka Holland - Foto: Samuel Goldwyn/ Divulgação



Ele estava com 27 anos, havia conseguido entrevistar o nazista Adolf Hitler e agora queria ficar cara a cara com o chefe da URSS, Joseph Stalin. “Mr. Jones” – traduzido para a versão brasileira como “A Sombra de Stalin” – retrata a história do jornalista galês Gareth Jones, um aluno que se destacou no curso de russo na Universidade de Cambridge e amava jornalismo ao mesmo tempo em que assessorava o ex-premiê britânico David Lloyd George, no começo da década de 1930.


Corta... Há um campo de trigo vasto bem no início do filme que “balança lindamente sob o sol”. A diretora polonesa Agnieszka Holland se limita a imagem, mas depois muda para um homem fumando e dedilhando à máquina de escrever numa casa próxima dali. Ele não é identificado, porém provavelmente você vai descobrir de quem se trata assim que ouvir a palavra “animal farm”. Sim, é o jornalista George Orwell, personalidade crítica ao totalitarismo.


O autor de “A Revolução dos Bichos” se inspirou para criar sua fábula anti-stalinista na reportagem-denúncia publicada por Jones na imprensa inglesa. Claro, foi bombástico e revelou ao mundo a verdadeira face do regime instaurado por Stalin após a morte de Lênin, em 1924, e como ele usava o realismo socialista e a máquina propaganda do estado para moldar a imagem que a URSS era um país livre, uma sociedade igualitária e um paraíso na Terra.


Jones é o herói deste filme furiosamente sombrio cujo suspense é bem construído, e que reconta a viagem do repórter à Ucrânia em 1933, então mergulhada numa catástrofe humanitária que gerara uma crise alimentícia responsável pela morte de milhares de pessoas. Claro, tudo com a conivência de Stalin e o silêncio consentido do detentor do prêmio Pulitzer (láurea mais importante do universo jornalístico e literário) e correspondente do jornal The New York Times em Moscou, Walter Duranty - um sujeito preocupado com regalias e amante da boa vida.


Thriller político sobre uma figura esquecida na história do jornalismo que concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2019, “Mr. Jones” abre no início dos anos 1930 com o protagonista relatando como foi sua viagem à Alemanha e chamando atenção aos perigos do nazismo. Vemos uma cena de pessoas zombando de Hitler e Goebbels, como se os mecanismos da democracia fossem moldá-los às regras do jogo à medida que chegassem ao poder. Minutos depois, Jones fala ao telefone em russo e, em seguida, descobre que o amigo com quem falava fora morto.


É um caos o que o galês se depara ao conhecer os repórteres estrangeiros baseados na Rússia, que ficam restritos apenas a Moscou. O mais misterioso da turma é Duranty, interpretado com frieza pelo ator Peter Sarsgaard. Em crítica publicada no New York Times, a jornalista Manohla Dargis alimenta a suspeita que fora o correspondente do jornal americano o idealizador do termo stalinismo. Se sim ou não, James Norton faz o mocinho com segurança (até torcemos pela sua missão) e a superficial Alda Brooks fica por conta da bela e talentosa Vanessa Kirby, conhecida pela sua atuação em “The Crow”, série com a qual fora indicada ao último Globo de Ouro.


Vale dizer, contudo, que a diretora poderia investir mais nessa personagem: em tempos de Me Too nunca é demais ter personagens mulheres no centro da trama. Não me parece ser exatamente legal um bando de bigodudos no centro da narrativa. É uma bola fora. Brooks soa muito imprescindível para o protagonista e sua jornada atrás dos horrores stalinistas.


Mas Holland consegue, com maestria, tencionar o filme sem precisar do subterfúgio dos diálogos. Como, por exemplo, assim que Jones parte para a Ucrânia: o clima leve dá lugar a uma fotografia soturna, pesada. Há um evidente toque de perigo nisso tudo, como no momento em que ele está no vagão do trem e os passageiros começam a lhe observar. A mentira stalinista de que a URSS seria o paraíso da classe trabalhadora é retratada numa inteligente e triste metonímia: o jornalista joga um pedaço de comida no chão e as pessoas ali lutam para pegá-la.


Não fosse a história uma ilha de edição sujeita a cortes para atender arroubos autoritário, talvez o testemunho que "Mr. Jones" traz à tona sobre Holodomor passasse despercebido aos olhos do público. No entanto, a fome a qual o líder da URSS submeteu sua população é desses episódios pouco abordados pela historiografia hegemônica: afinal, há quem até hoje insista em glorificar o stalinismo e suas idiossincrasias tão triste quantos uma barriga roncando pela falta de alimento.


A serviço da jornada do herói, o longa evita entrar na cabeça do jornalista. O tempo inteiro Jones é o cara que vai salvar as milhares de mortos no stalinismo, e espectador enquanto isso pode ficar com a impressão que se sabe pouco sobre ele, suas agonias e desejos pessoais, elementos subjetivos que podem tornar a trama um pouco aquém da esperada.


Em tempo: Walter Duranty jamais teve seu Pulitzer revogado. Já Gareth Jones foi assassinado durante um assalto por uma pessoa que depois se descobriu ligada ao regime soviético, em 1935. Se Duranty escreveu nas páginas do The New York Times que Jones tinha interesses outros na denúncia da fome, o galês, num texto publicado no Financial Times em 1933, sentenciou: “A principal razão para a catástrofe na agricultura russa é a política de coletivização”.


Definitivamente, o stalinismo é um erro na História, essa mesma, com agá maiúsculo.


‘A Sombra de Stalin’

Direção: Agnieszka Holland

Gênero: Suspense

Duração: 2h12

Disponível em Now, Itunes, Apple TV, Google Play, Vivo Play, Sky Play, Looke e Microsoft Store


Trailer do filme 'A Sombra de Stalin'


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