• Rosângela Aguiar

JM Entrevista Ariel Ortega

Cine Ouro Preto

O Cinema tem promovido uma revolução em diferentes etnias dos povos originários que hoje contam sua própria história e sem interferências dos não indígenas

Cineastas Homenageados Kuaray Poty (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira) - Foto: Leo Lara/Universo Produção


Kuaray Poty, que em Guarani significa raio de sol. Este é o nome do cineasta homenageado na 17a Mostra de Cinema de Ouro Preto, que teve como eixo central das temáticas, o cinema produzido por diferentes etnias. Em português, Ariel Ortega, roteirista, diretor, cinegrafista.


Ele, como muitos outros indígenas, começaram a ter contato com o fazer cinema com o projeto Vídeo nas Aldeias, que tem como um dos idealizadores, o cineasta Vicent Carelli, hoje co-produtor em alguns projetos de Ariel Ortega. Entre uma e outra roda de conversa sobre o cinema indígena, ele deu uma pausa para conversar com o Jornal Metamorfose. Ariel Ortega é Guarani e sua aldeia fica em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, e como ele diz: na República Guarani no sul do país.


Jornal Metamorfose: Como é para você ser homenageado nessa mostra?


Ariel Ortega: Na verdade eu fico muito feliz em nome do coletivo. Trabalho com audiovisual desde 2007 e é muito incentivadora essa homenagem para a gente poder continuar com esse trabalho de cinema, de estar contando a nossa história através do audiovisual. Isso é muito importante. Significa muito para a gente.


JM: Mostrar a história do povo Guarani sob o olhar de uma pessoa da própria população é importante por que?


Ariel Ortega: Apesar do audiovisual, o cinema é uma ferramenta ocidental, a gente começou a incorporar na nossa cultura, porque ela já é parte. A câmera quando entra na aldeia se transforma em um ser Guarani e isso é muito importante.


E pela primeira vez a gente está tendo a oportunidade de contar a nossa história para a sociedade brasileira através do cinema, da nossa forma de fazer audiovisual e fotografia, contando a nossa história de novo, da nossa cosmovisão. Pelo nosso olhar, porque sempre os não indígenas que contavam a nossa história, nos livros, nos filmes, mas hoje em dia a gente mesmo pode contar nossa história. Eu posso gravar, entrevistar os mais velhos, eles falando da espiritualidade, do nosso passado, da nossa cosmovisão. E tudo isso a gente pode fazer. Não é mais um de fora que vai contar. É uma mensagem de dentro para fora.


Kuaray Poty (Ariel Ortega) - Foto: Leo Lara/Universo Produção


JM: Como o cinema chegou até você? Como você começou a fazer cinema?


Ariel Ortega: O cinema chegou na aldeia em 2007, de pegar a câmera e aprender todo o processo, quando a gente fez o documentário “Duas aldeias, uma caminhada”. Isso chegou através de uma oficina do Vídeo nas Aldeias, que já vinha trabalhando há muito tempo na formação dos jovens indígenas para mexer com a câmera e fotografia. A gente fez a primeira oficina do Vídeo nas Aldeias em 2006 e foi assim que tive o primeiro contato.


JM: E de lá pra cá não parou mais?


Ariel Ortega: Sim. Eu achava que era só uma oficina e que não ia pra frente, mas a gente se envolveu tanto, profundamente, e eu sabia do significado e o poder da imagem que eu fui fazendo. Eu sabia que um dia iria fazer e ainda quero fazer uma obra de arte no cinema. E não somente mostrar nossas lutas, que é muito importante, porque o audiovisual é uma ferramenta de luta dos povos tradicionais, mas também fazer a nossa arte. E achar o nosso estilo de fazer cinema.


JM: Era o que ia perguntar pra você. Existe um estilo Guarani de fazer cinema? Ou você acaba seguindo o que vê na mídia, que assiste no cinema ou que vê em festivais. Você já conseguiu achar um caminho, digamos assim, que seria o caminho do Ariel, do povo Guarani de fazer cinema?


Ariel: Eu acho que sim. Eu estou descobrindo. Cada povo, porque existem muitos povos, etnias que fazem cinema, mas eu acho que o Guarani tem seu próprio método de fazer audiovisual. Talvez seja uma marca de cada povo de fazer fotografia.


A gente quer achar a nossa proporção Guarani e fazer cinema para gente é diferente, porque o tempo dos não indígenas no cinema, o cinema ocidental tem seu próprio tempo, o plano é diferente, mais curto. E a gente viu que isso não funcionava e então sempre falamos, vamos fazer do nosso estilo. O que é nosso modo de vida, nosso tempo, a inspiração, quando filmar e não filmar. E isso a gente foi descobrindo durante todo esse processo, durante 15 anos que a gente vem fazendo cinema.


JM: E essa homenagem aqui pra você, é o reconhecimento desse trabalho, dessa busca de mostrar o olhar dos povos originários para os não indígenas, como eu por exemplo? Porque a gente lê uma coisa no livro de história, a gente vê as histórias no cinema e na maioria das vezes não é o olhar de vocês.


Ariel: Eu acho que o cinema não tem fronteira. Pela primeira vez a gente tem essa oportunidade que nossos antepassados não tiveram de sentados dialogando, uma cultura escutando a outra. Como eu e você aqui sentados. Você me escutando e eu escutando você.


Então hoje com o cinema, com a câmera, com essa ferramenta a gente tem a oportunidade de contarmos nossa história para as futuras gerações, para as crianças, de como a gente é, quais são as nossas crenças, nossos sonhos, nossa realidade, dificuldades, nossa luta… Eu acho isso uma revolução o cinema. E eu acho muito importante essa homenagem, esse festival aqui, é muito importante também para a sociedade brasileira, para as crianças que estão vindo, para que desde cedo conheça os povos originários, quantas etnias têm, o que eles sonham, como a gente vive. Isso eu acho muito importante, porque acho que no passado não tão distante não existia essa oportunidade.


M’byas Guaranis Kuaray (Ariel Ortega), foto de divulgação

JM: É.. só na base dos documentários né…


Ariel: Sim e feitos por não indígenas


JM: Quando você vê as pessoas filmando a história dos povos originários, contando a história dos povos originários de uma forma que não é a realidade. Como você se sente e como você vê isso?


Ariel: O não indígena quando vai lá na aldeia filmar, ele vai ter um olhar distante, e é natural isso. Mas fica longe, não se aproxima da nossa cultura. E quando a gente faz cinema a gente tem proximidade. Não usamos zoom e tripé. Os não indígenas vão querer sempre romantizar o indígena e isso vai gerar ainda mais preconceito por conta desse olhar estereotipado dos povos originários. A gente quer desconstruir isso com os nossos trabalhos, mostrar nossa realidade.


JM: E nessa luta de vocês, que você fala tanto em mostrar a luta dos povos originários, qual seria a principal ou as principais? E dentro do meu ponto de vista, e aí falo como não indígena, e do pouco que eu conheço, seria a preservação das áreas onde vocês vivem, da terra que é de vocês, povos originários, o desmatamento, extração de ouro, a invasão que existe nas terras indígenas, nas aldeias e que acaba matando muita gente…


Ariel: Primeiramente o Brasil tem muito o que aprender com os povos originários, tem que ser mostrado o valor de cada cultura, né. Generaliza muito as etnias. E quando falam, dizem que o índio é tudo igual.


JM: E não é …


Ariel: É muito diversa. Existem mais de 200 povos, 200 línguas, é muito diferente e o brasileiro ainda acha que índio é tudo igual. Nós, por exemplo, somos do sul…


JM: Você é gaúcho, né?


Ariel: Gaúcho não, sou Guarani. O estado Gaúcho se apropriou da terra dos Guaranis.


JM: Mas em que região do Rio Grande do Sul fica a sua aldeia?


Ariel: São Miguel das Missões. Ali foi uma grande missão jesuítica. Ali é a república Guarani. Então eu acho que é contar a nossa história de novo, através da educação que acho muito importante.


E a luta para mostrar como a gente existiu e qual é o nosso modo de existir e resistir muito hoje em dia. É básico que as pessoas tenham que aprender primeiramente para poder respeitar os povos tradicionais. E a sociedade ocidental tem muito o que aprender com os povos tradicionais. Mas só que hoje em dia querem mais é inviabilizar nossas lutas, não só pelos territórios. O Brasil é muito grande e as lutas têm suas diferenças também. Mas primeiramente a gente quer ser visto, porque nós somos invisibilizados.


JM: E o cinema proporciona ser visto né… E com esse governo atual está difícil pra caramba né?


Ariel: Difícil até para a cultura, porque cinema é cultura, fazer projeto, é muito difícil os editais. Primeiramente a gente não consegue fazer cinema.


JM: O povo acha que é fácil fazer cinema?


Ariel: Além de dinheiro para fazer o filme, tem a manutenção dos equipamentos, e estão sempre saindo novas câmeras. E para fazer um documentário é muita burocracia e ainda muito do sistema não indígena, essa coisa de prestar conta, de escrever projeto para ganhar dinheiro, que ainda é muito pouco para fazer um documentário, que é super complexo. Traduzir isso é muito difícil e complexo. Agora pelo menos quero ver se consigo fazer parcerias, porque a gente ficou muito tempo sem produzir nada.





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