• Júlia Aguiar

Lavagem de dinheiro

Política

Durante a crise econômica e sanitária mais drástica que já viveu o país, Jair Bolsonaro acha sensato gastar em torno de 32 milhões de reais em pizza e refrigerante

Em meio a crise aumento nos gastos da união revoltam usuários nas redes sociais. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil


Afinal, o que é lavagem de dinheiro? No dia 3 de março de 1998, a Lei nº. 9.613 torna crime a prática de ocultações ou “lavagem” de bens, segundo o artigo 1: “ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal”.


A prática criminosa é conhecida no Brasil, mas dificilmente as pessoas são punidas – especialmente quando existe foro privilegiado – e muitos processos são arquivados pelos tribunais. Uma rede complexa de movimentação financeira ocorre em casos tais como o do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), que foi encontrado em outubro de 2020 pela Polícia Federal escondendo 33 mil reais na cueca, durante busca e apreensão na casa de Chico.


O senador, “ex-aliado” do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), é investigado por operação que apura suposto esquema criminoso de desvio de dinheiro público destinado ao combate a pandemia de Covid-19 no estado de Roraima. O senador atuava como vice-líder de Jair na casa desde março de 2019, após a repercussão do dinheiro escondido, Rodrigues deixou o posto de liderança, tentando desatrelar sua imagem com o governo.


Com a aproximação da votação para as presidências da Câmara e do Senado, Bolsonaro aumenta a pressão sobre os parlamentares em busca de apoio a seus candidatos. Meio à troca de cargos nas casas, conhecida como política do “toma lá-dá-cá”, relatório realizado pela (M)Dados - núcleo de jornalismo de dados do jornal Metrópoles - com base no Painel de Compras atualizado pelo Ministério da Economia revelou gastos exuberantes e indignou usuários nas redes sociais.


Segundo a reportagem, foram gastos R$ 1,8 bilhão em alimentos para abastecer os órgãos executivos em 2020, um aumento de 20% em relação aos pagamentos de 2019. Valores gastos com os cofres públicos como R$ 2.203.681, 89 de reais somente com chiclete assustaram a população brasileira, principalmente após o fim do auxílio emergencial que atualmente deixa 13,7 milhões de brasileiros na pobreza extrema.


"Você não pode ficar gritando guerra toda hora. Temos que ter muito cuidado. Quer criar auxílio emergencial de novo? Tem que ter muito cuidado. Pensa bastante, se fizer isso, não pode ter aumento automático de verbas para educação, para a segurança pública, porque a prioridade passou a ser absoluta", afirmou o ministro da economia Paulo Guedes, em conferência virtual com instituições financeiras privadas.


Com cortes de gastos na educação, saúde, cultura e até mesmo turismo, o economista Paulo Guedes usa a desculpa de manter as contas públicas sobre o Teto de Gastos (PEC 241 aprovada no governo Temer). Porém, não parece haver problema com gastos surreais em produtos desnecessários meio a maior crise financeira que o Brasil já sofreu.


Os dados que estavam disponíveis online no Portal da Transparência, saíram do ar na noite da última terça-feira (26). O site se encontra com problemas nas buscas até a publicação desta reportagem.


De acordo com o levantamento feito pela (M)Dados, o governo federal gastou R$ 2,5 milhões em vinhos para o Ministério da Defesa; R$ 15 milhões em leite condensado; mais de R$ 5 milhões em uvas-passa e R$14 milhões em molhos shoyo, inglês e de pimenta; além de R$ 32,7 milhões em pizza e refrigerante.


Após o assunto viralizar no Twitter e provocar indignação de muitos brasileiros, na tarde de quarta-feira (27) o aspone que ocupa o palácio do planalto se reuniu com seus ministros, apoiadores e artistas em uma espécie de “festa privada” em uma churrascaria Nativas Grill, em Brasília. Na ocasião Jair afirmou que: “E quando eu vejo a imprensa me atacar, dizendo que eu comprei 2 milhões e meio de latas de lente condensado. Vai pra puta que pariu, porra! Essa imprensa de merda, é pra enfiar no rabo de vocês, de vocês da imprensa, essas latas de leite condensado aí”.


Oposição


Através de investigações independentes, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) descobriu que a empresa que recebeu a fortuna de 12 milhões de reais pelas latas de leite condensado fica em um subsolo de um pequeno prédio comercial, em bairro residencial no Sudoeste da capital brasileira. No Twitter a deputada retrucou: “Aparentemente, não é uma sede grande responsável por compras em milhões. Ao pesquisar as lojas do prédio, encontra-se pequenos empreendimentos de bolos, limpeza, barbearia, venda de artigos militares… qual desses movimenta mais de R$ 15 milhões num ano?”.


Já os deputados federais do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) protocolaram pedido nesta terça-feira (26), para que o procurador-geral da República, Augusto Aras, investigue as compras de alimentos e bebidas pelo governo Jair Bolsonaro em 2020.


Segundo o ofício protocolado pelos deputados David Miranda (RJ), Fernanda Melchionna (RS), Sâmia Bonfim (SP) e Viviane Reis (PA), “tal situação de caos e fome, aliada à atual crise sanitária decorrente da Covid-19, evidencia mais ainda o grau de desigualdade, o grau absurdo de pobreza e falta de condições da população trabalhadora de viver uma vida digna”.


Já o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e os deputados federais Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES) protocolaram representação junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) contra a Presidência da República para a investigação dos gatos com os alimentos.


O curioso é que no último dia 9 de dezembro, o TCU decidiu que não julgará mais denúncias que partiram da Lei de Acesso a Informação (LAI), lei que permite acesso aos documentos do estado por parte da imprensa e sociedade civil. Ou seja, “se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”.



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