• Marcus Vinícius Beck

Lawrence Ferlinghetti, o maldito poeta anarquista

Ensaio

Poeta marcou o século 20 com seu romancismo experimentalmente radical, Ferlinghetti desafiou os dogmas do draconiano e duvidoso sistema de justiça dos Estados Unidos para publicar obra clássica


Ferlinghetti em cena do documentário "Ferlinghetti", de Chris Felver - Foto: First Run Features/ Divulgação



Meu primeiro contato com a literatura libertária e excitante do poeta, editor e escritor Lawrence Ferlinghetti foi há dez anos. Lembro-me que fiquei bêbado por causa de sua prosa radicalmente experimental: era como um jazz de Miles Davis ou John Contrane soprando no auto-falante durante uma noite em que nos engalfinhávamos em peripécias eróticas. Sem demorar, “O Amor Nos Tempos de Fúria” passou a ser aquela leitura do tipo “está vendo, seu merda, é assim que se escreve”. Mas quem disse que um escritor não precisa de um chacoalho de vez em quando?


Não é exatamente novidade minha vontade em vencer na vida batucando no teclado madrugada adentro no momento em que o mundo dorme para dali a pouco ligar as engrenagens da mentira. Sou uma espécie de Henry Chinaski: bêbado, revoltado e com um tesão de amar e mudar as coisas. É verdade que nos acham alienígenas dementes solitários filhas da puta à beira de enlouquecer enquanto nossos amigos estão casando e constituindo o matrimônio burguês e juntando dinheiro e pagando o aluguel em dia... E a gente enche mais uma dose de conhaque para colocar as ideias no lugar. Não, não somos loucos: os loucos são eles.


Punk antes disso virar moda, Lawrence Ferlinghetti me ajudou provavelmente quatro ou cinco vezes a atravessar para o outro lado em meio à tempestade torrencial de ignorância e demência coletiva. Era reconfortante saber que eu não estava sozinho e que os mais fodas estavam comigo. Então o temor de ficar maluco e cortar minha orelha como Van Gogh cortou a dele de repente ia embora, e eu sentia que havia muitas verdades nessas palavras sensuais e inconformadas contra o capitalismo doentio do Tio Sam. Meu conselho: leia coisas que ninguém vai te falar.


O mais instigante é que, em Ferlinghetti, há uma recusa em se apresentar na primeira pessoa, quase uma negativa em se utilizar do “eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu” que, de acordo com ele próprio, marca a literatura produzida no século 20 e, logo, a cultura americana. Concordo com o mestre. Ernest Hemingway, por exemplo, era um fanfarrão cujos romances são escritos assim. Jack Kerouac levou o jazz para a literatura, mas se esqueceu de tirar dela o ‘eu’. Até Scott Fitzgerald em sua obra-prima, "O Grande Gabsty", tem um sujeito fodido que reclama da mesquinharia da burguesia endinheirada das proveniências da Primeira Guerra na... primeira pessoa! Henry Miller, bem, Miller foi o cara que denunciou a hora dos assassinos também fazendo uso do 'eu'.


Em “Little Boy”, romance autobiográfico lançado em 2018 ainda sem data prevista para ser publicado no Brasil, Ferlinghetti descreve os efeitos predatórios do famigerado capitalismo “democrático” do Tio Sam: “Yeah, por toda a América todo mundo correndo feito louco atrás da sua gratificação instantânea e por que não? O que mais existe para animar nossas vidas eu tenho de tomar o que é meu o que eu quero eu quero eu quero fazer um milhão da noite para o dia e ficar rico rapidinho e sair e ter amantes e quem liga para aquecimento global e foda-se tudo isso”.


É, foda-se isso tudo: temos aqui um lindo golpe desferido contra a falácia da terra das oportunidades. Ao ousar desafiar nos anos 1950 o duvidoso sistema de justiça americano publicando “Uivo”, de Allen Ginsberg, Ferlinghetti mostrou-se um sujeito compromissado em desnudar a poesia para o público. Tal afronta lhe engaiolou no xilindró. Mas a coisa ganhou tamanha proporção que o marcathismo, sem querer, criou uma discussão em torno das liberdades de expressão e artística: “Uivo”, enfim, pôde circular. O mesmo aconteceu com os até então proibidos “Trópico de Câncer, de Henry Miller, e "Almoço Nu", de William Burroughs.



Texto assinado por Lawrence Ferlinghetti publicado nas páginas do jornal San Francisco Chronicle - Foto: San Francisco Chonicle/ Reprodução



A relevância de “Uivo” para a poesia, e literatura produzida no século 20 de um modo geral, é difícil de mensurar. Existiria literatura beat sem Ferlinghetti? Provavelmente, sim. Mas que Kerouac, Ginsberg e companhia demorariam a se tornar conhecidos, demorariam. Hoje já sabemos que o manuscrito de Allen Ginsberg passou pelas mãos dos editores de grandes companhias dos Estados Unidos, mas logo eles se borraram de medo, abandonando a empreitada: o que Ferlinghetti, um pequeno editor de San Francisco, nem sequer cogitou. Esperto, associou-se à Liga pelas Liberdades Civis dos EUA e aguardou ser processado, como realmente aconteceu.


Sendo poeta, Lawrence Ferlinghetti sabia que riscos existem para serem corridos, dimensionava que às margens do status quo e establishment é que acontecia a verdadeira literatura, e onde estava a alma dos artistas. Para ele, os salões do (in) discreto charme da burguesia eram deprimentes. Isso fica evidente no documentário “Ferlinghetti”, dirigido por Christopher Felver. Nele, o poeta associado à Geração Beat, Gary Snyder, disse que o ativismo de Ferlinghetti era altamente fundamentado e inteligente. “Ele carregou isso em sua vida e em sua poesia de forma eficaz, mas levemente, por toda sua carreira até agora”, afirmou, no longa-metragem, de 2009.


Mas um dos que definiram melhor o trabalho de Ferlinghetti enquanto editor de livros obstinado em fazer as ideias circularem foi o poeta e ensaísta Michael McClure, um dos expoentes da Geração Beat que, curiosamente, chegou a compor com Janis Joplin e era amigo de Jim Morrison - o vocalista do The Doors gostava tanto dos poemas ferlinghettianos que não escrevia uma letra de música sem antes ler algum poema do mestre da literatura contracultural. “Lawrence inspirou provavelmente centenas de milhares de pessoas a ler. Leram sua poesia primeiro e depois passaram a ler mais poesia”, disse ao jornal San Francisco Chronicle, em 2003.


Até pouco tempo, pelo menos no Brasil que marcha aceleradamente rumo ao precipício, com uma gangue de dementes que ressuscita uma versão tropical e plagiada da paranoia do senador Joseph McCarth, o processo em torno de “Uivo” soaria quixotesco. Mas novos ares surgiram, e quem deveria ser extirpado da política agora ejacula absurdos ensandecidos: o modo diferente de ser, pensar e ver a vida, para abrir alas a uma aversão ao erótico e ao sensual, é alvo da fúria dessa gente. Então se impressionar por um poema sobre relações homossexuais ao ponto de censurá-lo, como a patrulha religiosa mal-resolvida no sexo fez na exposição de Queermuseu, é normal.


No tribunal, um dos juízes indaga um crítico literário se ele achava "Uivo" imoral: “Você diz que este livro não é pornográfico”, diz, emendando: “Então que tipo de livro você acredita que ele é?”.


Honesto, o sujeito devolveu: “o livro seria melhor descrito como um livro à maneira dos livros proféticos da bíblia, particularmente o de Oséias, com o qual se assemelha em muitas partes”.


É impossível não me lembrar de “O Erotismo”, de George Baitalle, e a máxima “do erotismo, é possível dizer que ele é a aprovação da vida até na morte”.


Foto 1: Ferlinghetti e Allen Ginsberg protestaram contra pessoas presas ilegalmente no Brasil, em 11 de agosto de 1971 - Foto: Sal Veder/ Associated Press/ Arquivo - Foto 2: Ferlinghetti na City Lights em 18 de marco de 1985 - Foto: Photo Courtesy/ Paris Review/ Arquivo



No entanto, o que quer dizer isso?


Francamente, me parece que é preciso desconfiar de uma moral incapaz de suportar “Flores do Mal” ou “Madame Bovary” e achar uma depravação mergulhar no lado obscuro da vida para retratar a bizarrice ianque. Sim, falo de Hunter S. Thompson e Tom Wolfe, porém poderia me referir a Joan Didion ou Charles Bukowski ou Pier Paolo Pasolini ou o próprio Baitalle e todos aqueles que ousaram menosprezar a delinquência política e assassina do Tio Sam.


Ferlinghetti, ao se aproximar dos beats, publicou nomes como Diane di Palma (poeta enjaulada por publicar em sua revista dois poemas eróticos, em 1962) e Gregory Corso, além do romancista Jack Kerouac, e a poesia dele passou a ser cada vez mais difundida entre o grupo. De fato, os versos ferlinghettianos viraram um grande sucesso, já que “Um Parque de Diversão na Cabeça”, de 1958, tornou-se um dos maiores estouros da indústria editorial americana em todos os tempos.


Em certo sentido, sua obra situa-se entre o erudito e o popular, e chama o leitor (com uma pitada de jazz) para passar um tempo andando de um lado para o outro sem se valer para isso de um ar presunçoso. É difícil ser fã de escritores medíocres te dizendo o que fazer ou não, o que é poesia ou não, dissertando sobre a alta e baixa literatura. Ler Ferlinghetti é como passar a tarde discutindo a queda do capital ao mesmo tempo em você flerta com a aquela colega de militância pela qual sempre arrastou um caminhão de cimento.


Tenho as lembranças mais distintas da poesia de Lawrence Ferlinghetti.


Ferlinghetti defendia a máxima que uma editora amiga constituída por amigos não era uma editora. “Você é um movimento de si mesmo”, escreveu a Allen Ginsberg. “Mas carrega esta pequena gangue de aduladores com você em uma espécie de porfólio de candidatos à revolução... Eu não estou nesse mundo para editar poetas que escrevem como Allen Ginsberg”. Não fazia parte das ambições do poeta, no momento em que o mundo pegava fogo na Guerra do Vietnã, publicar a mitologia beatnik: era preciso ser solidário às lutas e fazê-las nossas também.


E assim, fugindo do nilismo beat, Ferlinghetti virou uma pessoa cada vez mais engajada. Foi assim também que textos políticos, antifascistas e anticapitalistas, de Pier Paolo Pasolini e Ernesto Cardenal, bem como do soviético Ievguêni Ievtuchenko, começaram a ser lidos pelo público americano – e em plena Guerra Fria. Os textos indecentes de Charles Bukowski foram publicados pela City Lights numa época em que o autor de "Cartas na Rua" assinava uma coluna de crônicas num jornal ligado à contracultura na década de 1960. Na Europa, o poeta se aproximou de André Breton e os outros surrealistas, e suas obras chegaram pela primeira vez nos Estados Unidos.


Denominada com um título extraído daquela que é considerada a obra-prima de Charles Chpalin, a City Lights virou a primeira editora do País a ser especializada em livros de brochura. Seu catálogo era farto em autores desconhecidos, estudos sociológicos e antropológicos abertamente progressista. Meu sonho enquanto jornalista era entrevistar Ferlinghetti em seu templo literário, mas a História impediu que isso aconteça, e agora resta apenas seus livros.


Assim que voltou da Segunda Guerra Mundial e após ter trabalhado como jornalista na Redação da revista Time, Lawrence Ferlinghetti chegou a São Francisco no início dos anos 1950, alguns anos antes de os beats aparecerem por lá. Havia uma cena poética pulsante: nela circulavam nomes como Dylan Thomas, Kenneth Patchen e por aí vai. Uma das interpretações possíveis para a fervilhante Geração Beat ter despontado na cidade é justamente uma vivacidade que questionava a ordem das coisas.


Para ele, "a língua sobreviveu para contar a história". Herdeiro da tradição de Maiakowski, Eliot e Whitman, dedicou toda sua vida à poesia e era sensível aos horrores da Guerra do Vietnã: Ferlinghetti se preocupava com a destruição do capitalismo. O poeta está vivo. E vivo permanecerá para toda a eternidade.


Trailer do documentário 'Ferlinghetti', dirigido por Christopher Felver - Crédito: Reprodução

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