• Marcus Vinícius Beck e Júlia Aguiar

Manifestação pede justiça para a juventude negra

Niterói

Em protesto, movimento negro pede justiça por Danillo Félix, Carlos Henrique e Jefferson. Familiares apontam irregularidades na detenção dos jovens negros

Ato pela liberdade: justiça para a juventude negra. Foto: J.Lee Aguiar


Marcus Vinícius Beck e Júlia Aguiar


Trabalhador, morador de comunidade e preso com base em foto publicada nas redes sociais. Essa poderia ser a história do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, preso em 2013 após ser confundido pela Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro com um traficante de drogas. Ou do catador de recicláveis Rafael Braga, também detido pela PM fluminense por suposta participação nos protestos que ocorreram em junho do mesmo ano. No entanto, a vítimas de agora são Jefferson, Carlos Henrique e Danillo Félix, e seus familiares afirmam que houve violação dos direitos humanos nas prisões.


Na tarde de segunda-feira (28), militantes do movimento negro se concentraram em frente ao Fórum de Niterói, localizado no centro da cidade, para pedir por justiça pela detenção de Danillo Félix Vicente de Oliveira, Carlos Henrique e Jefferson, além de outros jovens negros que aguardam seus julgamentos em presídios espalhados pelo País.


Danillo, 24 anos, estava preso desde 6 de agosto, quando foi detido por policiais à paisana e levado para a 76ª Delegacia de Polícia em Niterói, onde foi acusado de participar de um roubo a mão armada. O jovem ficou dois meses detido no Presídio Tiago Teles, em São Gonçalo.


Na delegacia o jovem foi indicado como culpado através do reconhecimento da vítima por fotos de 2017 das redes sociais de Danillo, que na época tinha cabelo curto e bigode, características do assaltante, segundo a descrição da vítima. Porém, desde o ano passado, Félix tem cabelos longos, tranças e cavanhaque.


O ato contou com a participação da Orquestra da Grota. Acompanhada por violão e violino, as palavras de ordem pediam o fim da violência policial nas comunidades: “Eu só quero ser feliz e andar tranquilamente na favela em que nasci e poder me orgulhar da consciência que o pobre tem seu lugar”.


Na manifestação aconteceu a apresentação do Centro de Teatro do Oprimido (CTO), onde três atores negros seguravam um objeto que já foi “confundido” com arma em outros casos: uma furadeira, um guarda-chuva e uma bengala. “Meu corpo não é um retrato falado”, bradavam enquanto erguiam os objetos. O CTO é um projeto que estimula a participação ativa das camadas oprimidas da sociedade, buscando a transformação social por meio da arte.


A historiadora e mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Yordanna Lara Pereira Rego, afirma que o encarceramento em massa da população negra é intrinsicamente ligado ao passado escravagista da sociedade brasileira. “O conceito de raça tem origem nesse momento de invasão e fundação do Estado brasileiro e é agenciado para legitimar à hierarquização e à manutenção da hegemonia do branco europeu, povo colonizador do Brasil. O que significa que o racismo é a base de fundação do nosso Estado e como resultado, as instituições externam violentamente o racismo de forma cotidiana, e à sociedade o reproduz”, conta a historiadora em entrevista ao JM.

A precarização do acesso a população negra aos seus direitos básicos é uma governabilidade para manter a hierarquização racista que sustenta ainda hoje e perversamente nossa sociedade, explica Yordanna. Ela pontua que se antes, o lugar do negro era nas senzalas, agora é na cadeia, na lógica do Estado. “As mazelas dos casos dos jovens negros Danilo Felix e Jefferson, não são resultado do mal funcionamento do sistema prisional. Na verdade, é o resultado de um funcionamento ‘ótimo’. É o sistema funcionando em sua plenitude”, finaliza a mestranda.


Por volta de 18 horas, a audiência acaba e os manifestantes descobrem que Danillo Félix foi absolvido pela Juíza Juliana Bessa, da 1ª Vara Criminal de Niterói. A vítima do caso alegou na audiência que não reconhecia o jovem como autor do crime.


No próximo dia 15, o Fórum julgará o jovem Carlos Henrique, que também foi detido com base em fotos de redes sociais. “Ele está sendo acusado por um crime que não cometeu. Já a segunda vez que isso tá acontecendo com ele”, afirma a esposa do rapaz.


Manifestação pacífica reuniu o movimento negro em prol da liberdade de jovens encarcerados no centro de Niterói. Fotos: J.Lee