• Mônica Oliveira

Marcha da Maconha 2022: A primavera antifascista de São Paulo

Manifestação

Com o tema “Guerra é genocida, legalização é vida”, evento voltou para as ruas depois de dois anos de pandemia, pedindo o fim da guerra às drogas e visibilidade para o uso medicinal da cannabis

Marcha da Maconha em São Paulo contou com milhares de pessoas. Foto: Larissa Rodrigues


No último dia 11 de junho a Avenida Paulista se tornou verde: era a Marcha da Maconha que passava e fazia fumaça numa das principais avenidas do Brasil. O público era diverso: dos adolescentes até a população de terceira idade, o grito geral era o de “Legaliza!”.


O movimento contra à proibição das drogas existe desde que essa foi estabelecida. No Brasil, a luta antiproibicionista começa a se organizar na virada dos anos 70 para os 80, inspirada nos movimentos da chamada “nova esquerda”, na contracultura, no feminismo, no movimento negro e no movimento LGBTQIA+.


Em 1994 é organizada a Marijuana Million March nos EUA, Califórnia. Depois, vira a Marijuana Global March e essa começa a ser organizada em outras partes do mundo. “No Brasil, a primeira marcha da maconha, com esse nome e esse logo, acontece no Rio de Janeiro em 2007. Aqui em São Paulo começa a ser organizada no ano seguinte, em 2008, principalmente por pessoas que já militavam em outros movimentos, em especial o estudantil. Depois foi crescendo em tamanho e diversidade – principalmente a partir de 2011”, conta a organização do evento para o Jornal Metamorfose.


E como cresceu! A Marcha do último sábado reuniu uma multidão, com histórias das mais diversas, cada uma com um motivo para defender a legalização. Faixas coloridas enfeitavam a passeata e se destacavam pela criatividade. Mas uma em especial chamou a atenção da nossa equipe: “Padre Ticão presente”. Isso mesmo: a luta pela legalização da cannabis tem sua representatividade até mesmo na Igreja! Nós conversamos com Gabriele, uma das pessoas que seguravam a faixa, para nos explicar melhor essa história.


“O padre Ticão era um cara à frente do seu tempo. Ele trouxe à tona várias questões que eram polêmicas dentro da Igreja e a importância disso a gente só vai compreender com o tempo, quando tivermos a quebra dos paradigmas limitantes”.


Padre Ticão faleceu em janeiro de 2021. Ele liderava um movimento sobre o uso medicinal da erva (Movimento pela Regularização da Cannabis Medicinal), que agora é liderado por Gabriele. O movimento oferece cursos e informações sobre o uso medicinal da cannabis.


Marcha contou com várias crianças. Foto: Larissa Rodrigues


Legalizar para tratar


A pauta sobre Maconha e Saúde foi uma das que mais se destacou na Marcha. Eunice, avó da Estelinha, criança que estava presente no ato em sua cadeira de rodas e que se beneficia do efeito medicinal da cannabis, deu seu depoimento emocionado ao JM. Ela explica que hoje é uma militante da causa, mas que nem sempre foi assim.


Relata que já chegou a agredir a filha por ela fumar maconha, mas que hoje ela enxerga que se tratava de um preconceito. Ela apelida carinhosamente os usuários de “bompanheiros”:


“Depois que você conhece essa galera, vê que é gente do bem. Vê que a maconha não lesou o cérebro de ninguém, todas essas acusações que existem em torno do uso são preconceituosas, grandes mentiras que foram impostas”.


Eunice mora na Zona Leste de São Paulo e ressalta a importância da legalização para o acesso a quem tem baixa renda. “As mães que a gente conhece vivem de um salário mínimo, quem com essa renda consegue pagar pelo remédio hoje?”.


Certamente, toda a criminalização que ainda existe no Brasil com relação à cannabis prejudica o acesso e até mesmo o custeio da produção de remédios à base da planta.


Foto: Larissa Rodrigues

A organização Pangaia, produtora do óleo medicinal à base de cannabis, tocou nesse ponto em entrevista ao Jornal Metamorfose. Isabela, uma das figuras mais chamativas da marcha, pois estava vestida com a fantasia da planta, e sua colega Dani, relatam que a organização trabalha com crianças com autismo e pessoas com epilepsia. Elas explicam que a descriminalização irá facilitar o acesso para todas as pessoas que podem se beneficiar dos efeitos medicinais, já que o Brasil tem um grande potencial de produção e com a legalização os custos seriam menores. Elas acreditam que o que ainda entrava a questão no Brasil são argumentos de ordem moral, e não científicos.


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o canabidiol pode ajudar no controle da epilepsia e no tratamento para ansiedade, além de contribuir como medicamento anti-inflamatório, antiasmático e para propriedades antitumoriais. As informações completas você encontra na matéria Maconha pode ser usada para tratamentos sem causar dependência.


Embora os efeitos medicinais da cannabis sejam cientificamente comprovados, a liberação do uso da planta com esse fim passou e ainda passa por um árduo e demorado processo no Brasil.


O Projeto de Lei 399/2015, que regulariza o plantio da Cannabis Sativa para fins medicinais, passou com certa dificuldade em votação na Câmara dos Deputados, realizada em 08/06/2021: foram 17 votos contra e 17 votos favoráveis. A proposta foi aprovada através de um voto de desempate do relator Luciano Ducci (PSB – PR), de acordo com informações do site Agência Brasil. A legalização do plantio para uso medicinal permite que o Estado seja o responsável pela fiscalização do processo, o que faz com que o cultivo e comercialização da cannabis passe por controle de qualidade.


“Se Leonardo dá vinte, por quê eu não posso dar dois?”


Mas e quando o assunto é apertar o verde sem compromisso, sem prescrição médica? Bom, para esse fim, os usuários recreativos ainda não conseguiram muita coisa em termos legais, mas a marcha foi uma espécie de paraíso na Terra para os fãs dos efeitos da fumaça na mente.


Foto: Larissa Rodrigues


Afinal, não é todo dia que se pode fumar um baseado em plena avenida paulista sem se preocupar com a polícia. Essa, aliás, assistia à marcha de forma passiva, não houve confronto da polícia com os manifestantes durante todo o evento.


Por falar em polícia, a Marcha da Maconha é conhecida por ser um dos movimentos mais polêmicos que vão para a rua. Teresinha, uma das senhoras que fazem parte da organização da Marcha, deu o seu recado para o Jornal Metamorfose: “A Marcha é um ato de rebeldia, de desobediência civil, que mais luta contra a hipocrisia de um sistema que mata o povo preto e periférico. Eles não fazem guerra às drogas, e sim ao povo”.


Nesse sentido, a Marcha tem realizado eventos paralelos nas periferias de São Paulo, já que a população periférica é uma das que mais sofrem com a criminalização da maconha.


“A marcha da maconha SP se reconhece como um movimento antiproibicionista porque nossa luta é principalmente pelo fim da guerra às drogas, que é o pretexto ideal usado pelo estado para seguirem matando e encarcerando preto e pobre. E nós reivindicamos, por entender que a perifa é quem paga mais caro com essa guerra insana e sem nenhuma efetividade, que toda a informação que circula nas mídias sobre drogas e a periferia estão totalmente contaminadas, estigmatizadas, demonizadas e com muitos interesses corruptos por trás. Nossa luta é por dignidade, equidade, igualdade, e que a revolução venha a partir de quem de fato merece essa "reparação" de tantos erros que foram escondidos. Então, é importante que a quebrada esteja engajada, bem informada e atuante nesse movimento de derrubada da Babilônia”, relata a organização do evento ao JM.


Evidentemente, a guerra às drogas no Brasil é uma das principais causas do encarceramento em massa no país. O mais revoltante é a análise dos dados dessa perseguição: de acordo com pesquisa feita em 2018 pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, a maioria das pessoas que são presas por tráfico não possuem antecedentes criminais, estão desarmadas e portam pouca quantidade de droga. A discussão completa você acompanha na matéria A função social da legalização da maconha.


Ou seja, a luta contra as drogas é só mais um aspecto da luta contra o povo. Nesse sentido, o usuário de maconha é uma das figuras mais ameaçadas pelo proibicionismo vigente no Brasil.


Giovana, que faz uso recreativo da erva, estava presente na Marcha com amigos, um deles segurando um vaso com uma muda de cannabis. “Eu, como usuária, prefiro sair da loja com a minha erva tendo nota fiscal do que comprar na biqueira e levar um enquadro. Com a legalização, o tráfico com certeza diminuiria, principalmente crianças que vendem. Além disso, a criminalização da maconha no Brasil é racista, é uma estratégia política para impedir que o povo pobre seja feliz”, conta Giovana em entrevista ao Jornal Metamorfose.

Uma coisa é certa: os participantes da Marcha da Maconha de 2022 finalizaram o sábado de 11 de junho um pouco mais felizes.


Não apenas porque estavam sobre o efeito do THC, mas porque a união de centenas de pessoas reivindicando o fim da guerra assassina contra as drogas e o fim do preconceito e do estigma contra os usuários, certamente confortou os corações dos “bompanheiros”, como afetuosamente são apelidados por dona Eunice.


A primavera antifascista, como a organização da Marcha gosta de chamar a passeata, marcou mais um capítulo na luta pela legalização da erva no Brasil. Agora é aguardar que as sementes de informação que são plantadas no evento rendam bons frutos de menos preconceito no futuro.


Confira também a fotorreportagem sobre a Marcha da Maconha 2022.

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