• Marcus Vinícius Beck

Medo e delírio pós-eleições do Tio Sam

Ensaio

Jornalista analisa Donald Trump e Joe Biden à luz de personagens marcantes da literatura

Donald Trump se agarra na possibilidade delirante de golpe de estado. Foto: Reprodução


Talvez o mais anestesiante de sermos insultados é não compreendermos o real significado daquilo a que estamos sendo xingados, e com isso ganhamos licença para desfilar elegantemente com a máscara da ignorância estampada no rosto. Vai dizer que não tem um quê reconfortante chamar o ex-inquilino da Casa Branca de “Ubu Rei” ou equivalente brasileiro em exercício de “Arturo Ui”?


É, Bertold Brecht e Alfred Jarry, só vocês são capazes de retratar o absurdo que se tornou a existência política num mundo que não tem se mostrado um lugar de muita liberdade, pois comparar os mandatários de lá e de cá com o legado de ditadores no período entre guerras não têm o efeito que desejamos. Já é manjado.


Se eu pareci exagerado, então peço que tire suas próprias conclusões com base nos fatos: com a eleição nos Estados Unidos dominando as redes sociais e o noticiário no início de novembro do ano passado, âncoras de três das principais emissoras americanas – NBC, CBS e ABC – boicotaram pronunciamento oficial do então presidente Donald Trump, porque o Ubu Rei do norte desferiu golpes contra a confusa democracia americana, colocando em xeque a lisura do pleito eleitoral e dizendo que a contagem de votos estava errada.


Ou seja, atirou um barril com gasolina nas instituições. E riu com as chamas que se alastraram.


É aí que acredito ser essencial a literatura como instrumento para interpretação do real: idealizado pelo dramaturgo Alfred Jarry (1873-1907), o personagem Ubu Rei se tornou um marco no Teatro do Absurdo e seu personagem-título, uma metáfora contra os déspotas. E nem bem estreou direito, no final do século 19, a peça teve sua encenação proibida na França, país considerado berço do Iluminismo. Não importava a inventividade estética da obra ou prenúncio dadaísta e surrealista que se vislumbrava em sua linguagem nonsense: era preciso evitar que a paródia de Macbeth ambientada em Paris chegasse ao público. Seria, ora pois, uma representação de Trump?


Criada na efervescência da morte durante a Segunda Guerra Mundial pelo dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), Arturo Ui é uma sátira alegórica ambientada em Chicago intitulada “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”. Ui busca o poder num mundo defenestrado pelos horrores da Primeira Guerra e se apresenta como o salvador da pátria. Já Trump se fez politicamente como aquele que faria a América grande novo e, assim como na alegoria brechtiana, não foi a julgamento como sonegador de impostos e chefe de milícia neonazista, porém a expectativa é que o jogo mude após o pleito.


Joe Biden, o oponente de Trump na corrida pela Casa Branca, reserva traços típicos de Jay Gatsby. Eternizado pelo romancista americano Scott Fitzgerald (1896-1940) nas páginas de “O Grande Gatsby”, o personagem se endinheirou com grana proveniente da Lei Seca, comprou uma mansão e passou a dar festas esperando o dia que a mulher de sua vida fosse aparecer ali. Ele colecionou tragédias, como a antipatia de Daisey, sua paixão e esposa de Tom Buchanan – um supremacista branco raiz. Gatsby virou um arquétipo literário do sujeito que desejava ingressar na alta sociedade, mas para isso se enveredou no mundo de negócios obscuros. Vai: é Meio Biden, meio Trump...


Explico: nas eleições, o público assistiu ao ocupante do posto de “presidente da maior democracia do mundo” apelidar seu oponente como “Sleepy Joe”, algo como “Joe sonolento”. Talvez Trump, se gostasse de livros, iria se apropriar deste trecho dito por Tom em “O Grande Gatsby”: “A ideia é que, se não tivermos cuidado, a raça branca será completamente subjugada. Compete a nós, que pertencemos à raça dominante, estar atentos; do contrário, essas outras raças dominarão o mundo.” Não sendo leitor de nada relevante, o inquilino da Casa Branca prefere agir como o rinoceronte que anda pelas ruas de uma cidadezinha na peça “O Rinoceronte”, do dramaturgo Èugene Ionesco (1909-1994). É o absurdo da política, em suma.


Lembrando o jornalista Hunter S. Thompson (1937-2005), autor da obra “Medo e Delírio na Campanha de 72”: em uma democracia, as pessoas geralmente recebem o tipo de governo que merecem”. Seria também assim nos Estados Unidos?


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