• Júlia Aguiar

Memória em risco

JM Contra A Censura

Governo Bolsonaro demite em junho todos os profissionais técnicos da Cinemateca Brasileira, colocando em risco maior acerco audiovisual da América Latina

Cinema Francês do começo do século passado. Foto: Oakland Univ


As imagens em movimento podem parecer algo ‘comum’ nos dias atuais, mas a criação do cinema é reconhecida como marco na compreensão da realidade humana e social. No século XIX, ouvíamos e líamos sobre o mundo. No século XX, o cinema transportava os olhares atentos à tela para uma nova percepção daquilo que entendemos como vida, manifestação dos sonhos e dos sentimentos.


Os estudiosos do cinema teorizam e debatem constantemente sobre o poder do audiovisual na sociedade. Tiranos como o nazista Adolf Hitler, é bom lembrar, usaram a sétima arte para propagar a mensagem do Terceiro Reich, assim como grandes cineastas mudaram a concepção sobre o mundo a partir de seus filmes. Porém, como toda ferramenta de comunicação, o audiovisual sofre com a função de seu ofício.


O trabalho de preservação cinematográfico é um dos pilares fundamentais na manutenção da memória cinematográfica de um país, o processo de manter um acervo é complexo e delicado, necessitando de profissionais capazes de cumprir a função. É o que explica Pedro Maciel Guimarães, professor no Departamento de Cinema da Unicamp e doutor em cinema e audiovisual pela Paris 3 - Sorbonne Nouvelle: “é preciso que as pessoas entendam que colocar a Cinemateca nas mãos de uma pessoa que é inexperiente nesse meio de conservação, é colocar em perigo a memória audiovisual do país”, avalia o professor ao JM.


Segundo Carlos Augusto Calil, ex-diretor da Cinemateca Brasileira e professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP, as imagens em movimento têm o poder de reter o real e se tornam, mesmo que involuntariamente, registros de uma época. “Os historiadores contemporâneos não desprezam os filmes como fontes eloquentes de informação e análise. O cinema não é um mero registro passivo da realidade; é uma linguagem que reelabora o real", explica ao Jornal Metamorfose.


A capacidade da sétima arte em representar a História é o que transforma em essenciais instituições como a Cinemateca Brasileira, que tem o maior acervo da América Latina.


"Hoje, a própria realidade parece refletir ao cinema e não o contrário, vivemos um período tão conturbado onde as informações são distorcidas, narrativas são adulteradas, culturas são apropriadas e retratadas de maneira injusta e, até mesmo, não são retratadas, porque não tiveram a chance de participar de alguma produção genuinamente fiel a um recorte memorial da nossa cultura", afirma o cineasta, diretor criativo e mediador cultural, Jaicle Melo.


Cinemateca Brasileira

Cinemateca em suas famosas exposições públicas. Foto: Caio Brito/Reprodução


Idealizada em 1946, pelo crítico e estudioso do cinema Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), a Cinemateca Brasileira contém o maior acervo de "imagens em movimento" da América Latina, com mais de 200 mil títulos nacionais e estrangeiros. Além de documentos importantes para a história do audiovisual nacional, como os certificados de censura - tanto no Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas, como na Ditadura Civil-Militar (1964-1985), dos gorilas fardados.


Situada na cidade de São Paulo, a Cinemateca possui vocação nacional. Segundo o professor e ex-diretor da instituição, Carlos Augusto Calil, "ela conserva a imagem animada do país desde o início do século, as chanchadas tão populares, as obras do Cinema Novo, de prestígio internacional, a memória da pioneira TV Tupi etc. Ela é a maior, mas não a única, referência no campo histórico das imagens entre nós. E é reconhecida como a maior instituição do gênero na América do Sul", afirma em entrevista ao Jornal Metamorfose.

A Cinemateca Brasileira, de fato, sofre com o descaso público e a falta de investimentos há anos. Desde 2013, a entidade passa por problemas administrativos e estruturais derivados de crises políticas. O ministério da cultura nunca soube realmente investir em políticas públicas voltadas à manutenção de acervos e museus, e toda a classe artística sofre com o descaso público.


Porém com a posse de Jair Bolsonaro (sem partido), a cultura passou a sofrer com censuras, falta de investimos, fim de editais e sucateamento de órgãos que deveriam primar pela valorização de nossa identidade. Em junho deste ano a Secretaria Especial de Cultura, chefiada por Mario Frias, demitiu todos os funcionários técnicos da instituição.


No dia 7 de junho, a Polícia Federal interveio na instituição com uma operação ostensiva e policiais armados. A ordem do novo secretário era clara: tomar as chaves da Cinemateca. À época, Jair rompeu o contrato com a Fundação Roquette Pinto (Acerp), instituição que mantinha a Cinemateca, cancelando os repasses federais e fechando o maior acervo cinematográfico da América Latina.


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