• Metamorfose

Meu passado me condena

Livro


Jornalista expõe protesto do presidente Jair Bolsonaro por melhoria salarial na Academia Militar das Agulhas Negras que culminou em processo e prisão


Presidente larga microfone em ato antidemocrático para tossir - Foto: Gabriela Biló/Agência Estadão Conteúdo/ Reprodução



Marcus Vinícius Beck


Em 16 de junho de 1988, o então capitão do Exército Jair Messias Bolsonaro, atual presidente do Brasil, fora julgado pelo Superior Tribunal Militar (STM) por elaborar um plano para reivindicar aumento salarial com a finalidade de explodir bombas em unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, no Rio de Janeiro. O conselho de justificação condenara Bolsonaro, por 3 a 0, pela “conduta irregular e prática de atos que afetam a honra da pessoa, o pundonor militar e o decoro de classe”. No entanto, o STM o absolveu por 9 a 4 do xilindró. Antes disso, o capitão tresloucado ficara 15 dias preso.


A história começou a ser escrita em setembro de 1986, quando o militar paraquedista da ativa publicara artigo na revista Veja. “O salário está baixo”, uma crítica mordaz à política do presidente José Sarney, configurava uma grave quebra de hierarquia, o que é intolerável na ética fardada. O texto teve enorme repercussão, dando ao messias seus primeiros três minutos sob os holofotes. Pouco mais de um ano depois, a Veja atribuiu aos capitães Bolsonaro e Xerife (que em seguida descobriu-se ser Fábio Passos) a responsabilidade pelo plano terrorista. A revista afirmou que a ideia era “explodir bombas” na Academia Militar.


Presidente Jair Bolsonaro foi absolvido em processo na Justiça Militar - Foto: Mateus/ Reprodução



Com o perdão do infame trocadilho, risos, a reportagem foi bombástica. E explosiva, bem explosiva. O Comando Militar do Leste defendeu publicamente os rebeldes. Mas a história conta com pontos soltos: por que a Justiça Militar foi tolerante com o capitão? Qual fator acabou sendo determinante na decisão da Justiça? Essas respostas e outras estão no livro-reportagem O Cadete e o Capitão: A Vida de Jair Bolsonaro No Quartel, do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, onde ele destrincha o processo varrido para debaixo do tapete. O plano dos milicos é reportado com habilidade, transparência e contextualização.


Em uma narrativa de poucos adjetivos, o jornalista explica o que levara um grupo de militares de alta patente a distorcer documentos e depoimentos para livrar o soldado messias da condenação. O inimigo daquela vez? A imprensa, é claro, nada muito diferente da maluquice militar atual. É, no mínimo, intrigante ler as acusações contra a repórter Cássia Maria, que revelou um plano, digamos, um tanto explosivo cuja intenção era atingir a credibilidade e a reputação do ministro do Exército. Sem dúvida, foi a mais importante exposição jornalística sobre o que ocorria no submundo dos quartéis desde a ditadura, que terminara em 1985.


Sim, a sessão que absolveu Bolsonaro virou um amontoado, sem pé nem cabeça, de críticas ao jornalismo e à democracia, como registra Carvalho no livro-reportagem. Ao todo, dos 13 ministros presentes na audiência, só quatro votaram a favor da condenação do messias Jair. Olha o nível dos termos utilizados pelos julgadores para referir-se à jornalista: “criatura pouco recomendável”. Acredite, esse foi o mais brando. Os outros, Jesus Santíssimo!, são de dar arrepios: “repórter não é flor que se cheire”, disse o general Alzir Benjamin Chaloub, xingando Maria de perigosa e cascavel, de acordo com Carvalho. Jair aprendeu bem a lição.


Bolsonaro fritou ex-ministro Sergio Moro na última sexta-feira (24) - Foto: Gabriela Biló/ Agência Estado/ Reprodução



Por essas e por outras, o livro-reportagem O Cadete e o Capitão, do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, expõe a deturpada visão dos militares (incluindo o seu Jair, o messias da bomba) de qual é a verdadeira função da imprensa. Até hoje é assim: confundem os fatos narrados, a história com os profissionais, os pobres jornalistas que – por dever do ofício – apenas reportam o que é relevante ao público. Carvalho finda o livro no momento em que seu messias se safa da cadeia. Fica um gosto de quero mais, de saber o que vai acontecer com essa figura obscura que fizera carreira no baixo clero da política. Aí, porém, já é outra história.


Ficha técnica

“O Cadete e o Capitão”

Autor: Luiz Maklouf Carvalho,

Gênero: Livro-reportagem

Editora: Todavia

Preço: R$ 20 (Kindle, Apple Books, Google play)