• Mônica Oliveira

Mulheres que amam e sofrem: por quê e até quando?

Sede de Arte

Livro escrito por psicóloga clínica procura demonstrar como e por quê mulheres são educadas para o amor romântico enquanto homens aprendem a amar a vida


“Tão bonita, tão inteligente, por quê ainda está solteira?”, se você é mulher, muito provavelmente já ouviu esse tipo de pergunta em algum momento da sua vida, se não diretamente para você, pelo menos já viu alguém ser questionada dessa forma, não é mesmo? “Para de chorar, homem não chora!”, e se você é homem, essa frase em forma de ordem também deve ser familiar para você.


Mas você já se perguntou o porquê desses tipos de falas serem comuns na nossa sociedade? É a essa pergunta que a psicóloga e professora da Universidade de Brasília, Valeska Zanello, busca responder em seu livro Saúde Mental, Gênero e Dispositivos: Cultura e Processos de Subjetivação. A obra procura demonstrar que o entendimento do papel feminino e masculino foi sendo construído ao longo do tempo.


Você mulher já se sentiu em algum momento cobrada, seja pelos outros ou por você mesma, pelo fato de estar solteira? Pois é, o capítulo “Dispositivo Amoroso” procura explicar porque essa cobrança ocorre. Nas palavras da própria autora, o Dispositivo Amoroso é uma arma de submissão feminina. Para entender melhor o que seria isso, vale citar aqui um exemplo que Zanello fornece no livro: a história da pequena sereia Ariel.


Esse filme famoso da Disney conta a história da sereia que se apaixona por um homem, e para tentar viver ao lado dele, ela negocia com a vilã Úrsula uma troca, pretende ceder a sua voz para ganhar um par de pernas. Úrsula, para convencer Ariel a realizar a operação, argumenta que ao lado de um homem a sereia não precisará de sua voz para nada, pois o homem aprecia uma mulher calada, e que em compensação saiba mexer o quadril.


Essa história da pequena sereia é um exemplo do que a autora nomeia de tecnologia de gênero, instrumentos que procuram educar nossos corpos e atitudes. No exemplo de Ariel, temos uma mensagem clara de educação feminina para os interesses patriarcais: o silêncio e a submissão ao lado da sensualidade e sedução. O ponto chave da questão é que Ariel está disposta a negociar sua própria voz para poder viver ao lado de seu amado. Longe de romantizar essa atitude, Zanello pontua como nossa sociedade desenvolveu uma educação que torna o sucesso amoroso uma prioridade para as mulheres. Por isso que perguntas como a mencionada no início são comuns de serem dirigidas às mulheres, e por isso também que Ariel não mede esforços para tentar conquistar aquele que ela considera o amor da sua vida.



Essa busca por ser bem-sucedida no amor leva a mulher à exaustão e o principal instrumento para isso é a prateleira do amor, onde as mulheres se posicionam para serem escolhidas. É nela que ocorre a tão famosa rivalidade feminina e até mesmo o que podemos chamar de feminismo colonizado, aquele que está presente nas letras de música das artistas pop, quando ostentam o estilo de vida “patroa”, ressaltando a beleza, um corpo bonito ( aqui pode-se entender um corpo magro, que é o que está dentro do padrão de beleza), com muitos homens interessados.


Já para os homens, a história é outra: eles aprendem a amar muitas coisas ao longo de suas vidas, não apenas às mulheres. Tudo isso porque ao sexo masculino foi permitido o desfrute da vida pública, o trabalho, os bordéis, o futebol, o bar com os amigos. É claro que hoje temos cada vez mais a presença das mulheres no mercado de trabalho, nas universidades, na política, mas é verdade também que os salários e o reconhecimento continuam desiguais.


Um dos objetivos principais do livro é demonstrar como que toda essa construção social sobre o que é ser homem e o que é ser mulher afeta na saúde mental de ambos os sexos. No caso das mulheres, a depressão é o quadro mais comum, já que o silêncio em troca da aprovação masculina faz com que elas se tornem cada vez menos potentes. Os homens, por outro lado, que possuem permissão social para darem vazão à agressividade, são os que mais cometem suicídio.


O livro de Zanello fala sobre tudo isso trazendo exemplos da mídia, o que facilita que qualquer um se identifique e reconheça como que toda essa dinâmica ocorre na nossa sociedade. Nas palavras da própria autora, o objetivo é demonstrar como que tudo isso foi sendo construído para que possamos descontruir.


O capítulo mais extenso do livro é sobre o dispositivo amoroso das mulheres, e não é à toa: são elas as que mais sofrem ao serem educadas para amar dentro dos moldes do amor romântico, enquanto que os homens se beneficiam dessa dinâmica, já que enquanto ela durar, existirá uma mulher disposta a se submeter para ter o seu valor reconhecido em uma relação.


Título: Saúde Mental, Gênero e Dispositivos: Cultura e Processos de Subjetivação

Autora: Valeska Zanello

Editora: Appris

Ano: 2018

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