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Não é apagão, é censura

Editorial

“Ataque de hackers” ao Conecte SUS em 12 de dezembro, já deixa brasileiros sem informações oficiais sobre a Covid há mais de 20 dias. Até agora nada foi feito para recuperar os dados

Mortes por Covid podem ter diminuído com o avanço da vacinação, mas, 600 mil mortos (e contando) não é algo que se esquece. Foto: J.Lee em sua série “Atotô”/2021


Entre 1971 a 1976 acontecia a epidemia dos silêncios. Os milicos escondiam corpos de uma epidemia de meningite que atingiu 67 mil pessoas e matou cerca de 2,5 mil. Nos jornais, não se lia uma página sobre prevenção da doença, vacinas, formas de tratamento eficaz, nem contagem do número de mortos. Na realidade não se sabe até hoje ao certo quantas brasileiros foram infectados e quantos morreram, temos apenas hipóteses oficiais. A única coisa que temos certeza é a reutilização de uma prática perversa.


Cinquenta e um anos se passaram e cá estamos nós novamente, com os milicos no poder e a censura como rotina. Entretanto, todas as técnicas e tecnologias se atualizam, e a censura não é exceção à essa regra.


Desde de 12 de dezembro de 2021, os brasileiros não fazem a menor ideia de quantas pessoas foram vacinadas, infectadas ou mortas pela Covid-19. Mas isso não impediu que tivéssemos festas de fim de ano badaladíssimas ao redor do país, afinal, o clima era de CONTROLE! Ora, veja só, será que é para isso que serve a censura? Controlar o sentimento público e, portanto, impedir cobranças sociais?


Será que agora iremos conseguir emplacar a palavra fascista genocida como adjetivo primordial para se referir ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República, o vagabundo-mor Jair Messias Bolsonaro nos principais jornais do país? Quiçá, queride leitor, ainda seja “cedo demais” para afirmar que as mais de 600 mil mortes sejam deveras culpa do presidente. Pelo menos é o que se faz parecer nas principais páginas dos jornais tradicionais.


Infelizmente temos que admitir que a narrativa de controle da pandemia propagada pelo bolsonarismo venceu, até mesmo nas bolhas de esquerda. A maioria de nós relaxou nos cuidados, voltou a frequentar bares, festas, reuniões entre amigos e por um momento, acreditamos que estava tudo sobre controle. Mas esse texto não é direcionado à culpabilização individual, nós também acreditamos na vacina e no começo do fim da pandemia.



Porém, a realidade atual é um novo surto de Covid. Pelo o que parece as internações diminuíram e a maioria dos brasileiros infectados pelo vírus que tomaram entre duas e três doses estão assintomáticos ou com sintomas leves. Um salve aos cientistas!


Em 29 de novembro de 2021 os dados do Sivep-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe) também saíram do ar pelo “ataque hacker”. O sistema é usado para que os municípios relatem casos graves, internações ou mortes por gripe ou Covid. O e-SUS Notifica, sistema usado pelos municípios, farmácias, hospitais públicos e privados, laboratórios para notificar casos de Covid ao Ministério da Saúde também segue indisponível.


Já o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirma que o DataSus irá voltar até o dia 15 de janeiro. Afirma isso ao mesmo tempo em que não se dá ao trabalho de explicar como aconteceu o tal ataque, se irá recuperar os dados, quais as medidas para prevenir que o “ataque” volte a acontecer e nem se preocupou em dizer qual a real situação da pandemia no Brasil.


Mas o que esperar de um país comandado por genocidas? Soluções reais para os problemas? Não sejamos ingênuos, vivemos um morticínio friamente calculado e que está sucedendo.


Bem, caro leitor, não se desespere, alimente seu ódio. Afinal, se eles nos odeiam o mínimo que podemos fazer é odiar de volta. É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.


Nós do JM desejamos coragem, saúde, estômago e muita indignação para todes os presentes. Vamos precisar para enfrentar o ano que mal começou.


Feliz 2022.

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