• Lee Aguiar

Não confunda a reação do oprimido com a ação do opressor

Doce Viagem

Ato antirracista contra o assassinato de João Alberto, no Carrefur de Porto Alegre. Protesto aconteceu em frente ao Norte Shopping, na zona norte do Rio de Janeiro, 22.11.20. Foto: J.Lee


Queridas, queridos e querides pessoas negras, meu corpo vibra. Cada olhar indignado, rugas e dentes marcados pelo tempo, cada fio branco nos cabelos crespos. Tudo me conta uma história. No dia 20 último descobri que são 481 anos de censura ao povo preto, e esse tempo não sai da minha cabeça desde que o descobri.


São 481 anos de censura.


São 17 anos de Dia Nacional da Consciência Negra. São quase cinco séculos do assassinato de Zumbi.


Minha pele retorce a cada corpo ceifado cotidianamente pelo racismo fascista. O Brasil é um país forjado no estupro de mulheres negras, com o apagamento histórico das vozes originárias. São 500 anos de guerra, incessante. Nós não esquecemos da dor, pois ela ainda é presente.


Sou uma mulher latina, e me emociono profundamente com os movimentos pela liberdade dos povos. Dedico-me incessantemente pela alforria do capitalismo, os filhos de Gaia não conseguem mais morrer e assistir a morte.


Me questiono muito sobre minhas contradições, e algo que me pergunto constantemente é porque temos a dificuldade pela adesão da radicalização.


Acredito que somos corpo motor da história, e que essa construção só existe no agora. O tempo de se rebelar é uma constante irremediável. Não sei se teremos o amanhã para nos tornarmos maiores e me assusta a antevisão da piora, com a censura e a repressão.


A reação do oprimido precisa ser entendida como necessária e digna. Só assim iremos conquistar mudanças e movimentos que impactam a realidade a nossa volta. Precisamos articular pessoas e movimentos para reagir à altura da repressão que estamos vivendo nestes tempos sombrios e tenebrosos do fascismo pós moderno.


Toda luta popular é digna e demonstra passos à diante, toda construção é válida pois demonstra ação de um povo acorrentado querendo se libertar. Mas precisamos dialogar entre nós formas de lidar com aquilo que nos impede de avançar na luta por mudanças estruturais.


A grande verdade é que temos fatos, contextos e experiências o suficientes enquanto país e povo que luta pela sua liberdade para entender onde estamos errando e porque. Bem, eu acredito que observar o passado e pensar o presente são duas atividades que dialogam com os planos de construção de um futuro mais libre e justo.


A esperança de um mundo melhor me permite continuar acordando com sentido de propósito. Um salve à todes companheires da luta antirracista.



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