• Marcus Vinícius Beck

Não era tão ruim

Botequim Literário


Capa do jornal 'O Pasquim' retrata ida para o exílio de Gilberto Gil - Foto: Reprodução


Estou encarando à garrafa de Presidente ao meu lado enquanto penso na maneira mais atraente para começar uma crônica sobre a necessidade da reverência no ofício de arejar as cucas do jornalismo tradicional na sociedade do delírio cotidiano.


É sexta-feira, o ponteiro marca 18h49, e eu não tenho grana: a sobriedade é uma companheira que me deixou sozinho, o amor é imprevisível e surpreendente, o sexo uma necessidade vital, a vida uma loucura deliciosamente sedutora...


Ah, Jesus Santíssimo... quem deseja saber sobre esse tipo de coisa? Você é estranho.


Obrigado. Mas a verdade é que nossa imprensa não tem se mostrado tão assertiva assim ao reportar e analisar os desmandos do capitão ocupante do Palácio do Planalto. É tal um de transcrever, sem contextualizar, as atrocidades retóricas do inquilino – até botaram o cara ao lado de Joseph Stalin na capa após discurso ficcional na ONU.


Acendo um cigarro: mais um gole no conhaque, só o conhaque remedia...


Penso na turma que enveredou pela sinfonia verbal da crítica durante os anos mais bravos da ditadura: O Pasquim, Opinião, Movimento, Coojornal... e mais uma pilha de publicações editorialmente sustentadas pelo sarcasmo em seus leads libertários.


Não só eu sinto a nostalgia de um tempo no qual não vivi. Tenho amigos que, a exemplo de mim, lamentam terem sidos desprovidos do privilégio de viver na Paris dos anos 1920, quando por lá desfilaram Hemingway, Fitzgerald, Henry Miller e Anais Nin. Ou de ter assistido in loco “Jule Et Jim”, de Truffaut, no festival de Cannes, nos anos 1960, pirando depois com a filmografia glauberiana e experimentando um ácido alucinante no Posto 9 durante o desabrochar da Geração do Desbunde.


Direciono essa mesma sensação ao jornalismo. Para quem construiu sua breve carreira na boa e velha mídia gutemberguiana, folhar exemplares do Pasquim hoje aparece um exercício de indignação, pois covardemente regredimos: não temos o humor cortante de Tarso de Castro, as charges políticas de Henfil, tampouco a virulência verbal de Millôr Fernandes, Ivan Lessa e Luiz Carlos Maciel – este foi o grupo que bolou e colocou na rua um jornaleco afrontoso. Que, acredito, continua necessário.


Talvez o impaciente leitor se pergunte: que porra de digressão é essa? Muito simples: assim que se sagrou vitorioso no pleito de 2018, Jair Bolsonaro – desculpa pela afronta ao citar tamanho palavrão neste periódico de família – disse que o Brasil regressaria 50 anos, já que ele e seu vice negam o holocausto, a ditadura, duvidam – inclusive – que a Terra é esférica e rechaçam o aquecimento global...


Das humanas que sou, fiz uma conta rápida no dedo: há 50 anos vivíamos em 1969, 1970. No rádio, Caetano, Gal, Tom Zé e mais uma gente da pesada. Na literatura, os primeiros passos da Geração Mimeógrafo. No cinema, Glauber, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues. No jornalismo, Pasquim. No teatro, José Celso Martinez.


Quer saber, até que não era tão ruim assim 1969, 1970. Tirando a ditadura, é claro...

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