• Dayla Dias Gomes

Não vou pedir desculpas por existir

Gotas de Acidez

Autoretrato. Por Dayla Dias


Admito que não sei como iniciar este texto, estava sentade em minha cadeira ouvindo a voz doce de Marvin Gaye, naquela música verdadeiramente saborosa, chamada “let 's get it on”, pensando sobre minha experiência de transgeneridade. Existem outras coisas que atravessam essa parte de mim, mas que como o mês da visibilidade trans é janeiro, só posso falar sobre o que é relacionado a esse tema, pois ser trans é minha única característica como ser humano (sarcasmo). Eu quero falar disso, tenho muita coisa a falar, infelizmente não são coisas que eu queira falar.


É doloroso ver tudo o que a indústria cultural reproduz e produz sobre você não é exatamente sobre você, mas sobre como eles acham que você é ou como querem que você seja. Entendam diversidade, é uma palavra tão linda e tudo mais, todos amam usar, mas eu falo de algo que vai além da cota de pessoas pretas que aparecem no comercial da mesma empresa que mantém trabalhadores em regime de subsistência e trabalho análogo a escravidão. É algo como não ter que existir a tal cota de diversidade em lugar nenhum, pois todas as pessoas que estão ocupando esses espaços são diversas em todas as formas possíveis. Falo de pessoas trans em todos os espaços de prestígio social, assim como pessoas pretas, pessoas neurodivergentes.


Não quero que exista uma categoria de filmes nas principais plataformas de streaming chamada filmes LGBT+, onde a maioria é de gente branca cis sofrendo em relações abusivas por serem pautadas na heteronormatividade filmadas por um diretor que muitas vezes é cisgenero e hetero. Como queria ver um filme blockbuster feito somente por pessoas não binárias assaltando bancos e fazendo a polícia ficar desesperada em prender o terrível e perigoso "Pronome Neutro". É disso que eu sinto falta! Rir, por isso dei uma pausa na coluna e me dediquei a alguns novos projetos pessoais. Quero poder sorrir as vezes, estou cansade mas como parar?


Eu quero falar para além da nossa dor, de verdade. Quero esfregar na cara de toda a cisgeneridade como somos pessoas capazes, vitoriosas e felizes, mas que verdade isso teria no país que mais mata pessoas trans no mundo? Que verdade teria nisso se perto dos últimos dias do ano fiz post pedindo grana pra comida no Twitter pois não suportava mais viver de arroz e feijão puro e nos primeiros dias do ano compartilhei pedidos de ajuda de outras pessoas trans em situação de fome? Ai outra vez eu lembro da pessoa cis de bom coração querendo nos salvar da transfobia com seu poderoso TCC que a partir de agora, chamarei de TCCis, pois o deboche é tempero do meu ódio.



Quando não nos matam fisicamente, nos matam psicologicamente de forma que nós acabamos sendo a população com maior índice de suicídio também proporcionalmente falando. Para piorar tem a pior de todas as mortes, aquela que mata nossa identidade. Esse é um dos vários icebergs a parte que boiam no mar da transfobia onde a ponta do mesmo é alguém errando os pronomes de uma pessoa trans e nas profundezas casos como travestis que falecem que são enterradas de terno e até se desenham bigodes nelas. Na lápide, o nome de registo. Esse é o jeito que a cisgeneridade encontra para nos matar mais de uma vez.


É violento nos tratar como vítimas indefesas ao mesmo tempo que é violento, vocês nos matarem, nos ignorarem, nos invisibilizarem. Fazer amizade é algo tão bom, mas ao mesmo tempo tão difícil… Às vezes penso que o que mais nos ajuda a morrer é toda essa solidão.


Quem criou a transfobia foram vocês pessoas cis. Ai eu sinto que eu não posso esquecer que eu sou trans, mas não, não vou reclamar de ter que escrever sobre ser trans sabe? Quem mais poderia nesse momento e nesse contexto? Enfim, tenho que escrever sobre o mês da visibilidade, quando o ano todo ano só sou visível como fetiche, como abjeto ou aquela coisa estranha a ser estudada que todo mundo que quer fazer um TCCis sobre.


Não quero falar de coisas tão básicas e óbvias mas, que não temos tanto acesso quanto deveríamos ter. Não quero falar aqui sobre emprego digno pois no capitalismo as únicas pessoas com a dignidade humana preservada são burgueses. Não quero falar de acesso básico à saúde, quantas pessoas trans que tem buceta são ridicularizadas por profissionais de saúde que ao marcarem consulta com ginecologista tem atendimento negado? Não quero falar de educação pois para as várias pessoas trans que eu conheço a escola foi motivo de tentativas de suicidio… Afetividade? Volte para a última frase do parágrafo anterior, a afetividade trans para muitas pessoas se resume em ser abertamente tratadas como abjeto e no sigilo ser aquele objeto nas mãos dos "cidadãos de bem". Não sei se quero escrever sobre isso, entende? Não sei se dá para falar em humanidade quando as pessoas não me vêem como pessoa e sim um piroca ambulante. Sei que há muito a ser falado, mas vivo tanto isso todos os dias que estou morrendo de cansaço.


Agora me pergunto como falar ou o que falar sobre ser trans nesses dias de visibilidade? Falo tanto, sinto tanto, penso tanto e escrevo tanto, mas sinto que nada é o suficiente para expressar o que está no meu coração. Não dá para fazer um texto escapista tentando fugir da única coisa que eu tenho que é a própria realidade, mas como eu quero, como eu preciso respirar. Querer um dia ou uma semana de paz é muito? Infelizmente só quem luta tem a chance de encontrar a paz, o problema é que estamos em constante guerra e lutar é cansativo, desistir não é uma opção entretanto. A luta é também pelas pessoas que não tem o direito de desistir.


Voltando ao que já foi dito, sinceramente como eu quero esse filme de pessoas não binárias metralhando bancos e fazendo a polícia e os fiscais de língua portuguesa que nunca pesquisaram o que é linguística no google irem atrás do vilão da trama o terrível e assustador “Pronome Neutro”.


Já imagino algumas sequências de cenas onde esse vilão entra na casa de pessoas cis e faz todo tipo de atrocidade, por exemplo fazer as crianças da família tradicional brasileira ou até mesmo da família de marxistas ortodoxos terem o mínimo de respeito pelo vai além do próprio umbigo delas, pensem em algo grave desse nível? E para além do deboche devo dizer que uma das coisas que mais me desolam é o jovem ou o velho hetero, branco e cisgenero de esquerda que coloca a culpa da falta de condições da revolução acontecer ser das chamadas "pautas identitárias" e não o próprio elitismo e a falta de trabalho de base. É uma petulância achar que não existem pessoas trans nas periferias, que população LGBTQIA+ não é também classe trabalhadora.


Enfim, como eu queria isso, digo esse filme, em todos os cinemas fazendo o maior sucesso ao invés de ser colocado na categoria de "filme de minoria" e não ficasse restrito a festivais independentes… Acho que no fundo o que eu mais tenho sentido necessidade tem sido a necessidade de não ser a cota… É solitário ser a única pessoa trans de qualquer lugar quase sempre. Acho que o mais importante a se falar aqui é que não vejam as pessoas trans só no mês da visibilidade trans, nos vejam todos os meses.


Mas não nos vejam e olhem pro lado fingindo que não viram como muitos fazem, somos gente também mesmo que a maior parte de vocês não acredite nisso. Ser trans é motivo de orgulho mas no fim é só uma das várias e ricas características que formam uma pessoa. Somos artistas, cientistas, estudantes, jornalistas e milhões de outras coisas… As vezes o que nos falta é oportunidade de ocuparmos nossas próprias profissões, isso dói. Não queria ter que falar de dor, mas ignorá-la não a fará sumir.

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