• Marcus Vinícius Beck

Na cadência bonita do samba

O que ler?

Biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz narra trajetória do cantor Luiz Melodia desde seus primeiros passos no Estádio até a consagração nos anos 1970


Do berço do samba sincopado carioca, o célebre cantor Luiz Carlos dos Santos, vulgo Luiz Melodia, herdou a linhagem poética que consagrou Noel Rosa e Aldir Blanc: sua verve boêmia desembocava em letras com imagens que reviravam a percepção do público. Melodia detinha, para além desse talento, uma sonoridade que dialogava com rock, blues, jazz, soul e, claro, samba. Seja como for, o genial compositor não estava mesmo a fim de seguir os ditames da indústria fonográfica e logo ganhou fama de maldito, que se acentuara ao deixar o Morro de São Carlos, no Estácio, para cair nas graças de Bethânia e Gal, divas consagradas da MPB.


O célebre sambista viveu a música desde seu nascimento, porque seu pai, Oswaldo, era um violonista conhecido pela turma da batucada a partir do apelido que consagraria seu filho, Melodia. Pulsava a batida perfeita, o pai. E era um religioso tipo Martin Luther King. Conhecedor do preconceito e do racismo, o progenitor rejeitou a verve artística do filho ao ponto de desejar que Luiz trilhasse o ofício do funcionalismo público nas repartições da burocracia - o que ele efetivamente não levou a sério, ainda bem. Suas primeiras composições foram feitas na adolescência, tocando em festas do Morro e em concursos nas rádios do Rio de Janeiro.


Melodia, antes de surfar na onda da fama, integrou as bandas Filhos do Sol e Os Instantâneos, que faziam sucessos em bailes. Mas, paralelo ao trabalho na música, o cantor alternava sua paixão com a labuta como tipógrafo, vendedor e caixeiro. Ao conhecer Rose, uma garota cuja família habitava no Estácio, a sorte do promissor artista chegou e ele não pensou duas vezes antes de mudar-se para lá. Amiga do poeta e agitador cultural Waly Salomão, ela o convenceu a subir o Morro para, enfim, apresentá-lo a Melodia, que tinha algumas músicas finalizadas, como “Pérola Negra” e “Farrapo Humano”, ambas que se tornaram clássicos do sambista.


Estupefato com a pegada poética de Melodia, Salomão apresentou o cantor para a turma da Tropicália e da contracultura do desbunde. O jornalista e também poeta Torquato Neto escreveu no jornal “Última Hora” sobre “o negro magrinho com composições interessantes do morro do São Carlos”. Essas “costas quentes”, como o próprio referia-se a si mesmo, ajudaram-no a gravar seu primeiro disco, aos 22 anos. E o LP “Pérola Negra” (1973) era uma preciosidade musical, do início ao fim: “Estácio, Eu e Você”, “Vale Quanto Pesa”, “Estácio, Holy Estácio, “Pra Aquietar”, “Pérola Negra” e “Farrapo Humano” faziam parte do álbum.


O disco, como era de se imaginar, foi um sucesso acachapante – de público e crítica. E se um artista flerta com esse tipo de coisa, as pressões por um novo álbum de inéditas aumentam, logicamente. Assim foi com Melodia, que passou a se indispor com os engravatados da Phillips. Em uma de suas tretas com o pessoal da gravadora, o cantor pegou uma grana e se mandou para a Bahia. Digamos que o período de férias pelas terras soteropolitanas foi proveitoso no âmbito da vida pessoal, mas em questão de trabalho a coisa degringolou: se por um lado o cantor conheceu Jane, companheira com quem passou a vida toda, a fama de maldito se fez aumentar estrepitosamente.  


Essas histórias, e outras tantas, povoam a biografia “Meu Nome é Ébano: A Vida e a Obra de Luiz Melodia”, do jornalista Toninho Vaz, biógrafo de gente como Paulo Leminski e Torquato Neto. A obra, como não poderia deixar de ser, percorre as facetas (ora discretas, ora marrentas) que fizeram de Melodia um dos nomes fundamentais da música brasileira. “No palco, um sambista sempre elegante fazendo aquele passo diferente no pé, retorcendo o corpo esguio. E o violão extraordinário que tocava, cheio de acordes e divisões estranhas, pouco comuns? Tudo na cadência bonita do samba”, escreve o cantor e compositor Jards Macalé, na contracapa do livro.


Para além de um registro de um ‘maldito’, “Meu Nome É Ébano”, que foi lançado em agosto pela Tordesilhas, é uma obra que resgata a trajetória, desde a infância musical em meio às primeiras escolas de samba do Rio, até o status de outsider da MPB com o qual foi agraciado Melodia, mostrando-se um artista íntegro, comprometido com sua obra, com seu legado e com seu tempo. “Quando descobri que compunha música com facilidade, apenas em parceria com o violão, o morro de São Carlos foi uma grande fonte de inspiração”, recordou-se Melodia, devidamente anotado por Toninho Vaz no final do primeiro capítulo de “Meu Nome é Ébano”. Genial, o Melodia. 


Ficha Técnica

‘Meu nome é Ébano: a vida e a obra de Luiz Melodia’


Autor: Toninho Vaz

Editora: Tordesilhas Livros

Páginas: 336