• Victor Hidalgo

NFT: Não Faça Trambicagem

Internet

Os NFTs tomaram as redes sociais, mas afinal, o que é e quais os impactos em nossa sociedade? Você descobre nessa reportagem

Fazenda de mineração de bitcoin - Foto: Divulgação Greenidge Generation Bitcoin


Só se fala de outra coisa, mas por algum motivo diversas marcas, atores e influenciadores parecem estar empurrando de forma artificial o que parece ser o registro de um domínio gourmetizado, com implicâncias ambientais e sociais.


Mas o que são NFTs? Trambicagem? Lavagem de dinheiro? Roubo de arte com leniência das plataformas que promovem e vendem esses links? Um pouco disso tudo com uma pitada de capitalismo tardio, para que aquele pequeno otário possa se sentir um pouquinho como um parasita sugador de sangue capitalista.


NFT significa “token não fungível”. Segundo o programador Yuri Albuquerque, fungibilidade é o atributo de bens que são reprodutíveis e produzidos em massa, enquanto bens não fungíveis são únicos.


“Por exemplo, se você tem 5 sacas de arroz, elas são fungíveis. Você pode trocar por outras 5 sacas de arroz idênticas que não vai fazer diferença. Agora, se você tem uma casa, ou uma obra de arte, são não fungíveis. A Mona Lisa não é igual ao Abaporu, uma casa não é igual à outra”, afirma Yuri ao Jornal Metamorfose.


Segundo o programador, NFTs reproduzem essa lógica de bens não fungíveis com "tokens" digitais, são como “vales” ou “certificados” digitais únicos, que podem ser comercializados. Esses certificados se propõem a representar obras de mídia, como desenhos, vídeos e outras do tipo, para tentar transformar itens facilmente reprodutíveis em itens escassos.


E quem lucra com NFTs? Segundo Yuri, os especuladores. Usando mecanismos que seriam ilegais em outros mercados, como a revenda de um token para o mesmo dono para inflacionar o preço. Quem menos ganha com eles, diz o programador, são os artistas.


Artistas esses que estão brigando constantemente com as plataformas que disponibilizam suas obras roubadas como tokens não fungíveis. Essas mesmas plataformas têm tornado a denúncia e remoção de obras roubadas mais difíceis a cada dia, contradizendo a alegação que alguns “evangelistas de NFTs” fazem ao afirmar que a existência dos tokens vai “ajudar os artistas”, quando na realidade podemos perceber que não são eles que estão ganhando dinheiro com isso.


Até mesmo músicas estão sendo roubadas. Um caso recente foi o do artista Nightmare Beats, que teve seu álbum inteiro Lo-Fi para Churrasco Vol.3 postado na plataforma Hitpiece sem o seu consentimento ou o de qualquer artista envolvido na produção.


E o que torna isso possível? Blockchain.


A blockchain é um banco de dados distribuído. Em outras palavras, não existe uma autoridade central armazenando esses dados, eles são armazenados nos computadores e servidores de todos os participantes. “Por causa dessa natureza distribuída, sem autoridade central, a blockchain é usada para transações sem um intermediário como, por exemplo, um banco”, explica Yuri ao JM.


Algumas empresas embarcaram nesse mercado e já começam a empurrar NFTs como algo positivo nos jogos. Uma delas é a Ubisoft, que já enfrenta problemas com sua imagem devido aos processos de assédio moral e sexual. A empresa lançou a plataforma Quartz, e já é um fiasco entre os jogadores, após duas semanas no ar, apenas 18 tokens do jogo Ghost Recon Breakpoint foram vendidos.


“Aqui é mais especulação da minha parte, porque não sou muito da área de analisar o mercado, mas me parece uma maneira de renovar o interesse em blockchains. Algumas grandes empresas também parecem ter embarcado no hype para extrair algum lucro” destaca o programador.


Outro destaque é o aprofundamento de certas relações que já existiam, como a venda de “loot boxes” - que são caixas de itens aleatórios pagar com dinheiro real nos jogos - não só atrair "baleias" - pessoas que gastam milhares de dólares em micro transações nos jogos - do mercado, interessados em conseguir boas skins - roupas especiais pagas com dinheiro real nos jogos - para ostentar no jogo, como também especuladores, efetivamente transformando “loot boxes” em verdadeiros caça-níqueis não regulados.


Outro ponto é a pegada ambiental que NFTs deixam. Segundo Alex De Vires, fundador do site Digiconomist, em entrevista para o UOL, as emissões de carbono ocorrem por conta da utilização do blockchain, o sistema que é utilizado para registro de NFTs e utiliza grandes quantidades de energia e equipamentos para operar 24 horas por dia, sem parar.


O local onde ocorre a maioria das transações de NFTs é a rede Ethereum, e ele consomem cerca de 40TWh (terawatts-hora) por ano, segundo o levantamento do especialista. Um dos contadores do site Digiconomist diz que o consumo é comparável com o da Nova Zelândia. Já bitcoins, que usam uma quantidade 2,5 vezes maior, tem um consumo anual similar ao da Argentina.



Alex De Vires ainda informa que o custo ambiental de cada transação não costuma ser considerado pelo usuário. “Se você está fazendo algo no blockchain, não é como se você estivesse sendo impactado diretamente com o custo ambiental daquilo. Não é você quem paga as contas de energia, quem paga é algum 'minerador' em um país como a China, por exemplo. Como usuário, você não vê isso. Sempre foi um custo escondido, de certa forma”.


E não é apenas o custo de energia. Mas também são utilizadas grandes quantidades de hardware (um dos motivos para a disparada no preço de placas de vídeo), gerando um montante de lixo pelas peças ficarem obsoletas em poucos anos, aumentando a quantidade de rejeito eletrônico.


“A discussão ambiental é um pouco complicada. Voltando para as blockchains, não existe uma autoridade central sobre os dados. Sendo assim, os participantes precisam concordar com um processo para inserir os dados. Existem vários processos para se provar que os dados são válidos e podem ser inseridos no banco de dados. Dois se destacam nessa discussão: a prova de trabalho e a prova de participação. Na prova de trabalho, MUITO processamento é gasto para se gerar uma prova. Por isso, os participantes que buscam inserir os dados são conhecidos como "mineradores", porque eles precisam gastar muito tempo e recursos para se gerar uma prova e ganhar recompensas ao inserir esses dados. E o pior é que conforme o poder dos mineradores aumenta, mais difícil fica de se gerar uma prova”, explica Yuri Albuquerque ao JM.


Existe uma corrida armamentista entre os mineradores, que estão sempre comprando máquinas mais e mais rápidas, e a dificuldade da rede, que aumenta para acompanhar o aumento de processamento dos mineradores.


“Por outro lado, Ethereum já está migrando para um algoritmo de prova de participação, e a previsão é finalizar a migração em 2022. Na prova de participação, os "mineradores", ao invés de gerarem provas com processamento, geram provas com seu nível de participação (em moedas) na rede. É como alguém com muita grana dizer "olha só, eu tenho muita grana investida nessa rede, preciso dela ainda funcionando de maneira confiável, senão eu perco grana caso ela entre em colapso. Então vocês podem confiar em mim quando eu insiro esses dados", afirma Yuri.


Assim como na prova de trabalho, quem insere dados também é recompensado. Então uma consequência disso é que há mais concentração de capital nas mãos dos maiores participantes. Mas, por outro lado, o impacto ambiental é reduzido consideravelmente. Se a promessa do Ethereum de migrar até 2022 se concretizar, a maior parte dos NFTs não vai representar impacto ambiental relevante. Por isso, segundo ele, o foco da crítica às NFTs precisa ser à estrutura de especulação e de pirâmide delas.

NFT comprado pelo jogador Neymar no valor de US$ 1,1 milhão. Foto: Reprodução


E depois de toda essa conversa, afinal, quem compra um NFT é dono de alguma coisa?

A resposta é sim e não. A pessoa é dona de um certificado digital. Apenas isso. O certificado armazena uma URL, mas, ao contrário da blockchain em si, a URL fica num site com uma autoridade central, não num banco de dados distribuído. Então se essa autoridade não puder continuar sustentando o site, por exemplo, a URL se torna inválida, e o certificado digital vai apontar para uma página de erro, não representando mais nada.


“Ademais, não há valor legal algum em NFTs. Comprar uma NFT não te garante direito e divulgação daquele recurso. Se você compra a NFT de um clipe da NBA, absolutamente nada te garante legalmente que você tenha direito de usar aquele clipe comercialmente. É só um papel virtual, como dizer que você tem a escritura da Monalisa, mas sem ter a Monalisa”, concluí Albuquerque.


E na economia, o que muda?


“O impacto econômico inicial é a especulação em cima do preço de ativos. NFT é um ativo e as pessoas que o possuem estão sujeitas à oscilação mercado, perdendo ou ganhando renda. E sim, há relação direta com as criptomoedas, pois as NFTs são estruturadas dentro da blockchain”, explica o economista Pedro Garcia, formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG).


Sempre terá um aspecto negativo na financeirização de alguns objetos/serviços, explica o economista. “Porém, tendo um avanço tecnológico considerável, é de suma importância que o cidadão comum também se aproprie dele e tenha algum retorno com sua profissão (aqui me refiro a algum artista de menor reconhecimento). Mesmo que tenha essa assimetria de poder econômico, ainda há a possibilidade de obter ganhos, afinal, é uma web descentralizada, à parte da que conhecemos e que sempre continuará existindo”.


Outro ponto que Pedro aborda é o fato desse sistema ser utilizado para lavagem de dinheiro. “Uma das desvantagens de um sistema formado dentro da blockchain é a falta de identidade das operações. É até possível rastrear tais desvios, mas não é possível saber quem desviou. Como as NFTs estão dentro desse sistema, é possível usar também como lavagem de dinheiro”.


O que tiramos de tudo isso?


Pessoalmente eu acredito que NFTs são apenas mais uma forma do capitalismo inserir sua lógica em um meio que ele ainda não tinha total controle: a internet. Enquanto arquivos no formato JPG podem ser compartilhados e copiados infinitamente, esses dados eram socializados sem problemas, ao menos que você tentasse comercializar eles.


Mas não podemos deixar isso acontecer, não é? Coisas só tem valor se elas são finitas. Então, vamos inserir escassez artificial via um link e dizer que você tem um certificado que comprova que aquilo é seu, e é único. Você não se sente um pouco mais especial por causa disso?


E como tudo, essa ideia não é original. Tudo indica que se basearam em algo antigo em fóruns como o 4chan: os Rare Pepes. Que nada mais eram do que imagens editadas do personagem Pepe the frog, feitas nos meados de 2014.


O que aprendemos então? Nada que tenha origem no 4chan vale a pena o seu investimento e tempo. Pode até ser que tenha pessoas bem-intencionadas em alguns projetos, como o recente do Cachorro Caramelho NFT, que conseguiu arrecadar dinheiro para diversas ONGs que cuidam de animais vendendo NFTs de Vira-lata Caramelo.


Então, como posso dizer? Invistam em NFT: Não Fazer Trambicagem.

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