Navio grego é apontado pela PF como suspeito de vazar óleo no Nordeste

November 8, 2019

Crise Ambiental 

Contrariando declarações anteriores de Bolsonaro, novas investigações descartam envolvimento de Ongs ou da Venezuela no derramamento de petróleo cru em praias nordestina

 

No dia 1º de novembro, a Polícia Federal (PF), em parceria com a Interpol, deflagrou uma operação para investigar a origem do derramamento de petróleo cru que assola o litoral nordestino desde o final de agosto. Contraditando afirmações anteriores do governo Bolsonaro, as novas investigações apontam o navio grego Bouboulina, pertencente à empresa Delta Tankeres, como principal suspeito pelo desastre ambiental.

 

De acordo com a apuração, realizada com base em imagens de satélites, a embarcação teria ancorado na Venezuela no dia 15 de julho e depois de três dias seguiu com destino à Singapura. Durante esse deslocamento, entre os dias 28 e 29 de julho, o vazamento de petróleo teria ocorrido a pouco mais de 700 quilômetros da costa da Paraíba, estado onde foram encontradas as primeiras manchas de óleo. 

 

Segundo a PF, não há indicações de outro navio “que poderia ter vazado ou despejado o óleo, proveniente da Venezuela”. A Marinha, que também colabora nas investigações, se pronunciou sobre o caso e afirmou que a embarcação chegou a ficar detida nos EUA por quatro dias, devido a “incorreções de procedimentos operacionais no sistema de separação de água e óleo para descarga no mar”.

 

Contudo, estudiosos indagam conclusões ‘simplistas’ e alertam que é preciso cautela, em relação aos métodos utilizados nas investigações. Isso porque, os dados coletados por satélites comumente apresentam ruídos e interferências, que podem prejudicar a interpretação das informações. 

 

Para Humberto Barbosa, pesquisador que trabalha no Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas, a grande quantidade de resíduos coletados nas praias do Nordeste, até o momento, pode não ser explicada apenas por um vazamento de um navio na superfície. “Possivelmente, está ocorrendo um vazamento maior abaixo da superfície do mar. Localizamos várias manchas de óleo no Oceano e o desastre ambiental talvez não seja explicado apenas por uma origem de vazamento”, disse em entrevista ao jornal El País, veiculado no dia 1º de novembro.

 

Em resposta ao El País, a Marinha afirmou, que: “A área do descarte foi identificada graças aos estudos realizados pelo Centro de Hidrografia da Marinha junto a universidades e instituições de pesquisa. Paralelamente, a Polícia Federal identificou uma imagem de satélite de uma mancha de óleo no dia 29 de julho por meio de geointeligência. Nas imagens do mesmo local feitas em datas anteriores, não havia manchas. Além disso, a análise do óleo comprovaria sua origem de poços venezuelanos. O navio grego teria sido o único petrolífero a trafegar próximo ao local”. 

 

Em entrevista para a TV Record, no último dia 3, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “o pior ainda está por vir” e que o que foi recolhido até o momento é apenas uma pequena parcela do que foi derramado. "Temos um anúncio de uma catástrofe ainda maior que está para acontecer por causa desse vazamento que, pelo que tudo parece, foi criminoso". Bolsonaro ainda acrescentou: “Falta apenas bater o martelo”, reiterando que todos os indícios levam para o derramamento tenha sido feito pelo cargueiro grego, de forma criminosa. 

 

Em nota divulgada na última segunda-feira (4) , a petroleira afirmou que ainda não foi contatada pelas autoridades brasileiras e reiterou não haver envolvimento entre seu navio e o derramamento de óleo. “A Delta Tankers tem todos os dados e documentos que provam que sua embarcação não está envolvida, mas até o momento ninguém pediu para vê-los”, disse a empresa.

 

Leia também: Nordeste vive o maior desastre ambiental da história da costa brasileira

 

 

Equívocos e fake news

 

Um dia antes da PF apontar o navio grego como principal suspeito no derramamento de óleo no Nordeste, o presidente Jair Bolsonaro voltou a acusar a Venezuela, durante live em suas redes sociais. Na ocasião, Bolsonaro declarou que "está mais do que comprovado que [a origem do óleo] é da Venezuela" e que o Governo saberia disso há quase dois meses, por meio de investigações realizadas por seus órgãos. Tal afirmação foi desmentida no dia seguinte, com a deflagração da operação.

 

Ainda nesta mesma live, outra pérola do governo. Na ocasião, o secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Júnior, disse que a pesca está liberada nas regiões atingidas, pois não haveria a notificação sobre contaminação de pescados. “O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente, você pode consumir o seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano, capitão”, disse ele. Bolsonaro complementou: "Obviamente de vez em quando fica uma tartaruga ali na mancha de óleo, pra não falar que ninguém fica, né? Um peixe, um golfinho pode ficar, mas tudo bem". 

 

Ironicamente, quem também vêm contribuindo com a desinformação acerca do caso, é o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que sugeriu no dia 24 de outubro, que o derramamento de óleo poderia ter partido do Greenpeace. "Tem umas coincidências na vida né... Parece que o navio do #greenpixe estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano...", escreveu Ricardo Salles no Twitter, junto com uma foto de um navio do Greenpeace. A hipótese também foi descartada pelas investigações da PF.

 

Em entrevista concedida ao programa Central Globo News, no dia 30 de outubro, Salles voltou a atacar a Ong, afirmando que: “Ajudar que é bom eles não foram”. Contudo, tal declaração é falsa. Voluntários do Greenpeace desde os primeiros registros das manchas de óleo, têm contribuído na limpeza de vários pontos do Nordeste. Além disso, o grupo produz registros como fotos, vídeos e documentos sobre o caso, que podem ser conferidos em suas redes sociais e site. 

 

 

Em declaração recente, durante Sessão da Câmara, realizada na última quarta-feira (6), Salles culpou administrações do PT pelas dificuldades de resposta do Estado em situações de crise. “Grande parte dos problemas enfrentados sobre materiais ou dificuldades orçamentárias decorre de uma coisa: nós recebemos um estado quebrado. Quebrado graças às políticas cujos alguns partidos estão representados aqui [na Câmara], que resultaram inclusive na prisão do presidente Lula e de tantos outros líderes políticos dessa corrente doutrinária”, declarou.

 

Na ocasião, apesar da sua fala inicial, o ministro ainda disse que o governo federal adotou todas as medidas cabíveis. De acordo com Salles, até o momento foram recolhidos 4 mil toneladas de óleo, incluindo areia e pedras que se juntaram ao poluente nas praias

 

Praias em meio ao óleo

 

 

 

Ao passo que Governo Federal gasta energia fazendo declarações equivocadas e/ou insustentáveis, a situação das mais de 200 localidades atingidas pelo derramamento de petróleo cru se agrava. Os danos vão além dos impactos ambientais e já atinge a toda uma cadeia econômica e social que depende do mar para se manter.

 

“Enquanto converso contigo agora, pode estar chegando mais óleo"

 

Para Raoni dos Santos, 32, morador de Itapuã, em Salvador, essa é uma “realidade que não era imaginada nem mesmo por pessoas com afinidades ambientalistas”. Ele ainda conta que em seu bairro, situado na região nordeste da capital baiana, as manchas de óleo começaram a aparecer há cerca de um mês, dias depois de alcançar todo o litoral norte da Bahia. Desde então, a rotina em Itapuã não é mais a mesma de outrora. Moradores, comerciantes, pescadores e Ongs têm dedicado esforços para ajudar na coleta do poluente.

 

Segundo ele, o petróleo que invade as praias nordestinas abalou toda a comunidade. “No geral, o primeiro impacto é emocional. As praias da capital ficaram completamente comprometidas pela falta de infraestrutura, tanto de equipes como de local de descarte. A economia turística e alimentícia também foi afetada. Então, é uma melancolia que oscila em uma tentativa de retorno ao normal e inquietações sempre que sai algo no noticiário ou quando vemos pessoas concentradas na areia”, declara.

 

Durante entrevista para o Jornal Metamorfose, Raoni que vêm participando como voluntário na limpeza das praias, diz não enxergar uma previsão de quando o problema será cessado. “Não dá para saber, sempre continua chegando óleo. Quando o intervalo é mais longo, se costuma pensar que acabou ou diminuiu, mas depois volta em pequenos fragmentos. Outras regiões que ainda não haviam sofrido, agora estão passando por problemas, porque as correntes marítimas estão levando muito óleo, como as do litoral sul. Enquanto converso contigo agora, pode estar chegando mais óleo", lamenta.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

November 19, 2019

November 18, 2019

November 18, 2019

November 11, 2019

November 11, 2019

Please reload

Posts Recentes
  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle

Apoie o jornalismo independente e contribua para que o Jornal Metamorfose continue a publicar.

Fale com a gente: sigametamorfose@gmail.com