Nordeste vive o maior desastre ambiental da história da costa brasileira

October 30, 2019

Nordeste

Com o vazamento de petróleo sem solução desde o final de agosto, o Jornal Metamorfose traz uma contextualização da gravidade do cenário que avassala as praias nordestinas

 

Foto: Felipe Brasil

 

Há quase dois meses, um vazamento de petróleo cru assola as praias do Nordeste. Os primeiros registros de manchas de óleo foram encontradas nas cidades paraibanas de Conde e Pitimbu, no dia 30 de agosto e, desde então, têm se espalhado por todo o litoral nordestino. Mais de 200 locais em 77 municípios dos nove estados que compõem a região – Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia – já foram atingidos pelo poluente, conforme divulgado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). 

 

De acordo com informações oficiais, a origem do derramamento de óleo ainda é incerta, mas sabe-se que não se trata de petróleo brasileiro. Conforme investigações realizadas pela Marinha em conjunto com o Ibama e a Petrobras, a substância composta por hidrocarboneto, conhecido como piche, tem a mesma “assinatura” do petróleo produzido na Venezuela. Contudo, isso não significa que o país vizinho seja o responsável pelas manchas de óleo nas praias do nordeste.

 

A suspeita é de que o vazamento pode ter partido de navio irregular. Caso o responsável pelo despejo de óleo seja identificado, terá de responder por crime ambiental e será multado em até R$ 50 milhões, conforme Lei 9.605/1988, que pune condutas lesivas ao meio ambiente. Segundo a Polícia Federal, que também está atuando no caso, a punição é válida mesmo se o culpado for estrangeiro.

 

Danos ambientais e impactos no turismo

 

O espalhamento de óleo pelo litoral nordestino já é considerado o maior desastre ambiental do gênero, em termos de extensão na costa brasileira e vêm ameaçando a vida marinha da região. Desde de setembro, mais de 75 animais foram encontrados oleados, entre eles, 14 eram tartarugas que morreram. Especialistas consideram que os danos causados pelo poluente ainda irá perdurar por décadas, afetando o desenvolvimento de corais, algas, aves e de espécies em extinção, como o peixe-boi. 

 

Isso porque o petróleo cru, ainda que seja uma substância orgânica, é altamente tóxica e de lenta degradação. A decomposição do óleo é demorada porque depende de fatores naturais, como a rebentação de ondas que dispersam o poluente, irradiação solar ou até mesmo por bactérias que se alimentam do carbono contido no material. 

 

Para a oceanógrafa Mariana Thevenin, a poluição dos oceanos por óleo é preocupante, pois há riscos de contaminação em vários níveis. “Essas substâncias contaminam todos os organismos do ambiente e isso facilmente cai na cadeia alimentar. Um pequeno peixe, por exemplo, pode comer algo que esteja contaminado. Isso entra na cadeia até chegar no peixe que consumimos”, afirma Mariana Thevenin, em entrevista à BBC Brasil, publicada no último dia 21.

 

Além dos impactos na cadeia alimentar, as manchas de óleo também podem ser nocivas para as pessoas que entram em contato direto com as regiões afetadas. Diante deste cenário, hotéis e associações no ramo do turismo temem que isso resulte em baixa temporada e consequentemente, interfira na economia local. De acordo com a rede hoteleira, o impacto no turismo ainda é pequeno, mas caso o problema persista até o mês de dezembro e o carnaval – período de alta temporada – a redução de visitantes já é tida como certa.

 

Impasse político e medidas adotadas

 

Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco/Folhapress

 

Por 41 dias, o governo federal se manteve em silêncio sobre o caso. Governadores dos estados do Nordeste e ativistas ambientais acusaram Bolsonaro por  omissão, devido a demora em acionar o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC). Somente no dia 11 do corrente mês, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, acionou formalmente o plano para conter as manchas de óleo. 

 

Em Contrapartida, diante do descaso, a própria população das regiões afetadas com a ajuda de voluntários, uniram esforços para iniciar a limpeza das praias e o resgate de animais atingidos pelo óleo. Na maiorias das vezes, as ações foram realizadas sem equipamentos de proteção adequados, sendo expostos diretamente ao poluente.

 

No dia 18, durante live em suas redes sociais, Bolsonaro insinuou que o óleo que atingiu as praias nordestinas podem ter sido despejadas por uma ação criminosa. “Coincidência ou não, nós temos um leilão da cessão onerosa. Eu me pergunto, a gente tem que ter muita responsabilidade no que fala. Poderia, não precisam responder os senhores, não, ser uma ação criminosa para prejudicar esse leilão? É uma pergunta que está no ar”, disse Bolsonaro, se referindo ao leilão do petróleo excedente de uma área do pré-sal, marcado para 6 de novembro, em que o governo prevê arrecadar R$ 106,5 bilhões com o volume extra.

 

No dia 22, o presidente voltou a falar sobre o assunto, afirmando que ONGS e partidos de esquerda ligados à Venezuela estariam por trás do “derramamento criminoso” de óleo. “No mínimo estranho o silêncio de ONGs e esquerda brasileira sobre o óleo nas praias do Nordeste. O apoio desses partidos ao ditador Maduro fortalece a tese de um derramamento criminoso”, escreveu em seu perfil oficial no twitter. 

 

Entretanto, contradizendo a fala de Bolsonaro, a própria Marinha já havia declarado que não foi comprovado participação da Venezuela no despejo de óleo. Segundo o almirante-de-esquadra Ilques Barbosa Júnior, o mais provável é que o vazamento tenha sido ocasionado por um dark ship, uma embarcação irregular que por algum motivo, desliga seus sistemas de identificação e comunicação, com o objetivo de dificultar seu rastreamento.

 

Enquanto Jair Bolsonaro brinca de criar teorias da conspiração em suas redes sociais, o povo nordestino luta contra o desastre ambiental. A luta também é contra o fascismo do atual governo, que sempre demonstrou desprezo pela região e, Bolsonaro já até chamou o Nordeste de “Paraíba”, demonstrando total ignorância. 

 

Ainda, vale lembrar, que o governo vigente também possui desprezo pelas pautas ambientais, uma vez que a pasta do Meio Ambiente tem Ricardo Salles como ministro, que já respondeu na justiça por crime ambiental. Outro ponto que não pode cair no esquecimento, é que a fauna e a flora brasileira estão sendo devastadas, vide queimadas na Amazônia e Cerrado, a lama em Brumadinho e agora, o óleo que polui as águas do Nordeste. 

 

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