• Júlia Aguiar

“Nosso modo de vida é essencialmente anticapitalista”, afirma candidato a vereador

Eleição 2020

JM entrevista Eloy Jacintho (PDT), primeiro candidato indígena a vereador em Curitiba

Candidato indígena a vereador em Curitiba, Eloy Jacintho (PDT), 12.041. Foto: Leonardo Andreiko


Curitiba é uma cidade com quase 2 milhões de habitantes, sendo o município mais populoso do sul do país. Sítios arqueológicos da região confirmam que há mais de 2.000 anos (A.C) o território já era ocupado por povos indígenas, os kaingagues e tupi-guarani. A região foi invadida por bandeirantes em 1693 quando começou o processo de ocupação dos brancos, no que mais tarde se tornaria a grande metrópole de Curitiba, capital do Paraná.


Atualmente, mais de 2.500 indígenas de 13 etnias diferentes vivem na região – seja na capital ou nas aldeias – e sendo no total 60 estudantes universitários, segundo o candidato a câmara legislativa de Curitiba, Eloy Jacintho (PDT). “A exclusão dos povos indígenas é desde o primeiro contato com o colonizador, isso antecede até a existência de Curitiba. A situação piora por estarmos em uma cidade com a maioria da população sendo branca, elitizada e com grandes nomes de baronato”, conta Eloy em entrevista por telefone ao Jornal Metamorfose.


Eloy é o primeiro candidato indígena de Curitiba, apesar de não ser sua primeira candidatura. Em 2011, Jacintho foi o primeiro vereador indígena eleito em Santa Amélia, no norte do Paraná. “Nossa aldeia tinha a tradição de disputar nos anos anteriores, lançávamos candidatos indígenas mas não tínhamos êxito no processo, a gente não chegava a ganhar a eleição”, conta.


O pai de Eloy saiu de sua aldeia, em Santa Amélia, rumo a Curitiba em 1974 em busca de uma vida melhor. Eloy nasceu em 1978 na capital, mas logo em seguida a família Jachinto retornou à aldeia, onde Eloy passou boa parte da vida. “Curitiba é uma região de presença indígena, principalmente para vender artesanato, as pessoas vêm vender aqui na cidade, meu pai também veio fazer essa perambulação nesse lugar que também é território indígena”, explica em entrevista ao JM.


Militante na causa indígena por tradição, Eloy conta que a necessidade de ocupar os espaços públicos sempre mobilizou sua aldeia. “Uma coisa que a gente sempre pautou é eleger indígenas onde existisse aldeia, fizemos trabalho de base em vários municípios que tinham aldeia, um processo muito interessante em que conseguimos envolver outras comunidades de politização, para desenvolver o conhecimento dessa estrutura política eleitoreira partidária”.


Jachinto relata que o impacto de sua primeira candidatura foi muito positiva no município, já que a comunidade indígena conseguiu dialogar mais de perto com a população que também habita o mesmo território. “Tivemos muitos votos fora da aldeia também, o que fez a gente perceber que as pessoas de fora também entendiam a importância de ter um indígena dentro da política”.


Indígena


O candidato afirma que é de esquerda e anticapitalista, porém explica que essa é uma discussão ampla. “Nossa luta assim como nossa presença antecede a qualquer tipo de organização do estado brasileiro e ideologias, antecede da associação do que as pessoas fazem de esquerda e direita”, explica em entrevista ao JM.


A comunidade indígena defende o coletivo, tendo uma visão de mundo que respeita todas as pessoas. “Eu acredito que nosso modo de vida é anticapitalista, o capitalismo não foi criado pela gente, vivemos coletivamente e não temos a necessidade da propriedade privada”.


Eloy explica que sua comunidade quer cuidar do bem viver e do viver bem, “nós fizemos isso por milhares de anos sem precisar desse modo de se organizar que coloca o dinheiro acima das pessoas, pra nós não é assim, nosso modo de vida é totalmente diferente disso”.


As eleições de 2020 é muito importante para os indígenas, tendo em vista o aumento de assassinatos das lideranças e as invasões por grileiros em terras demarcadas. “A eleição de um indígena é diferente de todos os outros candidatos, porque nossa eleição está diretamente ligada a sobrevivência dos nossos povos. Vocês precisam se reconhecer como defensor das causas indígenas, para nós não tem segunda chance”.


Propostas


Eloy Jachinto (PDT), se eleito, será o primeiro indígena a ocupar a câmara de Curitiba, e para o candidato essas eleições tem o poder de começar um processo de justiça e reparação. “É sobre chegar em um espaço de decisão, de construção de políticas públicas, em que nosso povo nunca teve representatividade”, conta.


Sua principal proposta envolve diretamente a comunidade indígena, criando políticas públicas voltadas para seu povo. Segundo o candidato é necessário garantir demarcação de terras e o acesso a políticas públicas. “Nós não temos abrigo para os indígenas em trânsito, para nossas lideranças é sempre um desgaste muito grande para vir aqui na cidade, não tem nenhuma estrutura para acolhe-las para que possam trazer suas demandas”.


Eloy quer construir abrigos e melhorar a condição do indígena que precisa estar na cidade, como por exemplo criar uma casa do estudante indígena. “Os estudantes se deparam com uma cidade que nega nossa história, chega aqui e não tem aonde se apegar, precisamos de uma casa de estudante para que ele possa chegar aqui e ter a certeza que ele vai conseguir estudar”, explica em entrevista ao JM.


Para ele, habitação é o primeiro passo para discutir direitos básicos que são negados à essa população, como educação, cultura e valorização de várias línguas indígenas. “Nossa pauta precisa estar dentro dos organismos que decidem a vida da população de Curitiba. Queremos levantar uma voz e uma bandeira nas construções de políticas públicas, levar esse pensamento diferente. Estamos cuidando de um setor que está esquecendo o que é verdadeiramente a essência de Curitiba”.


O candidato conta que a casa de passagem que existe na cidade “é mais um deposito para escolher indígena do que um abrigo”. Para Jacintho, é necessário construir um centro de referência e história dos povos, com uma casa para estudante, centro cultural, estudos. “Um lugar para acolher as lideranças, artesãs e mulheres indígenas que vem com suas crianças, porque esse é o modo de vida do indígena, ter um espaço onde essas crianças podem ficar adquirindo conhecimento, e assim por diante”, explica.


Um exemplo crítico para o candidato é a crise hídrica que assola Curitiba. “As pessoas não esperavam que essa crise fosse virar realidade, para nós sempre foi claro que fosse acontecer. A gente sabia que se matassem as nascentes a gente ia sim chegar nesse momento na nossa cidade, a aldeia que eu dou aula de língua indígena tem água limpa sem agrotóxico, água potável de qualidade, mata, fauna e flora preservada, sendo um exemplo de que dá pra reverter essa crise”.


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