• Marcus Vinícius Beck

Numa batucada de bamba

Música/crítica

Disco ‘Sempre Se Pode Sonhar’, de Paulinho da Viola, mistura declarações amorosas e nos leva a refletir sobre papel da cultura em tempos infestados de milicianos


Em isolamento social no Rio de Janeiro, o cantor Paulinho da Viola diz que “talvez saiamos diferentes” da pandemia - Foto: Marcos Froner/ Divulgação



A melhor maneira de suportarmos o teatro do absurdo no qual se transformou a realidade no Brasil é apelar para o reconforto da arte, e deixar a mente caminhar pelos labirintos da estética expressionista, pelo escarro da hemorragia verbal de malucos literatos e pelas canções feitas por músicos que leem de forma sagaz o cotidiano. Talvez seja por isso que valha a pena usar o advento da linguagem artística para refletir sobre o limite do possível e do impossível, pois engravatados costumam não entender bulhufas sobre esse papo de amor, de paixão, de sentimentos, de emotividade.


Se é paixão, devo admitir, é óbvio que é mal-resolvida. Sem redundância por aqui, só por hoje.


Quantas vezes você não viu sua vida passar da primeira até a última música tocada naquele disco? E, sorvendo numa velocidade assustadora aquela velha amiga nascida nos barris da Escócia, chorava diante do fracasso monumental em tentar contornar a cornitude. Pior: regozijava a impotência masculina quando ela abriu a porta e foi embora. O amor – como nos ensinou o mestre das palavras portuguesas Miguel Esteves Cardoso – é fodido. Eu sei.


E assim, no ritmo dos apaixonados que assistem as belezas do mundo no olhar da companheira, o Príncipe do Samba começa o disco “Sempre Se Pode Sonhar”, lançado na última sexta-feira (30) e disponível nas plataformas de streaming: “Olhar vazio/ Nenhum sinal de emoção/ Não Quero você assim/ Eu sei que não existe mais/ Aquilo que você guardava/A mesma palavra/ Querendo de explicar em mim”. É desse jeito – rasga coração, essa! – que o mestre Paulinho da Viola, de 77 anos, começa seu primeiro disco em 13 anos - último foi o “Acústico MTV”, em 2007.


É o paraíso dos sofredores. O bálsamo dos desassistidos.


Foi um Rio que passou em nossa vida, digo, foi o Rio do qual Paulinho canta e que nomeara seu disco de 1970 – clássico-mor do samba, gênero este tão vilipendiado pela tropa da moral e dos bons costumes e esquecido pelo carioca em tempos de coronavírus. “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”, o álbum, ah todo botequim passa pela nossa vidinha, deve ser ouvido sempre. Ali o Príncipe passou a comandar o império do samba, que chegou à Sapucaí por meio da Portela – escola do seu coração junto com o Vasco.



Com sua conhecida voz suave de veludo, Paulinho prossegue cantando faixa após faixa esse sentimento que alimenta a nossa vida e nos torna mais humanos. Ele começa lírico: “É de teus olhos a luz/ Que ilumina e conduz/ Minha nova ilusão/ É nos teus olhos que eu vejo/ O amor, o desejo do meu coração”, anuncia o sambista, em “Nova Ilusão”, na levada doce e aconchegante dos carinhos que o músico dedilha na viola.


Música após música, vemos que Paulinho da Viola está conectado com os tempos atuais. Suas harmonias, seu timbre de voz, suas letras provocam questionamentos pertinentes, do tipo: com o que podemos sonhar agora? Qual é o limite do possível e do impossível? Utopia versus distopia? É possível amar em tempos de milicianos e pastores (i) morais? E o papel da cultura em nossa vida, como fica nos dias de hoje? As questões, naturalmente, estão postas pelo cancioneiro. Já as respostas...


Bom, a letra da faixa-título nos oferece uma pista: “Meu samba fala em adeus, sim/ Mas também pode ocultar/ Um sonho que se perdeu/ E sempre se pode sonhar...” Desde que surgiu nos festivais realizados nos anos 60, Paulinho construiu um repertório particular para que leiamos com a lupa da música as atrocidades de nosso País tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. E quando o debate é sobre o samba, então Paulinho se torna um protagonista: a dianteira do gênero é dele há muito tempo.


Ouvir Paulinho da Viola é compreender um pouco mais o Brasil. Que essa relíquia seja um reconforto. “Sempre Se Pode Sonhar” é um bom disco, obrigado.


Sempre Se Pode Sonhar

Autor: Paulinho da Viola

Gênero: samba

Disponível nas plataformas digitais

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